ValidAção: Adaptando o treinamento de habilidades em DBT para auxiliar profissionais da saúde atuando no combate ao COVID-19

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Texto escrito por Brisa Burgos Dias Macedo e Vinícius Guimarães Dornelles

Caros leitores do comporte-se, diante da pandemia ocasionada pelo COVID-19 estamos atravessando um período de grandes adaptações à nível global. No Brasil, especificamente, estamos realizando esforços sobre-humanos para utilizar a dialética proposta pela DBT e já debatida em textos anteriormente publicados neste portal (clique aqui) e (clique aqui) – aceitar as coisas como são e, ao mesmo tempo, realizar as adaptações em nossas vidas que este “novo normal” tem exigido. Parece que as habilidades praticadas no treinamento de DBT nunca tiveram tanto a contribuir para “sobrevivência” de todos. A exigência de esforços coletivos para tolerar mal-estar e regular emoção à esse nível só parecem ter sido vivenciadas durante as grandes guerras e outras situações de desastres naturais e pandêmicas.

        Estudos realizados em países que foram expostos ao COVID-19 em meses anteriores ao Brasil, apontam que a saúde mental de profissionais que atuaram na linha de frente do combate ao vírus sofreu consequências, principalmente, devido ao risco constante de contaminação a que os mesmos estavam expostos (Chang et al., 2020; Wang et al., 2020). Aspectos como, por exemplo, alto nível de estresse, escassez de equipamentos de segurança, aumento da carga horária de trabalho e dos sintomas ansiosos e depressivos também chamam atenção para a vulnerabilidade psicológica que estes profissionais enfrentam durante a pandemia (Chen et al.,2020; Kang et al., 2020; Li et al., 2020; Zhu et al., 2020). No Brasil estes riscos à saúde mental de profissionais atuantes na linha de frente vêm sendo medidos por estudos realizados em grandes centros universitários, como este da Faculdade de Medicina de Ribeirão Preto da Universidade de São Paulo (acesse o link), que se propõe a avaliar aspectos psicológicos de profissionais da saúde atuantes à nível nacional e direcionar para busca de ajuda!

  É dentro desse contexto de risco iminente à saúde mental que se observa a necessidade de novos formatos de intervenção breve e que contam com a ajuda da tecnologia, que tenham como objetivo diminuir os riscos de grandes impactos psicológicos entre os profissionais que atuam na linha de frente do COVID-19 (Chen et al., 2020; Greenberg et al., 2020), sem a necessidade de debriefing. É daí que surge a ideia do projeto citado no título deste texto – ValidAção.

De acordo com os preceitos propostos por Marsha Linehan em DBT (2018) validar consiste em perceber o que existe de válido nas respostas das outras pessoas, sejam elas pensamentos, emoções, comportamentos, impulsos e/ou intenções. Embora seja um conceito a princípio complexo de ser compreendido pela sua definição, sua aplicabilidade pode fornecer uma compreensão mais acurada sobre o que é validação. Assim sendo, observe o seguinte exemplo: imagine que uma pessoa está em uma fila do supermercado com muitas compras para passar no caixa e ainda têm três pessoas a sua frente. Essa pessoa está com medo de se atrasar para o trabalho pois tem somente 20 minutos para chegar lá e na última semana recebeu uma advertência por chegar atrasada. Então, ela resolve empurrar todos a sua frente para ir mais rápido pagar as suas compras. O comportamento dela tem como consequência a chamada da equipe de segurança do supermercado que faz com que ela tenha de aguardar a chegada da polícia para o registro da ocorrência fazendo assim com que, fatidicamente, ela se atrase muito para o trabalho. Obviamente ao olhar para o exemplo apresentado acima fica claro que o comportamento dessa pessoa foi claramente inefetivo para as suas intenções. Ao mesmo tempo podemos observar que é natural que essa pessoa tenha medo em ser repreendida no trabalho por chegar atrasada novamente e a sua intenção em tentar ser mais rápido está vinculada aos seus objetivos e tem sentido frente ao contexto no qual ela ocorre.

Validação, neste caso, não é concordar com o comportamento claramente disfuncional, mas sim olhar a resposta como um todo e conseguir identificar, justamente, os elementos sábios ou que estejam baseados em fatos na resposta do outro. Assim, perceba que a validação possui a função de “separar o joio do trigo” para que a pessoa possa modificar o que na resposta dela necessita ser modificado e, dessa forma, não acabe generalizando e entendendo que ela por inteiro ou toda a sua resposta é errada. Para validar se faz necessário compreender o ponto de vista apresentado por uma outra pessoa. Diante do exposto, conclui-se que validar significa também dar atenção as emoções, aos pensamentos e as condutas de alguém. Essa validação pode ser demonstrada de diversas formas, inclusive no olhar os olhos, no prestar atenção no que é falado, na expressão de empatia e na compreensão da opinião do outro, inclusive quando ela for contrária ou diferente da que construímos com base em nossas experiências. É preciso compreender que o lugar de onde olhamos – nossos costumes, cultura, trabalho e vivências anteriores – tem influência em nossa perspectiva da vida e, por essa lógica, seria muito difícil, e até mesmo invalidante, nos exigirmos ou exigirmos do outro entender o mundo a partir “do ponto que estamos olhando”. Validar é tocar o mundo do outro de forma generosa, com disposição e consciência de que estamos abrindo mão de nossas defesas ou da imposição de nossas “certezas” em prol de algo ainda maior – a compreensão e o reconhecimento da validade genuína do ponto de vista, ações e sentimentos do outro.

Levando em consideração o momento que estamos enfrentando é possível afirmar que a DBT, assim como citado na entrevista realizada com o Tony DuBose para este portal (clique aqui), tem habilidades diversas que podem contribuir para minimizar a dor do momento presente e nos ajudar a aceitar a realidade como ela é na vida de qualquer pessoa que ouse treiná-las até mesmo durante a pandemia. Entre estas habilidades podemos incluir a validação, habilidade que dá nome ao projeto aqui apresentado. Além disso, a DBT tem a capacidade de nos fazer focar nas mudanças realizáveis dentro do contexto que vivenciamos no momento presente. Estes são justamente os tipos de habilidades que profissionais da saúde submetidos ao ambiente invalidante das unidades intensivas e emergências hospitalar precisam no momento – aceitação e validação a partir de uma difícil realidade e motivação para fazer o que funciona sem se descuidar de si mesmo!

Foi assim que surgiu a ideia do projeto ValidAção aqui descrito. Tal projeto consiste na adaptação de um protocolo de treino de habilidades em DBT gratuito e no formato online e realizado em sete encontros – 1 de pré tratamento e mais 6 para treinar habilidades que possam instrumentar os profissionais atuantes de linha de frente no combate ao COVID-19 no enfrentamento desse difícil momento. O objetivo do projeto é desenvolver profissionais para que estes também possam ensinar as habilidades em DBT para outros colegas de seus locais de trabalho e, desta forma, “multiplicar” o benefício que tais habilidades podem trazer neste momento para o contexto de quem trabalha com saúde. No projeto será trabalhada a capacidade de aceitar a realidade que estamos vivenciando sem piorar um cenário que já é, naturalmente, desgastante para os profissionais desta área. Neste contexto serão treinadas, especificamente, habilidades de DBT que possam ajudar na aceitação da realidade como, por exemplo, aceitação radical e validação e aquelas habilidades relacionadas a mudança que possam ser implementadas diante do cenário atual como, por exemplo, identificação das emoções e promoção do autocuidado. 

É preciso lembrar a população que em um momento tão difícil para sociedade como o que estamos passando, principalmente pelo impacto do isolamento social e da saturação do sistema de saúde causados pelo COVID-19, é preciso cuidar de quem cuida de nós, promover saúde e prevenir que estas pessoas adoeçam física e mentalmente!

Em breve, quem sabe, compartilharemos os frutos dessa experiência…

Até a próxima!

Chang, D., Xu, H., Rebaza, A., Sharma, L., & Cruz, C. S. D. (2020). Protecting health-care workers from subclinical coronavirus infection. The Lancet Respiratory Medicine8(3), e13.

Chen, Q., Liang, M., Li, Y., Guo, J., Fei, D., Wang, L., … & Wang, J. (2020). Mental health care for medical staff in China during the COVID-19 outbreak. The Lancet Psychiatry7(4), e15-e16.

Greenberg, N., Docherty, M., Gnanapragasam, S., & Wessely, S. (2020). Managing mental health challenges faced by healthcare workers during covid-19 pandemic. BMJ368.

Kang, L., Li, Y., Hu, S., Chen, M., Yang, C., Yang, B. X., … & Chen, J. (2020). The mental health of medical workers in Wuhan, China dealing with the 2019 novel coronavirus. The Lancet Psychiatry7(3), e14.

Li, Q., Guan, X., Wu, P., Wang, X., Zhou, L., Tong, Y., … & Xing, X. (2020). Early transmission dynamics in Wuhan, China, of novel coronavirus–infected pneumonia. New England Journal of Medicine.

Linehan, M. M. (2018). Treinamento de habilidades em DBT: manual de terapia comportamental dialética para o terapeuta. Artmed Editora.

Zhu, Z., Xu, S., Wang, H., Liu, Z., Wu, J., Li, G., … & Zhu, S. (2020). COVID-19 in Wuhan: Immediate Psychological Impact on 5062 Health Workers. medRxiv.

Wang, C., Pan, R., Wan, X., Tan, Y., Xu, L., Ho, C. S., & Ho, R. C. (2020). Immediate psychological responses and associated factors during the initial stage of the 2019 coronavirus disease (COVID-19) epidemic among the general population in china. International Journal of Environmental Research and Public Health17(5), 1729.

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