Muro de Berlim: homeopatia para quem crê.

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texto original em inglês de Derek Beres, disponível em https://publicseminar.org/2018/01/why-do-we-still-believe-in-homeopathy/
Tradução, adaptação e inserções, Tiago Tatton, PhD. 

Há décadas a indústria da medicina alternativa está em um boom crescente. Parte disso se deve a nossa desconfiança das reais intenções da “Big Pharma”, a indústria tradicional da saúde, onde os lucros imperam. Embora os custos de pesquisa para aprovar estes mesmos remédios tradicionais sejam exorbitantes, a remuneração dos executivos da Big Pharma é ainda maior. Nós, os pacientes, nos sentimos impotentes contra as forças do mercado. Desvendar a real intenção por detrás de um dos empreendimentos capitalistas mais bem-sucedidos da sociedade – a indústria de remédios – parece uma missão impossível.

A reação legítima contra as intenções pouco conhecidas da Big Pharma, no entanto, permitiu que vários produtos questionáveis ​​invadissem nossos armários, criando um mercado de 34 bilhões de dólares anuais. Comercializados como curas “holísticas” e “naturais”, muitos consumidores não têm ideia do que há dentro destes frascos de “medicina quântica”. Se por um lado os produtos farmacêuticos tradicionais devem passar – mais e mais – por testes rigorosos da ordem de bilhões de dólares e extensas rodadas de ensaios clínicos em revistas científicas, os produtos homeopáticos, bem como vitaminas e suplementos, recebem pouca supervisão.

Existem dezenas de revisões sistemáticas demonstrando a não superioridade da Homeopatia ao Placebo, ou então o risco de viés absurdamente alto dos estudos que demonstram algum real benefício para além do placebo.

Na verdade, muitas pessoas não têm ideia de que muitos remédios homeopáticos se tratam de misturas contendo água, açúcar e supostos ingredientes ativos sem aprovação de testes clínicos realizados por grupos científicos e entidades de pesquisa. O último hospital homeopático dos USA, por exemplo, fechou suas portas na década de 50. No entanto, a insistente presença de um tipo de pensamento mágico, junto com a proliferação de sentimentos anticorporativos contra a Big Pharma, parece ter reacendido nosso fascínio pelas curas alternativas. Mesmo que a homeopatia tenha sido criada como uma resposta às práticas bárbaras da medicina do século XIX, os princípios fundadores desta “ciência” foram sendo desmentidos graças ao trabalho de pesquisadores incansáveis. Mesmo assim, a homeopatia persiste. Por quê?

Em 1784, enquanto servia como embaixador americano na França, Benjamin Franklin foi convidado pela Académie des Sciences para co-presidir uma comissão sobre magnetismo animal. A alegação de que forças invisíveis exercidas por animais fornecem alívio terapêutico em humanos foi feita pela primeira vez pelo médico alemão Franz Mesmer, em 1779. Franklin se juntou ao químico francês Antoine Lavoisier para investigar o mesmerismo. Sem perceber, eles definiram o futuro da ciência médica criando o primeiro teste-cego.

Sem saber, os voluntários receberam frascos cheios de “fluidos vitais” para descobrir se a essência de certos objetos, como árvores, melhorava sua saúde. A resposta foi um retumbante NÃO. Franklin e Lavoisier investigaram o potencial de cura do mesmerismo e, inadvertidamente, descobriram um aspecto peculiar da psicologia humana: o efeito placebo. Foi apenas na década de 1970 que Rabi Simantov e Solomon Synder descobriram as endorfinas, neuropeptídeos opióides endógenos produzidos por nossa glândula pituitária e pelo hipotálamo que se ligam aos receptores de morfina, que é a causa da resposta ao placebo e o “porquê” muitas terapias alternativas “funcionam”.

Esses dois avanços – o teste cego, que acabaria por levar ao padrão ouro de hoje, o teste duplo-cego, junto com a resposta ao placebo – capacitaram os pesquisadores com o conhecimento de que nossa biologia nem sempre é o que parece ser. As interações químicas dentro de nossos corpos são processos intrincados.

Visto que a natureza parece fornecer a causa e a cura de muitas doenças, faz sentido recorrer a ela em busca de ajuda, não? Mas a natureza não está aqui para nosso benefício, necessariamente. Nós evoluímos, apesar da natureza tanto quanto por causa dela. O caminho para a cura nem sempre é óbvio, mas no espaço holístico moderno tratamos a natureza como se os remédios fossem abundantes. Samuel Hahnemann explorou essa tendência ao criar a homeopatia.

Dois medicamentos antimaláricos são usados ​​há séculos. A artemisinina, encontrada na planta Qinghaosu, é encontrada em textos chineses do século IV. Na década de 1960, os pesquisadores se depararam com citações isoladas sobre a artemisinina, que hoje é um remédio eficaz e bem tolerado. A meio mundo de distância, no Peru, os habitantes locais se banhavam na água amarga da árvore cinchona, que eles acreditavam ter propriedades mágicas de cura. Isso se deve ao quinino, que subsequentemente dá aquele “tchan” na água tônica. O quinino tem mais efeitos colaterais do que a artemisinina, mas é usado no tratamento da malária desde meados do século XVII.

Samuel Hahnemann descobriu a cinchona enquanto traduzia o livro do médico escocês William Cullen sobre a malária. O médico alemão abandonou a carreira de medicina porque se opôs a práticas como a sangria, que considerava ineficazes e sádicas. O Tratado sobre a Matéria Médica de Cullen acendeu uma lâmpada que mudaria para sempre a trajetória da carreira de Hahnemann. Ele espalhou cinchona no corpo para induzir sintomas semelhantes aos da malária. Ainda não está provado que ele desenvolveu malária; uma reação inflamatória é provável. Destemido, ele raciocinou que seria o mesmo para todos os indivíduos saudáveis. Essa experiência tornou-se a base da homeopatia: semelhante cura semelhante.

Hahnemann não estava trabalhando no vácuo. O médico austríaco Anton von Störck especulou que as substâncias tóxicas são benéficas em pequenas doses – a base da vacinação. Em vez de ingerir pequenas quantidades de uma substância controlada, entretanto, Hahnemann removeu o ingrediente ativo por completo. Ele acreditava que quanto menos um ingrediente ativo você ingere, mais potente é o remédio. Ele chamou esse processo de “potencialização”.

Para entender a potencialização, vamos considerar o remédio homeopático mais popular para a gripe, Oscillococcinum. Um dos medicamentos mais vendidos da França, arrecada US $ 20 milhões anuais na América. O remédio é baseado na descoberta do médico francês Joseph Roy de uma bactéria oscilante que ele chamou de Oscillococcus no sangue de vítimas da gripe em 1917. (A bactéria nunca foi confirmada por ninguém; alguns especulam que era poeira em uma lâmina). Roy acreditava que o Oscillococcus era o responsável por uma série de doenças, de eczema a câncer. Ele relatou ter descoberto a mesma bactéria no sangue de um patinho de Long Island. Para fabricar Oscillococcinum, hoje os técnicos misturam uma parte de coração e fígado de pato com cem partes de açúcar em água. O processo é repetido duzentas vezes.

as bolinhas da Homeopatia

As diluições homeopáticas variam em intensidade. Os medicamentos de venda livre podem conter ingredientes ativos, dependendo da escala. Uma potência de 6x significa que há uma parte do ingrediente ativo por milhão de pedaços de açúcar. Quando você chega a 6c, há uma parte em dez trilhões. Por volta de 13c, nada mais sobrou. Um medicamento homeopático típico tem 30c. Neste nível você precisa de um recipiente trinta vezes o tamanho da terra para encontrar uma molécula de um ingrediente ativo. Oscillococcinum é 200c. Mil diluições equivalem a 1M, sendo 10M o medicamento homeopático mais potente disponível.

Boiron, fabricante do Oscillococcinum, afirma que sua droga maravilhosa – quimicamente um grama de açúcar por dose – reduz a gravidade dos sintomas da gripe. Mas fígado de pato não é o único ingrediente mágico que (não) existe nos remédios. Quer ver? Você está se sentindo confinado e oprimido? Um tratamento homeopático chamado “Muro de Berlim” foi feito para você! (não é piada, isso existe). Uma parte de concreto do muro é diluída a 200c para tratar asma, terrores noturnos e dores de cabeça. Outros ingredientes homeopáticos conhecidos são “a polaridade sul de um ímã”, o luar eclipsado, as lágrimas de uma menina chorando, cera de cachorro, arsênico e hera venenosa. Isso é ainda mais esquisito pelo simples fato de que alguns médicos afirmam que uma melhora nos sintomas é prova de que a homeopatia funciona, ao mesmo tempo em que acreditam que uma piora também é uma prova positiva. É difícil argumentar contra seu ponto.

MURUS BERLINENSIS

Nossa necessidade frenética de gratificação imediata nos cega para o lento e necessário processo da ciência.

Ainda não temos ideia real de como nos proteger – em definitivo – contra o resfriado comum ou a gripe sazonal. Como evidenciado pelo efeito placebo, nossos corpos apenas lidam com a realidade da doença. Tempo, descanso e hidratação continuam sendo nossas melhores defesas. Nossa sobrevivência como espécie depende de uma compreensão intrincada da nossa biologia. Hoje desfrutamos dos frutos de milênios de experimentação. Embora Samuel Hahnemann acreditasse que a causa da doença nunca poderia ser conhecida e que a doença é um estado espiritual, avanços como o teste duplo-cego, bem como a teoria dos germes e a especificidade da doença, refutaram suas teorias. No entanto, ainda aceitamos a Homeopatia.

Sim, devemos desconfiar dos produtos farmacêuticos tradicionais, especialmente em um sistema de saúde capitalista. Uma dependência excessiva de antibióticos, por exemplo, criou respostas mais fortes do meio ambiente. A edição de genoma e outras novidades podem ser uma solução, embora isso também surja com preocupações. Mas isso não significa que devemos nos entregar ao pensamento supersticioso. Embora nossa grande força seja a resiliência, nossa fraqueza continua sendo um temperamento volátil, sujeito a um tipo estranho de misticismo.

Não é que os remédios antigos não tenham valor; A artemisinina estava em uso por 1.500 anos antes que os cientistas provassem clinicamente sua eficácia. Muitas plantas, ervas e minerais têm – de fato – propriedades curativas. A falta de estudos científicos confiáveis ​​não decorre da falta de interesse, mas de financiamento. Quem vai patrocinar a pesquisa de uma planta que não pode ser patenteada? Por que qualquer empresa farmacêutica investiria em compostos que podem ser comprados por alguns dólares em uma mercearia indiana? É difícil decidir se a cúrcuma ajuda ou não em um processo inflamatório quando o hospital pode cobrar um dia do seu salário por um mero Tylenol. Isso não significa, contudo, que a cúrcuma cure doenças ou previna viroses, como afirmam milhares de blogs de bem-estar.

As pessoas ficam perdidas. Sucumbimos à vontade de crer. Amedrontados e presos entre a voracidade capitalista das empresas, as teorias da conspiração sobre a Big Pharma, e a vontade de crer, acabamos ficando com a dica do vizinho. nessa brecha a medicina alternativa encontra seu mercado, agora sem a desconfiança das teorias conspiratórias

Uma coisa é certa. Se duvidamos das intenções da Big Pharma, devemos igualmente questionar a multi-bilionária indústria de medicina alternativa assentada quase que unicamente na resposta de placebo e em nossa fragilidade existencial. Queremos nos curar, sobreviver, a qualquer custo.

A noção de que pedaços super-diluídos de um velho muro alemão ou do fígado de um pato podem curar você é um verdadeiro tapa na cara de inúmeros profissionais que dedicaram suas vidas a compreender os complexos mecanismos da nossa biologia.

E você? Vai encarar a homeopatia Muro de Berlim quando a próxima deprê bater forte? Não encontrei por aqui para vender, mas o valor médio de uma caixinha na Europa é 133 euros. Devemos criticar a indústria farmacêutica tradicional? Sim, tanto quanto a alternativa. Todo mundo tá de olho na grana. Na tua saúde? Ás vezes.

Derek Beres é um colunista e mora em Los Angeles. Seu mais recente livro é Whole Motion: Training Your Brain and Body for Optimal Health. Este é um trecho de seu livro em andamento, Soul Market: Spirituality in a Consumer Culture.

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