A dialética entre dor e propósito e o mito da genialidade

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Helena é uma mulher brilhante, espirituosa e está no auge de sua carreira de sucesso em artes plásticas. Para quem a vê de fora, ela parece ter tudo o que deseja. Mas Helena está deprimida e com medo de fracassar. Ela é uma artista muito respeitada e querida. Ao mesmo tempo, carrega consigo diariamente um enorme sofrimento emocional, a ponto de enfrentar muitas dificuldades para manter sua funcionalidade e produção artística. Helena tenta se manter anestesiada a maior parte do tempo, além de sofrer de insônia e pesadelos constantes. Ela acredita em várias vozes interiores (pensamentos) assustadoras, que lhe dizem coisas como “você não tem valor”, “um dia todos irão perceber o quão fracassada você é”, “não se contente com esses elogios ou se conformará com muito pouco”. Helena mergulha neste abismo inúmeras vezes. Para ela, não há respostas, apenas uma tristeza visceral que sente e à qual às vezes se entrega sem conseguir reagir.

O mais intrigante é que, durante os momentos de tristeza profunda, Helena inicia a produção de diversas obras de arte – nem sempre concluídas por conta de suas intensas variações de humor. Seus mergulhos na tristeza lhe garantem boas razões para que se considere uma mulher atraente e especial perante os demais: são eles que dão à luz as suas mais importantes produções, permitindo que ela consiga influenciar pessoas e acreditar estar vivendo uma vida com propósito.  

A entrega ao fascínio de sua produção artística somada à sensação constante de fracasso, geram em Helena uma busca por alívios imediatos. Ela flerta com a vida e com a morte de uma maneira intensa. Helena entra e sai de relacionamentos intensos e destrutivos, os quais servem de combustão para novas produções e momentos de frustração e fascínio.

Em seu íntimo, Helena sabe que não quer viver uma vida com tanto sofrimento. Ela não aguenta mais essa tristeza devastadora. Ao mesmo tempo, sua vida parece girar em torno das possibilidades que essa emoção traz.

Mesmo com a aplicação de estratégias baseadas nos paradigmas de aceitação e mudança da Terapia Comportamental Dialética (DBT), nos vemos constantemente imersos em dúvidas sobre o que, de fato, seriam as sínteses dialéticas que resultariam na construção de vidas com propósito, e qual a função da dor emocional ao longo deste processo.

Não é incomum que a biografia sofrida de artistas, pensadores e intelectuais seja vista como causa e efeito do seu brilhantismo em nossa cultura. É frequente, inclusive, referimo-nos a personagens ilustres que sucumbiram a intensas e frequentes crises emocionais como “inteligentes demais para o mundo em que vivia”, “uma pessoa à frente do seu tempo”, ou como alguém “sensível demais para conviver em grupos”.

Aqui entenderemos a palavra “artista” não apenas no sentido de produção de obras, mas também como um modo de poder existir com autenticidade. Ou seja, fazendo referência aos aspectos únicos do repertório comportamental de uma pessoa e que a distingue de outras.

Para muitas pessoas que vivenciam uma alta sensibilidade às emoções, aquilo que a define torna-se o mesmo que a devora. Disto, resulta o paradoxo dialético vivido por aqueles que, assim como Helena, acreditam que a vulnerabilidade à tristeza faz parte de sua mente criativa e artística, e que uma vida valorosa é resultado de abnegações e sofrimento. Afinal, são pessoas que comumente têm seu modo de expressão emocional ressaltado como algo permeado pela genialidade.

A dor faz parte da vida e dela nós não temos escapatória. Isto também é válido quando estamos diante da elaboração ou condução de projetos que são significativos para a vida que queremos viver, para os quais o medo e a ansiedade podem ser companheiros constantes. Entretanto, o mito do artista genial muitas vezes esconde alguém que não possui uma história de êxitos, mas sim de muitas tentativas, frustrações e fracassos acumulados.    

Uma vida com propósito seria o resultado da síntese entre as regras do mundo (cultura e sociedade) e a região insegura do artista (Pessanha, 2018). Seria a transação entre as regras absorvidas ao longo de histórias de aprendizagem e as variadas formas em que tais regras invadem o momento presente, podendo causar uma falsa impressão de dor com propósito.

A existência de situações de tensão entre polaridades pode servir de base para a síntese de uma vida que valha a pena ser vivida. Neste processo, a dor pode, sim, emergir (algumas dores são inerentes a eventos de nossas vidas). Porém, cabe a nós notarmos a diferença entre dor emocional advinda de emoções naturais como tristeza, medo, raiva; e sofrimento oriundo de mecanismos de esquiva de experiências dolorosas, em que chafurdar na dor torna-se uma esquiva da verdadeira dor. Afinal, será que cabe ao artista o lugar de alguém que precisa estar submerso em seu próprio sofrimento para poder ter seu valor assegurado? 

Referências

McKay, M., Wood, J. C., & Brantley, J. (2019). The dialectical behavior therapy skills workbook: Practical DBT exercises for learning mindfulness, interpersonal effectiveness, emotion regulation, and distress tolerance. New Harbinger Publications.

Pessanha, J. G. (2018). Recusa do não-lugar. Ubu Editora LTDA-ME.

Pessanha, J. G. (2018). Testemunho transiente. Editora SESI-Serviço Social da Indústria.

Swenson, C. R. (2016). DBT principles in action: Acceptance, change, and dialectics. Guilford Publications.

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