Qual o papel da branquitude na luta antirracista?

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Conceber o significado da Branquitude em um país construído sob o mito da Democracia Racial perpassa o entendimento do seu conceito e prática na sociedade brasileira. Os estudos sobre branquitude – a exemplo de Frantz Fanon, uma figura central na discussão sobre racismo  – apontam o colonialismo como fator para o alastramento da concepção do branco como modelo universal. Segundo Shucman [1], a branquitude pode ser conceitualizada como a posição de sujeitos que detêm privilégios materiais e simbólicos, provenientes do colonialismo e imperialismo, preservados e mantidos até os dias atuais.

Dessa forma, cabe refletir como esses privilégios foram selecionados na cultura brasileira. Estudos brasileiros ao longo dos anos 90 apontam certo distanciamento do branco como participante das históricas desigualdades raciais no Brasil. Como aponta Bento [2], houve uma espécie de pacto que não focaliza os brancos como sujeitos racializados – e, portanto, sujeitos não colocados como parte da desigualdade racial no país e beneficiário de anos de escravização de pessoas negras. Esse pacto, nascido da branquitude, é visto em diversos setores da sociedade – como na construção da Psicologia como ciência e profissão, por exemplo.

Os estudos sobre o branco e a branquitude são crescentes na Psicologia Social e na Psicanálise. Entretanto, cabe a reflexão acerca do quão debatido é esse assunto pelos psicólogos brancos e analistas do comportamento, e quais práticas profissionais fortalecem esse pacto. Tendo em vista a proposta Behaviorista Radical de compreender o sujeito a partir de aspectos Filogenéticos, Ontogenéticos e Culturais [3], é de fundamental importância os estudos de aspectos históricos e sociológicos que perpassam nosso país. Relações raciais têm que fazer parte dos estudos de Analistas do Comportamento, para que possamos dar conta de compreender as violências às quais a população negra está exposta, e assim integrar a luta antirracista não somente no discurso, mas também nas ações.

O conhecimento da história escravocrata, principalmente como se deu o período pós-abolicionista brasileiro, não basta para que haja um efetivo combate ao racismo. É preciso que estudos relacionados ao preconceito racial sejam realizados. Precisamos buscar outras áreas do conhecimento e fazer essa ponte com nossa abordagem, incorporar esse conhecimento ao nosso e algumas medidas podem ser tomadas de forma prática para mudar o panorama da Psicologia – e, em especial, da Análise do Comportamento.

Em uma metodologia comparativa entre equivalência de estímulos (RFT) e a complexidade das relações étnico/raciais, Mizael [4] expõe como as pessoas respondem estímulos relacionados ao “branco” e “negro” tendo em vista os operantes verbais e não verbais mediados pelas contingências de reforçamento da comunidade verbal à qual pertencem. Este estudo na área de pesquisa básica nos ajuda a compreender a complexidade do preconceito racial. Existem poucos estudos na Análise do Comportamento que coloquem o racismo enquanto prática cultural e que discuta possibilidades de exercermos práticas de contracontrole sobre ela. Mizael e Sampaio [5], apresentam possibilidades de interpretações do racismo institucional e suas consequências para a sociedade, o que abre caminhos para essa discussão dentro da comunidade AC. Esperamos que novos estudos sejam realizados para que possamos compreender e intervir nas contingências que mantêm o racismo estrutural na sociedade brasileira.

É notório que há pouquíssima produção e interesse por parte da população branca em relação aos estudos sobre racismo e seus impactos na saúde da população negra. Nos espaços em que o debate do racismo é levantado, geralmente quase a totalidade dos ouvintes é negra. Por que isto acontece, se o racismo é perpetrado por pessoas brancas? Por que a população branca se ausenta dessas discussões, se é justamente ela quem precisa mudar as suas práticas? O discurso de que vidas negras importam precisa sair da hashtag e vir para a ação.

Defendemos aqui a urgência de que psicólogas(os) brancas(os) se posicionem frente ao racismo. A justificativa de que não estuda racismo porque não é seu lugar de fala não se sustenta, tendo em vista que o Brasil é um país composto majoritariamente por pessoas negras. Defender-se com esse discurso, portanto, significa dizer nas entrelinhas que irá zelar pela saúde mental apenas de pessoas brancas, e isto é, por si só, uma atitude racista, e que fere os princípios do Código de Ética do Profissional Psicólogo.

Elencamos aqui, portanto, algumas condutas que analistas do comportamento devem ter para que de fato possam se somar à luta antirracista.

Primeira: ler pessoas negras. Há uma vasta literatura disponível para se debruçar sobre questões raciais, de autoras e autores negros do Brasil, Estados Unidos, Camarões, Nigéria, entre outros. Algumas sugestões são Sueli Carneiro, Djamila Ribeiro, Abdias Nascimento, Silvio Almeida, Angela Davis, bell hooks, Achille Mbembe, Chimamanda Ngozi, Grada Kilomba, além de Táhcita Mizael, que traz à luz o debate já na Análise do Comportamento.

Segunda: busque ou crie espaços de discussão. Se você trabalha em alguma instituição de ensino superior, proponha a integração da matéria de Relações Raciais; se não for possível, proponha a criação de um Grupo de Estudos ou faça parte, caso já exista um; leve essa conversa para a sala de aula, para palestras e confronte ideias racistas que possam aparecer. Lembrando que Lugar de Fala, conceito trabalhado pela Djamila Ribeiro [6], se trata do ponto de onde você parte: se você é negro, indígena, branco, amarelo, você vai falar sobre raça deste lugar que ocupa, portanto isso não é desculpa para se isentar de estudar e combater discriminações.

Terceira: escute pessoas negras. Se você atende na clínica, esteja sensível às falas de pessoas que vêm até você, não busque convencê-las de que racismo não existe. Jamais invalide os sentimentos e vivências delas! Se você ainda tem essas dúvidas quanto à existência ou não do racismo quando essas questões aparecem no seu consultório, retorne à primeira dica. Se você atende o público infantil, busque ter em sua clínica brinquedos e histórias com personagens negras, não só para que crianças negras se sintam representadas, mas para que as brancas aprendam a lidar com a diversidade.

Vale relembrar que o Código de Ética Profissional do Psicólogo traz como necessárias práticas de combate à discriminação como um dos princípios fundamentais que rege a prática da Psicologia:

“II. O psicólogo trabalhará visando promover a saúde e a qualidade de vida das pessoas e das coletividades e contribuirá para a eliminação de quaisquer formas de negligência, discriminação, exploração, violência, crueldade e opressão.” [7]

Além disso a Resolução CFP N.° 018/2002, que estabelece normas de combate à discriminação de cunho racial, em um dos artigos apresenta que:

“Art. 1º – Os psicólogos atuarão segundo os princípios éticos da profissão contribuindo com o seu conhecimento para uma reflexão sobre o preconceito e para a eliminação do racismo.” [8]

Dito isto, a inserção desta temática é indispensável para exercer a Psicologia de maneira responsável e comprometida com a saúde da população, de forma a não excluir segmentos e a fim de promover mudanças estruturais. “Vidas negras importam” não é slogan pra ser meramente reproduzido. A luta antirracista é urgente, e isentar-se dela não é mais uma opção.

Autores:

 Alan Ribeiro – Graduando em Psicologia na UNEB, membro do GT Questões Raciais e AC

Clara de Oliveira – Graduanda em Psicologia na UNEB, membro do GT Questões Raciais e AC

Érica Cardoso – Psicóloga  formada na UniRUY, membro do GT Questões Raciais e AC

Luana Pereira – Psicóloga Clínica (CRP03/17165). Coordenadora do GT Questões Raciais e AC, Diretora da Associação de Análise do Comportamento da Bahia.

REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS

[1] SCHUCMAN, L. V. Entre o “encardido”, o “branco” e o “branquíssimo”: Raça, hierarquia e poder na construção da branquitude paulistana. Tese (Doutorado em Psicologia) Instituto de Psicologia, Universidade de São Paulo, São Paulo, 2012.

[2] BENTO, M. A. Branqueamento e branquitude no Brasil. In: BENTO, M. A.; CARONE, I. (orgs.) Psicologia Social do Racismo. Estudos sobre branquitude e branqueamento no Brasil. Petrópolis, Vozes, 2002. p. 25-58.  

[3] TOURINHO, Emmanuel Zagury. Subjetividade e relações comportamentais. Paradigma, 2009.

[4] MIZAEL, Táhcita Medrado et al. Estabelecimento de classes de estímulos equivalentes com estímulos significativos: Investigando a atitude racial preconceituosa. 2015.

[5] MIZAEL, Táhcita; SAMPAIO, Angelo. Racismo Institucional: Aspectos Comportamentais e Culturais da Abordagem Policial. Acta Comportamentalia: Revista Latina de Análisis del Comportamiento, v. 27, n. 2, 2019.

[6] RIBEIRO, Djamila. Lugar de fala. Pólen Produção Editorial LTDA, 2019.

[7] CONSELHO FEDERAL DE PSICOLOGIA. Código de ética profissional dos psicólogos. Conselho Federal de Psicologia, 2000.

[8] RESOLUÇÃO, C. F. P. Nº 18/2002, de 19 de dezembro de 2002. Estabelece normas de atuação para os psicólogos em relação ao preconceito e à discriminação racial Brasília, DF.

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