Em busca dos próprios valores… o árduo processo de dar sentido a si mesmo

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Quando pensamos na definição de valores como sendo “construções verbais de consequências desejadas na vida, direcionamento de ações” (Saban, 2015, pág. 84), entendemos que ao fazer contato, saber descrever e, principalmente, ter ações congruentes com valores seria o mesmo que estar sintonizado com o que faz sentido para si. Isso difere totalmente de metas ou objetivos, uma vez que valores não se encerram e tem por função serem apenas os direcionadores para os nossos comportamentos.

A grande questão é que ter ciência e entrar em contato com aquilo que de fato nos traz esse senso de vitalidade, conexão e contato com o momento presente, traz consigo a necessidade de abertura a vulnerabilidade e a escolhas nem sempre muito confortáveis. O grande paradoxo presente é que por muitas vezes buscar ativamente os nossos valores significará também estar optando por ir ao encontro do novo, do desconhecido, do incalculável. Afinal, a escolha é pelo que de fato importa, e não simplesmente o que lhe faz bem no momento imediato, a curto prazo.

Ao entender a complexidade dessa escolha vemos que ela traz consigo as informações do que aprendemos e como lidamos com os nossos pensamentos, emoções, percepção de si e o que faremos a partir disso tudo. Ou seja, esbarramos em todos os elementos presentes no modelo hexaflex, a saber, desfusão, aceitação, self como contexto e ação comprometida, respectivamente.

Certamente saber nominar, descrever e agir conforme os próprios valores é um árduo processo de vida (uma vez que não se encerra), é uma fonte inesgotável de reforçamento positivo (ainda que contenha em si respondentes nem sempre tão apetitosos no momento da ação inicial). É uma bussola que nos aponta a direção que faz mais sentido para nós.

Cabe aqui salientar que é um processo que exige aprendizado e que as inabilidades históricas do indivíduo (por falta de repertório de aprendizado) podem lhe trazer dificuldades discriminativas do que de fato é sobre si mesmo e não da sociedade ou do que “é certo” (baseado em regras pré apresentadas e não questionadas). Além dos efeitos da história de vida do sujeito, também podemos sinalizar que há um efeito biológico, intrínseco a cada um de forma muito singular, bem como um efeito cultural, relacionado ao meio em que vivemos. Essa tríade vai nos ensinando e moldando a ver determinados elementos como mais valorosos do que outros.

Um primeiro passo para se acessar valores será auxiliar o paciente a reconhecer, descrever e descriminar tais diferenciações, para poder visualizar as possíveis discrepâncias entre o que ele diz e o que ele faz em seu cotidiano. Afinal, é sobre o que se faz que passamos a viver uma vida efetivamente valorosa e que faça sentido para nós.

Depois dessa conscientização sobre si, sobre o que lhe faz sentido e o que tem feito a esse respeito, seguimos o processo para que esse conhecimento se expanda e se mantenha na prática. Cabe aqui ressaltar que não necessariamente o trabalho com valores será um primeiro passo no processo terapêutico, mas sem dúvida terá uma importante parcela para o contato com o senso de coerência, vitalidade e satisfação de se viver de acordo com o que lhe faz sentido.

Referências Bibliográficas

  • Saban, M. (2015). Introdução a terapia de aceitação e compromisso. Belo Horizonte: Ed. Artesã
  • Lucena-Santos, P., Pinto-Gouveia, J., Oliveira, M. da S. (2015). Terapias comportamentais de terceira geração: guia para profissionais. Novo Hamburgo: Sinopsys

Lucena-Santos, P., Pinto-Gouveia, J., Oliveira, M. da S. (2015). Terapias comportamentais de terceira geração: guia para profissionais. Novo Hamburgo: Sinopsys

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