A falta de sentido inerente à vida e uma vida com significado

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2020. Se alguém pedisse de supetão que eu, num fôlego só, resumisse os principais marcos da humanidade até aqui, eu arriscaria listar: [enchendo o peito de ar] vida em grupo – domínio do fogo e das ferramentas – desenvolvimento da agropecuária – invenção da roda – criação da escrita – civilizações – veículos – eletricidade – penicilina – genoma humano – satélites – televisão – ida a lua – interne… [inspira!]. Pois é, a humanidade está evoluindo… Frase já tão clichê que quase invariavelmente não provoca mais alguma reação específica. Bem como as típicas perguntas que se seguem: em que direção? Com que propósito? Por qual sentido?
Em um dicionário online, evoluir está descrito como “passar por transformações sucessivas”, enquanto na vida cotidiana não raro somam a esse significado autorrealização e satisfação pessoal. Nos meus devaneios particulares, fico imaginando se teríamos evoluído para sapiens se nossos ancestrais homo erectus tivessem tal expectativa de êxtase… Teriam eles desistido de produzir o fogo ao machucarem as mãos nas tentativas insistentes de conseguir faísca, queimarem o corpo com a flama e se intoxicarem com a fumaça? A dor me parece um protagonista muito mais provável que o prazer em tal circunstância.
Os aliados da abordagem analítico-comportamental (cf. Skinner, 1953) seguem o modelo de seleção pelas consequências, perspectiva filosófica, experimental e prática que contribui para a compreensão de comportamentos como os que permitiram o domínio do fogo. Consequências, em um sentido próprio, são eventos que alteram a probabilidade do responder e exercem sobre ele dois efeitos: o de seleção (exemplificado no trecho abaixo) e o de prazer.

A história presumivelmente iniciou-se não com um Big Bang, mas com aquele momento extraordinário em que se deu o surgimento de uma molécula que era capaz de se reproduzir. Foi então que a seleção por consequências surgiu enquanto um modo causal. A reprodução foi, em si mesma, uma primeira consequência, e ela levou, por meio da seleção natural, à evolução de células, órgãos e organismos que se reproduziam sob condições cada vez mais diversas.
Skinner, 1981/2007

É provável que o homem primitivo interagia com o meio predominantemente em contingências de sobrevivência; logo, ao se queimar por contatar um estímulo doloroso como o fogo, nosso antepassado possivelmente retirou a mão da chama prevenindo o dano, tipo de resposta adquirida pela espécie. A partir de então, duas possibilidades operantes seriam plausíveis na história desse hominídeo… Mesmo não sabendo o que aconteceu exatamente em um período tão remoto, é sabido que erectus dominou o fogo e, se não evitou produzi-lo… habemus reforçamento positivo! Na hipótese, ao fazer fogo, erectus teria se machucado, mas também produzido algo que até então o homem só via ocasionalmente! O distinto fenômeno, por sua vez, liberava luz e calor, potenciais reforçadores nas condições de escuro e frio, inaugurando contingências de intercâmbio entre homem e ambiente. E aí, a sensação desprazerosa (que atualmente o homem verbal transforma em sentimento) não pareceu ser efeito único e determinante para a evolução operante, pois a dor da queimadura e o desconforto com a fumaça aparentemente foram instâncias menos poderosas que o acesso a contingências que, ainda que distantes da resposta discreta de fazer fogo, continham importantes reforçadores: expor-se ao frio e ao escuro, proteger-se de predadores e cozer alimentos crus difíceis de mastigar e digerir. E então, centenas de milhares de anos depois… Nós, homo sapiens sapiens, podemos nos sentir aquecidos sem ter de fazer o fogo e tolerar as queimaduras.
É claro que a corrupção das contingências naturais de reforçamento promovida pelo desenvolvimento das práticas culturais nos poupam de uma imensidão de processos que, para termos acesso aos reforçadores, teríamos de adquirir repertórios que superam o período de tempo de uma vida, em processos muitas vezes mais dolorosos que fortalecedores. É prejudicial, porém, que não sejamos mais expostos a uma diversidade de consequências intrínsecas que modelam, fortalecem e mantém respostas a despeito do efeito agradável contingente… Em um contexto cultural subvertido pelo prazer, passamos a buscar impetuosamente um sentido para a vida no lugar de uma vida com sentido.
Não faltam livros, manuais, treinamentos eteceteras que tentam ensinar o ser feliz descrevendo reforçadores que não são contingentes a uma variabilidade de comportamentos que o indivíduo tem de emitir na vida cotidiana para, então, experimentar, final e posteriormente, felicidade. E é isso tipo de sentimento que parece centralizar o que seria, para muitos, o sentido da vida: ser feliz, satisfeito, realizado. Parece que preferimos acreditar em atalhos verbais a nos comprometermos com respostas de maior custo e relacionadas a reforçadores de outra natureza, que não necessariamente social, condicionada e prazerosa (ou que cessa imediatamente o desprazer). Mas uma vida predestinada à inerente felicidade é factualmente impossível, como ilustrou meu devaneio com nossos antepassados interagindo com o fogo, e como demonstra o próprio processo de evolução: é só num ambiente que muda que nós, desadaptados e desconfortáveis, mudamos também. E, para tanto, é preciso uma variedade de comportamentos sobre a qual o reforço possa atuar e selecionar cumulativamente, ao longo do tempo e da história do indivíduo, permitindo que repertórios amplos se fortaleçam e, então, produzam uma vida com significado.
Diversas terapias contextuais vêm se debruçando sobre o que produziria uma vida significativa; usam o termo ‘valores’ para isso. Enquanto comportamento verbal, expressar valores está contido em contingências sociais e simbólicas, controlado por contextos relacionais – tipos de relações entre estímulos – e funcionais – função da relação entre os estímulos, reforçadora ou aversiva (Assaz, Vartanian, Aranha, Oshiro & Meyer, 2017). Se as práticas culturais desgastaram as contingências de reforçamento (Skinner, 1987), como elas poderiam ajudar a restaurá-las?
O que a ciência comportamental que se dedica a aprender sobre o comportamento verbal nos ensina é que estímulos aversivos, quando estão em relações de hierarquia com estímulos apetitivos, podem evocar respostas de aproximação; assim, estímulos têm suas funções transformadas, e o responder por reforçamento positivo é fortalecido. Páez-Blarrina et al (2008, p. 95) demonstraram em um estudo sobre dor que…

“Na intervenção focada em valores da ACT, a dor foi incluída como parte de uma direção valiosa. Ou seja, foram atribuídas funções verbais discriminativas para as ações valiosas (continuação da tarefa) e de reforço, incorporando a dor como parte de tais ações valorosas. Isso pareceu transformar (por meio de pistas contextuais dêiticas, de comparação e hierárquicas […]) as funções aversivas da dor. Em outras palavras, ao contextualizar a dor em uma moldura de hierarquia entre os valores da pessoa e seus eventos particulares, a dor pode se tornar menos importante que os valores.”
(Tradução livre)

Uma cultura que tornou imediato o acesso à felicidade, pode agora ensinar a tolerar o desconforto, o mal estar e a própria dor física, colocando o responder sob controle de relações (verbais) entre estímulos e transformando sua função. É verdade que não precisamos mais suportar a dor de produzir o fogo, pois o botão do fogão é bastante confortável e seguro, mas eu, por exemplo, estou aqui lidando com minhas dificuldades e cansaço na tentativa de produzir um pouco de conhecimento… Quanto mais leio e escrevo, mais cansada fico; e mais avanço no que é significativo para mim: estudar e transmitir o que aprendo. Esse é um dos paralelos possíveis da infinidade de processos que temos de experimentar, nos dias de hoje, antes de acessar aquela desejada contingência que então será, além de fortalecedora, muito prazerosa.
Produzir reforçadores intrínsecos ao repertório dá sentido, significado, direção ou propósito para a vida; assim, felicidade não seria definida por contingências específicas, mas um produto de inúmeras delas… não seria um único resultado, mas um processo em que se produz muitos deles. Sentir-se realizado e satisfeito é evidentemente fundamental para a vida. A questão é que contingências levam a uma vida feliz: talvez aquelas em que a felicidade resulta de uma variedade e diversidade de “[…] padrões de comportamentos contínuos, dinâmicos e em evolução, que estabelecem reforçadores que são intrínsecos ao engajamento no próprio padrão comportamental valorizado” (Wilson & DuFrene, 2009, p. 66).

Assaz, D. A., Vartanian, J. F., Aranha, A. S., Oshiro, C. K. B., & Meyer, S. B. (2017). Valores sob a perspectiva analítico-comportamental: da teoria à prática clínica. Revista Brasileira de Terapia Comportamental e Cognitiva, 18(3), 30-40.
“evoluir”, in Dicionário Priberam da Língua Portuguesa [em linha], 2008-2020, http://www.priberam.pt/dlpo/evoluir [consultado em 17-06-2020].
Páez-Blarrina, M., Luciano, C., Gutiérrez-Martínez, O., Valdivia, S., Ortega, J., & Rodríguez-Valverde, M. (2008). The role of values with personal examples in altering the functions of pain: Comparison between acceptance-based and cognitive-control-based protocols. Behaviour Research and Therapy, 46(1), 84-97.
Skinner, B. F. (1953). Science and Human Behavior. New York: Macmillan.
Skinner, B. F. (1987). O que há de errado com a vida cotidiana no mundo ocidental? Trad. Renata Cristina Gomes, disponível em http://www.itcrcampinas.com.br/pdf/skinner/oque_ha_de_errado_com_o_mundo_ocidental3a.pdf
Skinner, B. F.. (2007). Seleção por consequências. Revista Brasileira de Terapia Comportamental e Cognitiva, 9(1), 129-137.
Wilson, K. G., & DuFrene, T. (2009). Mindfulness for two: An Acceptance and Commitment Therapy approach to mindfulness in psychotherapy. Oakland, CA: New Harbinger

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