O que herdamos de evolutivo de William James

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William James quando tomou parte na expedição Brasil liderada por Louis Agassiz, foto de 1865. Acessado em 30 de outubro de 2020. Link da fonte: https://www.uky.edu/~eushe2/Pajares/JamesInBrazil1865.html

Evolução é o processo natural de mudança nas populações dos seres vivos a cada geração. Essa mudança acontece pela diferença nas habilidades de cada animal em reproduzir. De forma simples, quanto mais um animal reproduz, maior é a frequência das características que ele carrega entre as novas gerações. Nada faz sentido em biologia fora da teoria da evolução das espécies (Dobzhansky, 1973) e na psicologia não é diferente. As ideias evolucionistas influenciaram fortemente a psicologia desde as últimas décadas do século XIX. Sua popularidade e relevância alcançaram investigadores tão diversos quanto Sigmund Freud até George Romanes e Conan Lloyd Morgan. Contudo, as ideias evolutivas da psicologia científica foram popularizadas e universalizadas pelo livro Fundamentos de Psicologia de William James (James, 1890; 1892).

Neste texto, James une diversas linhas de investigação neurológicas e psicológicas de sua época com ideias filosóficas e científicas (especialmente biológico) que, quando articuladas na narrativa de seu livro, ofereceram um programa de pesquisa em psicologia que influenciaria o desenvolvimento desta disciplina ao longo do século XX e, em certa medida, até os dias de hoje (Santana, 2019). Os “fundamentos” de James foram o livro texto de psicologia mais popular até os anos 1960 e ainda é usada em diversos cursos introdutórios à área até hoje em instituições do mundo todo (Evans, 1990).

Parte desta influência de James pode ser explicada pelo seu esforço de “naturalização” da mente. Naturalizar significa dar uma explicação ou ter um entendimento de que um objeto ou um fenômeno é natural, isto é, acontece na natureza e independe da formulação ou da vontade de um observador. Para James, a consciência era um fenômeno tão natural quanto a gravidade, a eletricidade ou a vida, e – portanto – poderia se manifestar em diversos objetos e diferentes maneiras. Tal qual a eletricidade de um relâmpago é tão “elétrica” quanto a de um neurônio em nosso cérebro, a consciência de um ser humano seria em relação a de um chimpanzé ou de um rato, por exemplo. Manifestações em escalas e por razões distintas, sim. Mas manifestações de um mesmo princípio natural.

Esta ideia de James tem várias implicações. Por exemplo, James considerava que coisas não vivas poderiam manifestar consciência em alguma forma ainda que mais simples e profundamente distinta na observados nos seres humanos e em outros animais (James, 1890; 1892). Da mesma forma, James não descartava a possibilidade e a necessidade de investigar fenômenos ditos “paranormais” para descartar os elementos místicos desses fenômenos e, ao mesmo tempo, aprender sobre possíveis manifestações da mente e da consciência em situações extremas e/ou na interação da mente humana com a de outros objetos (James, 1902). Vale ressaltar que esta última parte da obra de James não o levou se não a muitas comprovações de charlatanismo e exploração da boa fé de outras pessoas em golpes promovidos por supostos sensitivos e “místicos” (James, 1902). Mas a principal consequência desta visão de James foi justificar a pesquisa científica da então chamada psicologia animal. Se a consciência é um fenômeno natural que se transformou com a evolução, é fundamental entender sua história para entender sua estrutura, funcionamento, potencialidades e limites. E investigar outras espécies é um caminho necessário para conhecer essa história natural da mente.

Contudo, como seria possível investigar sobre a mente dos animais? Será que um cão, um gato, um rato, um macaco e um ser humano sentem, aprendem, percebem e pensam o mundo da mesma forma? Poucas pessoas concordariam com isso de cara hoje em dia, no século XIX tão pouco. E se pensássemos numa aranha, uma minhoca, uma esponja, uma árvore qualquer, seriam todos esses seres vivos conscientes? Perguntas muito exigentes, não? Por onde começar a respondê-las? Como tudo em ciência, com boa teoria e boa prática. Necessariamente as duas.

Para dar um tratamento prático a essa história natural da mente, James se inspirou em Herbert Spencer para construir sua definição de consciência. Spencer considerava que tudo na natureza estava em evolução. Dos sistemas físicos (dos estágios de mais para os de menos agitação) à sociedade (da menor até a maior complexidade), perspectiva que ficaria conhecida como pan-Darwinismo (embora fosse uma ideia de precedia a própria publicação d’A Origem das Espécies por Charles Darwin em 1859). Essa noção de Spencer via na evolução um caminho de conservação, desenvolvimento e aperfeiçoamento. Ideias preservadas por James em sua definição de consciência. Para James a mente evoluiu com a evolução da consciência. A consciência seria a função biológica que permitia ao organismo aprender e adaptar-se ao seu ambiente presente. Uma evolução no tempo de vida de um organismo. Com a consciência selecionando ações e ideias importantes para autopreservação a partir da evitação de situações de risco e dor e pela busca de oportunidades de prazer.

Essa confluência entre consciência e adaptação influenciaria a psicologia americana do início do século XX em suas três escolas (estruturalista, funcionalista e behaviorista). A psicologia da Gestalt demonstraria vários fenômenos perceptuais que revelavam vieses perceptuais que contradiziam a noção de que a consciência funcionaria nesse regime ótimo ou ideal e que serviria como uma das bases para a crítica do movimento cognitivo e para as transformações na psicologia a partir dos anos 1960. Ainda assim, o impacto dessa noção de “adaptação” de James é longeva e fala de um tipo de evolução dentro do tempo de vida do indivíduo que é distinta da noção estritamente Darwinista.

James pressupunha um desenvolvimento com aumento gradual da complexidade e da eficiência da consciência de um organismo ao longo do seu tempo de vida. Uma característica que o coloca um pouco mais próximo da noção de que a ontogenia recaptula a filogenia, como popularizado por Haeckl na virada do século XIX para o século XX. Nesta ideia de Haeckl, um organismo recaptularia em seu período embrionário etapas da evolução de sua espécie. Por exemplo, no desenvolvimento embrionário de baleias, seus embriões mostravam a formação de falanges nas estruturas que se imaginavam ser equivalentes aos nossos dedos humanos. No recém nascido dessas espécies percebe-se apenas “vestígios” desses dedos que não tem a mesma função de manipulação que tem para os humanos.

Agora imagine um gato dentro de uma caixa em que – para sair da caixa – o gato precisa puxar um arco pendurado por uma corda pendurada do teto da caixa. O gato arranhará a grade, empurrará a parede com a cabeça e diversas outras ações antes de puxar o arco pela primeira vez. E muito provavelmente repetirá vários “erros” quando colocado nessa mesma caixa outras vezes até atingir um nível de familiaridade com a caixa que o permita puxar o arco com prontidão pouco depois de ser colocado dentro da caixa problema. Essa repetição de erros, para James (1890; 1892), é uma forma de recapitulação de estágios mais inferiores da evolução da consciência e a capacidade de responder prontamente a essa situação problema de adaptação. Essa adaptação selecionaria ideias eficientes na representação das relações mecânicas e causais do ambiente para solução do problema. Desta forma, a consciência em James é uma função biológica que se desenvolve ao longo da vida de um organismo num sentido de aperfeiçoamento ou melhoramento (influenciada por ideias de Herbert Spencer) e que recaptula ao menos em parte a história natural de sua espécie (influenciada por Ernst Haeckl).

Reconhecer essas influências é fundamental para compreender as dificuldades teóricas e metodológicas da psicologia em integrar-se às investigações da biologia evolutiva e do desenvolvimento contemporânea (Santana, 2019). Áreas mais naturalistas da psicologia, como a Análise Experimental do Comportamento ainda se fundamentam em modelos diretamente influenciados pela obra adaptacionista de William James. E essa influência pode ser percebida pelo papel discreto que métodos que investiguem especificamente sobre variabilidade, emergência e outros mecanismos de seleção comportamental (sem reforço direto, por exemplo) tem para a expansão de repertório, desenvolvimento individual e ajustes de fitness em indivíduos e grupos. Revisitar a história nos revela uma oportunidade de compreender como chegamos até aqui, o que nos limita e como superar esses limites para construção de uma ciência psicológica mais forte, correta e integrada consigo mesma e com outras ciências.

Referências

Dobzhansky, T. (1973). Nothing in Biology Makes Sense except in the Light of Evolution. The American Biology Teacher, 35(3), 125-129.

Evans, R. (1990). William James, “The Principles of Psychology,” and Experimental Psychology. The American Journal of Psychology, 103(4), 433-447. doi:10.2307/1423317.

Haeckl, E. (1904). The Wonders of Life: A Popular Study of Biological Philosophy. Glasgow: Good Press.

James, W. (1890). Principles of Psychology, vol 1. New York: Henry Holt and Company.

James, W. (1892). Principles of Psychology, vol 2. New York: Henry Holt and Company.

James, W. (1902). Varieties of religious experience. Acessado em: https://www.gutenberg.org/files/621/621-pdf.pdf.

Santana, L.H. (2019). Evolutionary Ideas and the Naturalization of Mind in William James Principles of Psychology. Human Ethology, 34, 104-116. DOI: 10.22330/he/34/104-116

Spencer, H. (1855). The Principles of Psychology. London: Longman, Brown, Green and Longmans.

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