Uma pitada de Autocompaixão e Parentalidade: acolhendo-se nos momentos da vida

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Era uma vez uma criança que foi ensinada que o caminho do sucesso é o controle de tudo e de todas as coisas, inclusive do que você pensa ou sente. À medida que crescia essa criança foi ganhando modelos que validassem esse ensinamento ancestral. No entanto, em um dado período de sua vida ela entrou em contato e experienciou situações que iam de encontro disso, que pareciam não ter controle, que não estavam enlaçadas em suas rédeas. Ao perceber isso, essa criança, que não é mais um infante, mas um adulto, percebe uma série de rupturas, pois até então o controle havia dado certo, com isso aumentam as tentativas de controlar tudo o que é vivenciado e experienciado. A partir desse “desencontro” a pessoa é abarcada por um misto de pensamentos de autocobrança, autocrítica e autojulgamento. Assim, tal pessoa busca inexoravelmente ser “perfeito”, ou seja, manter as rédeas da vida sob sua mão, pois foi assim que ela aprendeu e assim deveria ser.

Este pequeno conto retrata as experiências e vivências de muitas pessoas que desde muito pequenas foram ensinadas a controlar todas as coisas, em especial seus eventos encobertos (e.g.: pensamentos, sentimentos, emoções, memórias, sensações fisiológicas, etc.) e que entram em contato, mesmo que forçadamente, com a ruptura entre essa expectativa e o que é de fato real, ou seja, a impossibilidade do controle (Skinner, 1953/2003; Coyne & Murrell, 2009). Geralmente, quando entramos em contato com essa constatação, passamos por um processo de intenso sofrimento, pois além de termos sido ensinados a controlar tudo o que passa por nosso universo por debaixo da pele, aprendemos e apreendemos que quando isso não ocorre é um sinal de desajustamento, de fraqueza ou um déficit no nosso repertório de controle. Diante disso, somos contemplados por uma frequência considerável, e muitas vezes persistente, de pensamentos com conteúdo de autocrítica e autojulgamento. Discutimos conosco mesmo “Por que não estamos controlando nossa vida?”, “Por que estamos passando por isso?” ou “Por que estou pensando/sentindo isso? Eu não deveria ser assim! Preciso resolver e dar conta disso o quanto antes!”. Descrevo esse parágrafo na primeira pessoa, pois muitas vezes me pego nesse processo. No entanto, não precisamos chegar a esse ponto, é de suma importância que reconheçamos a nossa humanidade e percebamos que podemos cometer falhas, que podemos errar, afinal somos seres humanos. A isto, dar-se-á o nome de Autocompaixão (Coyne & Murrell, 2009; Neff, 2017).

Você leitor ou leitora desse texto deve já ter se visto nesse processo cíclico de críticas e autocríticas. Agora gostaria de te fazer um convite: imagine que você é um/a pai/mãe ou cuidador/a (caso já não seja) responsável pela criação, cuidado e proteção de uma criança ou mais e esse ser em desenvolvimento apresenta comportamentos-problema, sejam eles característicos de sua faixa etária ou não, repertórios esses com potencial de causar desorganização no ambiente, bem como, acarretar em déficits marcantes no desempenho e participação desse no ambiente ou comunidades nas quais faz parte. Conseguiu se colocar nesse cenário? Agora gostaria que você imaginasse que sua criança está apresentando comportamentos-problema (Ex.: gritar, chorar e jogar-se no chão) enquanto você está tentando rodar uma sessão de atendimento domiciliar com ela ou, até mesmo, você está no supermercado e ela quer aquele biscoito preferido e você nega o pedido. Que sentimentos, emoções, pensamentos, e, até mesmo, reações fisiológicas (isto é, eventos encobertos na linguagem da Análise do Comportamento) você estaria vivenciando nesse momento?

[…]

Acredito que alguns desses pensamentos tenham passado por você: “O que eu fiz de errado?”, “Eu não estou sendo um bom/boa pai/mãe”, “Por que essa criança tem que ser assim?”, “O que eu preciso fazer de diferente?”, “Eu sou um fracasso”, “Eu sou um/a bosta enquanto pai/mãe”, etc., ou alguns desses sentimentos: raiva, tristeza, angústia, preocupação, esgotamento, sensação de fracasso, de desvalia, dentre outros sentimentos e sensações.

Como foi para você imaginar esse processo (caso você já não vivencie isso)? Provável que você tenha se colocado no lugar dessas pessoas e tenha tido compaixão para com elas. Com frequência, pais, mães e cuidadores de crianças, sejam elas neurotípicas ou atípicas[1], experienciam níveis consideráveis de estresse e desgaste emocional e, por vezes, são invadidos por uma série de eventos encobertos com conteúdos pervasivos e intensos de autocrítica, autocobrança e autojulgamento. Ainda, frequentemente essas pessoas experienciam uma sensação de que não estão fazendo nada direito ou de que não estão fazendo o suficiente, isto é, não estão dando o seu máximo, mesmo que os fatos contestem tal concepção (Coyne & Murrell, 2009; Neff, 2017).

Diante disso, além do sofrimento desencadeado pela tentativa desenfreada de controlar ou eliminar eventos encobertos avaliados como desagradáveis, pais, mães e cuidadores experienciam um aumento do seu sofrimento decorrente do autocriticismo tão preponderante e marcante. Ao lidar com isso, com frequência, as pessoas se envolvem em um ciclo infindável de negação, barganha e contestação disso, ou seja, se envolvem, continuamente, em situações que contestem (leia-se: “suavizem”) a autocrítica e o autojulgamento, mas que a longo prazo acabam por aumentá-los.  Nesse momento é de suma importância que os pais coloquem em prática um processo muito importante que se chama AUTOCOMPAIXÃO. Aqui volto novamente para a primeira pessoa, pois com frequência nos colocamos no lugar das demais pessoas, percebemos e validamos que elas estão fazendo o melhor que podem naquela situação pelo qual estão passando. Todavia temos uma dificuldade considerável em fazer isso conosco, isto é, adotar uma postura autocompassiva para com nossas falhas e erros (Coyne & Murrell, 2009; Neff, 2017). Mas afinal o que seria Autocompaixão?

Autocompaixão envolve reconhecer claramente o sofrimento ou as situações que lhe são desagradáveis, um reconhecimento não de forma passiva, mas sim, identificando que isso faz parte do seu processo de desenvolvimento e existência, enquanto ser humano. Autocompaixão envolve, também, você reconhecer que é um ser humano, e por isso pode ser imperfeito, cometer falhar e equívocos, pois afinal você não é um robô, que possui todos os comandos e conhecimentos (desde o início da sua vida, até o término dessa). Autocompaixão possibilita, também, que você reconheça e aceite as suas fragilidades e a partir disso que você aprecie e entre em contato com as belezas da vida, bem como, viva uma vida valorosa e que valha a pena ser vivida (Neff, 2017). Além disso, autocompaixão envolve…

“[…] querer saúde e bem-estar para si, e leva a um comportamento proativo. Busca-se melhorar a situação, e não permanecer na passividade. Sobretudo, a autocompaixão não significa considerar os meus problemas mais importantes que os seus, significa apenas colocar ambos os problemas no mesmo nível de importância, entendendo-os como dignos de serem atendidos.” (Neff, 2017, p. 20)

Através da autocompaixão os pais, mães e cuidadores de crianças típicas ou atípicas são convidados a saírem do barulho (leia-se confusão) gerado pelos seus pensamentos e sentimentos críticos e julgadores e adotarem um movimento de autocuidado, autorrespeito e de reconhecimento de sua humanidade, uma humanidade compartilhada com todos os demais seres humanos. No entanto, para que isso seja possível é de suma importância que tais cuidadores busquem profissionais competentes, pois afinal, tal repertório não será desenvolvido de uma hora para outra através da leitura de um ou mais livros, mas sim pelo processo de autoconhecimento e treinamento continuado dessas habilidades (Neff, 2017).

O repertório de Autocompaixão é sustentado por três pilares elementares (pode parecer redundante tal afirmativa, mas isso mostra o quão essencial essas competências serão e são para o desenvolvimento e prática continuada da autocompaixão (Neff, 2017). Os pilares são:

  • Autobondade – envolve a habilidade de interromper o autojulgamento, não seguir no fluxo de pensamentos autocríticos ou pejorativos, mas adotar uma postura de respeito, cuidado, afeto e atenção para consigo mesmo. Autobondade envolve, também, reconhecer e aceitar os seus eventos encobertos e dificuldades sem condená-los/as ao mesmo tempo que reconhecer e respeitar os seus limites.
  • Reconhecer a sua/nossa Humanidade – você não é um robô, você, assim como eu, é um ser humano que possui falhas, fraquezas e que não é perfeito. Por mais que pareça doloroso admitir isso, ainda assim, tal postura possibilita que você tome consciência e reconheça que está conectado com os demais seres humanos, que assim como você, as demais pessoas sofrem e a relação oposta, também, é real. Reconhecer a sua humanidade e entrar em contato com a famosa frase “estamos na mesma tempestade, mas em barcos separados”.
  • Atenção Plena – através dessa competência será possível que a pessoa entre em contato, de forma consciente, com suas dificuldades, com seu sofrimento e com sua dor, isto é, estar atento a esses processos ao mesmo tempo em que não fica presa a eles. Estar atento a si mesmo, ao seu universo por debaixo da pele e, até mesmo, ao ambiente externo envolve treinar e colocar em prática as posturas de abertura, não crítica, de não reatividade e não julgadora. Nas palavras de Kristin Neff (2017) “Para nos darmos compaixão, primeiro temos que reconhecer nossos sofrimentos. Não se pode curar o que não se pode sentir” (p. 85).

Posto isso, a partir do trabalho desses três elementos será possível para os pais, mães e cuidadores (não só para eles, mas para as demais pessoas, também) darem início ao processo de autocompaixão. A proposta desse texto não foi descrever extensamente os objetivos e demais componentes na autocompaixão, mas sim indicar que essa competência é um caminho possível, extremamente necessário e relevante para os responsáveis pelo cuidado, tratamento e desenvolvimentos de crianças.

De fato, o processo de criação de uma criança demanda dos responsáveis uma atenção, cuidado e envolvimento substancial e que, por muitas vezes, esses acabam por vestir uma roupa de super-herói ou super-heroína e, consequentemente, não reconhecem, admitem ou se permitem cometer falhar, pois adotam uma postura e crença de que precisam fazer sempre o melhor, fazer sempre mais. No entanto, é importante pontuar, que reconhecer suas falhas e erros é reconhecer que naquele momento e naquela situação você fez o melhor que você poderia ter feito. Ter uma postura de compaixão para consigo possibilitará que você se relacione com sua dor, sofrimento, consigo mesmo e, até mesmo, com as demais pessoas de uma maneira mais respeitosa, acolhedora, bondosa, livre de críticas, julgamentos e reatividades intensas e pervasivas (Coyne & Murrell, 2009; Neff, 2017).

Por fim, gostaria de te convidar a engajar-se em mais um exercício experiencial. Nesse te convido a se abraçar, pois o abraço é uma forma de autocuidado e de demonstrar bondade, acolhimento e respeito para consigo mesmo. Descreverei abaixo a “Prática do Abraço” presente no livro da Kristin Neff (2017):

Uma maneira fácil de se acalmar e de se confortar quando você está se sentindo mal é dar-se um abraço suave. Parece um pouco bobo no começo, mas seu corpo não sabe disso. […] Se você perceber que está se sentindo tenso, chateado, triste ou autocrítico, tente se dar um abraço caloroso, acariciando com carinho o seu braço ou o seu rosto, balançando suavemente o seu corpo. O importante é que você faça um gesto claro que transmita sentimentos de amor, cuidado e ternura. Se outras pessoas estiverem com você, cruze os braços disfarçadamente e, de uma maneira não óbvia, aperte-se com suavidade e de forma confortável. […] Observe como seu corpo se sente depois de receber o abraço. Será que está mais quente, mais suave, mais calmo? Tente se abraçar várias vezes ao dia quando estiver sofrendo, por um período de, pelo menos, uma semana. Assim, você vai começar a desenvolver o hábito de se confortar fisicamente quando for necessário, tirando o máximo dessa forma surpreendentemente simples – e fácil – de ser gentil consigo mesmo.” (p. 54-55)

Referências:

Coyne, L.W., Murrell, A.R. (2009). The joy of parenting: an acceptance and commitment therapy guide to effective parenting in the early years. Oakland: New Harbinger;

Neff, Kristin. (2017). Autocompaixão: pare de se torturar e deixe a insegurança para trás. Rio de Janeiro: Lucida Letra;

Skinner, B.F. (1953/2003). Ciência e Comportamento Humano. 11 ed. São Paulo: Martins Fontes.


[1] Condições que aparecem no início do desenvolvimento infantil, geralmente antes da criança ingressar no ambiente escolar, que afetam consideravelmente e que acarretam em prejuízos significativos no funcionamento pessoal, social, acadêmico e/ou profissional do indivíduo, como por exemplo: Deficiências Intelectuais; Transtornos de Comunicação; Transtorno do Espectro do Autismo – TEA; Transtorno de Déficit de Atenção/Hiperatividade – TDAH; dentre outros (APA, 2013).

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Lucas Polezi do Couto
Psicólogo CRP 16/6198. Psicólogo Clínico, realiza atendimentos de crianças, adolescentes e adultos. Atualmente compõe a equipe da Casulo Comportamento e Saúde (Linhares-ES), clínica de Psicologia especializada no tratamento de crianças diagnosticadas com Transtorno do Espectro do Autismo (TEA) e Transtornos relacionados, como Consultor Comportamental. Apaixonado por Terapias Comportamentais Contextuais, em especial Terapia de Aceitação e Compromisso (ACT); Terapia Comportamental Dialética (DBT) e Terapia Focada na Compaixão (FCT).
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