A importância do treinamento de pais no tratamento de crianças com TEA

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A intervenção implementada pelos pais é a prática na qual eles atuam diretamente na intervenção dos filhos, promovendo habilidades importantes para seu desenvolvimento, e está dentre uma das práticas baseadas em evidências utilizada no tratamento de indivíduos com autismo (Steinbrenner et al., 2020). Para que esta prática seja utilizada, é importante que exista algum tipo de treinamento dos profissionais da equipe para com os pais.

Sabe-se que as crianças com autismo estão atrasadas no desenvolvimento e, por esse motivo, precisam de muitas horas diárias de intervenção em ambientes diferentes, como em casa e na escola. Como os pais estão a maior parte do tempo com seus filhos, teriam mais oportunidades de ensino das habilidades propostas e o tratamento seria mais eficaz. Portanto, é muito importante que, no planejamento da intervenção, haja treinamento inicial e constante dos pais (McConachie, Diggle, 2006).

Uma revisão sistemática da literatura (McConachie, Diggle, 2006) mostrou a eficácia do treinamento de pais com relação ao desenvolvimento das crianças e aos próprios comportamentos dos pais. De forma geral, as pesquisas envolviam treinamento de pais para habilidades de interação social, comunicação, treino de tentativa discreta de comportamentos individuais, comportamentos de atividades de vida diária e redução de comportamento indesejado. É importante ressaltar que todos esses ensinos foram feitos utilizando métodos e procedimentos da Análise do Comportamento Aplicada.

Sobre o método de treinamento mais eficaz, Sofronoff et. al (2004) demonstraram que o treinamento individual teve mais sucesso do que o treinamento em grupo. Em contrapartida, também demonstraram que o treinamento em grupo pode ser bom, por gerar apoio entre os participantes.  Quanto aos comportamentos dos pais, notou-se que se tornaram mais ativos no ensino dos filhos, havendo maior interação com eles. Além disso, os comportamentos aprendidos pelos pais foram generalizados para outros comportamentos-alvo que precisariam ensinar – e isso significou que se os pais aprenderam a ensinar comportamento de imitação motora, também conseguiriam ensinar outra habilidade, sem que houvesse treino específico desse ensino. E quanto ao desenvolvimento das crianças, notou-se uma melhora em todos os comportamentos ensinados após o treinamento (Lafasakis, Sturmey, 2007; McConachie, Diggle, 2006).

Quando os pais são treinados e desenvolvem habilidades de ensino, aprendem mais sobre o TEA e mais sobre seus filhos, facilitando na intervenção, de forma que podem sugerir boas ideias para o tratamento. Também, quando aprendem novas habilidades, conseguem transferir o que foi aprendido para o ensino dos outros filhos. Pensando nisso, inserir os pais no tratamento é de suma importância para o desenvolvimento das crianças com TEA (McConachie, Diggle, 2006; Sofronoff et. al, 2004).

Um ponto bem importante do tratamento de grande parte das crianças com TEA é ser intensivo, necessitando de muitas horas diárias de intervenção, encarecendo-o muito. Dessa forma, o treinamento de pais se torna crucial para que as famílias que não podem custeá-lo, possam usufruir dos benefícios do tratamento, já que os custos reduzem bastante.

A revisão de McConachie e Diggle (2006) mostrou, também, que o desenvolvimento da criança é mais rápido quando feito com profissionais, do que quando feito com os pais. Isso é esperado, já que os profissionais detêm mais conhecimento sobre os procedimentos e não têm o envolvimento emocional dos pais (que, em alguns momentos, pode ser uma barreira). Mas, de acordo com os resultados encontrados, percebe-se que uma intervenção onde haja atuação conjunta de pais e profissionais é o ideal.

Às vezes ocorre dos pais não aderirem ao treinamento, isso pode ser devido ao tempo de disponibilidade para atuar com a criança, por não verem funcionalidade ou por não saberem o que fazer. Portanto, é importante usar procedimentos baseados em evidência (que sejam eficientes e eficazes) e usar linguagem acessível para que os pais entendam sobre a intervenção e não queiram parar com o treinamento (McConachie, Diggle, 2006).

Esse treinamento pode ser feito por instrução direta, com orientações sobre o que fazer em cada momento. Também pode ser feito por modelagem no momento das terapias, ou seja, os pais atuam com os filhos e o profissional vai modelando seus comportamentos. Também pode ser feito por meio de modelação, na qual o profissional atua com a criança, enquanto os pais observam. Ou por videomodelação, na qual o profissional envia vídeos mostrando como deveria ser ensinada determinada habilidade. Além disso, pode haver treinamento sobre conceitos básicos de análise do comportamento, para que os pais entendam os conceitos e consigam aplicar nos contextos do dia a dia.    

Atualmente, em tempos de pandemia, muitos pais estão sendo treinados pelos integrantes da equipe para aplicar a intervenção com os filhos de forma eficaz, a fim de desenvolver as habilidades necessárias. O que eu tenho observado (de acordo com a minha prática e de outros colegas) é que as crianças estão desenvolvendo diversas habilidades que antes não estavam inseridas no dia a dia, como atividades da rotina da casa (lavar louça, estender roupa etc). Além disso, a curva de aprendizagem de algumas crianças está subindo com os pais sendo aplicadores. Penso que isso esteja acontecendo, provavelmente, porque os pais são muito reforçadores para os filhos, o que facilita no processo de aprendizagem.Dessa forma, percebe-se que uma boa intervenção é aquela em que os pais são participantes ativos de mudança de comportamento. 

Dessa forma, percebe-se que uma boa intervenção é aquela em que os pais são participantes ativos de mudança de comportamento. 

Referências Bibliográficas

Lafasakis, M., Sturmey, P. (2007). Training parent implementation of discrete-trial teaching: effects on generalization of parent teaching and child correct responding. Journal of Applied Behavior Analysis, 40(4), 685-689.

McConachie, H., Diggle, T. (2006). Parent implemented early intervention for young children with autism spectrum disorder: a systematic review. Journal of evaluation in clinical practice, 13(1), 120-129.

Sofronoff, K., Leslie, A., Brown, W. (2004). Parent management training and Asperger syndrome: A randomized controlled trial to evaluate a parent based intervention. Sage Publication and The National Autistic Society, 8(3), 301-317.

Steinbrenner, J. R., Hume, K., Odom, S. L., Morin, K. L., Nowell, S. W., Tomaszewski, B., Szendrey, S., McIntyre, N. S., Yücesoy-Özkan, S., & Savage, M. N. (2020). Evidence-based practices for children, youth, and young adults with Autism. The University of North Carolina at Chapel Hill, Frank Porter Graham Child Development Institute, National Clearinghouse on Autism Evidence and Practice Review Team.

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