Tagueando: os impactos globais dos transtornos de ansiedade e a relevância da preocupação

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Em 2017, foi apresentado o documento intitulado Depression and other common mental disorders: global health estimates [Depressão e outros transtornos mentais comuns: estimativas globais de saúde] elaborado em conjunto com os principais pesquisadores da Universidade de Queensland, na Austrália, para divulgar as estimativas (em nível global) referentes à prevalência e impacto dos transtornos mentais, dentre os quais os Transtornos de Ansiedade (TA). Segundo esse documento, os Transtornos de Ansiedade têm como característica a presença de ansiedade e medo; os sintomas podem variar de leve à severo; frequentemente têm curso crônico; e abrangem: Transtorno de Pânico (TP), Fobias, Transtorno de Ansiedade Social (TAS); Transtorno de Estresse Pós-Traumático (TEPT); Transtorno Obsessivo-Compulsivo (TOC)[1] e Transtorno de Ansiedade Generalizada (TAG) (WHO, 2017).

De acordo com essa publicação, os TA se encontram classificados entre as dez maiores causas de anos vividos com incapacitação em todas as regiões da WHO em 2015 e, dentre todos os países avaliados, o Brasil apresenta a maior prevalência de TA (9,3%) no mundo (WHO, 2017).

Em uma revisão de sondagens realizadas em 21 países (incluindo o Brasil) com objetivo de identificar lacunas e barreiras nos tratamentos relacionados aos TA (Alonso et al., 2017), constatou-se que cerca 27,6% de pessoas que preenchiam critérios para qualquer TA de acordo com o DSM-IV (APA, 1994) não tinham recebido nenhum tratamento no ano anterior. Um obstáculo que contribui para esse dado é o não-reconhecimento da necessidade de tratamento por parte das pessoas com TA. Além do mais, apenas 2/3 daqueles que a reconhecem recebem o tratamento. Outra descoberta relevante foi a de que apenas uma em cada 10 pessoas com TA teve tratamento considerado “possivelmente adequado” e que países menos ricos apresentam as maiores lacunas.

Considerando que os TA se desdobram em diversas categorias nosológicas, abordá-las todas em suas especificidades e complexidades foge ao escopo deste texto. Por outro lado, diante desses dados alarmantes, é imprescindível que o terapeuta analítico-comportamental tenha em seu repertório clínico habilidades e conhecimentos necessários para que possa fazer uso de estratégias efetivas nesse sentido.

A preocupação é um elemento característico das psicopatologias em geral e está intimamente envolvida no desenvolvimento e manutenção dos TA (Purdon & Harrington, 2006). Compreender seu papel, portanto, pode ser relevante para o desenvolvimento de intervenções eficazes para o TAG (em particular), para os TA (de forma geral) e para outros transtornos em que a preocupação se fizer presente (Borkovec, 1994; Borkovec, Alcaine & Behar, 2004; Purdon & Harrington, 2006; Roemer, Orsillo & Barlow, 2002).

Tendo em vista que o TAG tem sido considerado, por alguns pesquisadores, como o “transtorno de ansiedade básico” em virtude de as pesquisas a respeito dele terem implicações para a compreensão de todos os TA (Erazo & Hazlett-Stevens, 2018; Roemer, Orsillo & Barlow, 2002), as próximas publicações têm como objetivo apresentar resumidamente alguns modelos de intervenção empiricamente sustentados (e algumas estratégias clínicas) para o tratamento do TAG.

Para tanto, no próximo texto, abordarei o que os pesquisadores dizem a respeito da preocupação, considerada o principal componente desse transtorno (Purdon & Harrington, 2006).

Referências:

American Psychiatric Association. (1994). Diagnostic and Statistical Manual of Mental Disorders (4th ed.).

American Psychiatric Association. (2013). Diagnostic and Statistical Manual of Mental Disorders (5th ed.). doi: https://doi.org/10.1176/appi.books.9780890425596

Alonso, J., Liu, Z., Evans-Lacko, S., Sadikova, E., Sampson, N., Chatterji, S., Abdulmalik, J. … & Thornicroft, G. (2018). Treatment gap for anxiety disorders is global: Results of the World Mental Health Surveys in 21 countries. Depression and Anxiety, 35, pp. 195-208. doi: https://doi.org/10.1002/da.22711.

Borkovec, T. D. (1994). The nature, functions, and origins of worry. In Davey, G. C. L. & Tallis, F. Worrying: Perspectives on Theory, Assessment and Treatment (pp. 05-33). John Wiley & Sons.

Borkovec, T. D., Alcaine, O. M. & Behar, E. (2004). Avoidance Theory of Worry and Generalized Anxiety Disorder. In Heimberg, R. C., Turk, C. L. & Mennin, D. S. Generalized Anxiety Disorder: Advances in Research and Practice (pp. 77-108). The Guilford Press.

Erazo, E. C. & Hazlett-Stevens, H. (2018). Generalized Anxiety Disorder. In Maragakis, A. & O’Donohue, W. T. Principle-Based Stepped Care and Brief Psychotherapy for Integrated Care Settings (pp. 203-213). Springer.

Purdon, C. & Harrington, J. Worry in Psychopathology. In Davey, G. C. L. & Tallis, F. Worrying: Perspectives on Theory, Assessment and Treatment (pp. 41-50). John Wiley & Sons.

Roemer, L., Orsillo, S. M. & Barlow, D. H. (2002). Generalized Anxiety Disorder. In Barlow, D. H. Anxiety and its Disorders: The Nature and Treatment of Anxiety and Panic (2nd ed., pp. 477-515). The Guilford Press.

World Health Organization. (2017). Depression and other common mental disorders: global health estimates. Disponível em:  <http://apps.who.int/iris/handle/10665/254610>. Acesso em 03 de maio de 2018.


[1] Vale destacar que o DSM-5 (APA, 2013) endereça o TOC e o TEPT a outras categorias diagnósticas.

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Rafael Venâncio
Formado pela Universidade Paulista e com Qualificação Avançada em Clínica Analítico-Comportamental para adultos pelo Paradigma – Centro de Ciências e Tecnologia do Comportamento. Atuou como psicólogo e treinador de habilidades voluntário no Laboratório de Terapia Comportamental Dialética (DBT-LAB). Atualmente, tem se dedicado ao estudo da ansiedade para oferecer tratamentos cada vez mais efetivos aos seus pacientes e ministra cursos e palestras sobre temas relacionados à saúde mental para profissionais da saúde e o público em geral. É Psicólogo Clínico do Harmonie Instituto e colunista do site Comporte-se.
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