Padrões comportamentais comuns em casos de ansiedade: um direcionamento para formulação comportamental

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Padrões comportamentais comuns em casos de ansiedade: um direcionamento para formulação comportamental

A prática clínica permite que o psicólogo tenha acesso a realidades que vão muito além dos livros. A compreensão de que o comportamento é selecionado em três níveis, conforme preconiza Skinner (1953/2003), direciona o clínico para a avaliação comportamental do seu cliente: investiga-se a história de aprendizagem dos comportamentos-alvo, as contingências atuais vigentes, quais comportamentos estão em excesso e quais estão deficitários, entre outros.

Na Análise Comportamental Clínica, os comportamentos que serão alvos de intervenção são explicados a partir de relações funcionais históricas e determinada em conformidade com um modelo de seleção por consequências, como relatado em Marçal (2005). Cada caso, apesar de único em virtude da idiossincrasia, pode ter padrões de comportamentos comuns dentro de cada categoria nosológica, embora não estejam totalmente descritos nos manuais diagnósticos como CID 11 e DSM V. Neste trabalho, serão abordados três padrões de comportamento comumente vistos em casos de Transtornos de Ansiedade, no intuito de auxiliar o profissional e/ou estudante de Psicologia em sua avaliação comportamental.

Cabe mencionar que, obviamente, tratam-se de direcionamentos dentro da avaliação, não regras absolutas, afinal, a idiossincrasia precisa ser levada em consideração, assim como a função dos mesmos, como descrito em Fonseca e Nery (2018).

1. Autoexigência quanto ao desempenho

 A pessoa que sofre de ansiedade desajustada costuma se exigir quanto ao desempenho. Um erro pode ser visto como algo ameaçador, uma esquiva que afasta a possibilidade de um suposto julgamento alheio. Em outro olhar, o acerto sinalizaria reforço social, como ocorria historicamente na infância, momento em que os pais costumam oferecer o reforço diferencial para performance. E assim, nas fases subsequentes à infância, durante a execução de uma tarefa, a pessoa com ansiedade desajustada costuma a ficar preocupada e/ou tensa, pois adianta-se na possibilidade de errar.

Este padrão de comportamento, além de receber influências da variável ontogenética, também recebe influências diretas da cultura atual: o ritmo frenético da vida cotidiana, o mercado de trabalho exigente e o grande número de informações disponíveis – sem o menor esforço e sem qualquer critério, que atingiria todo mundo, por exemplo –  faz com que o sujeito busque ter o/ “diferencial” perante os demais, o que pode ser interpretado como a capacidade de fazer algo errando nada ou o mínimo possível.

Cabe lembrar também que tal padrão pode ser generalizado para outras esferas da vida da pessoa: ou seja, não necessariamente a autoexigência se manifesta apenas no âmbito intelectual ou profissional, mas pode estar presente – por exemplo – na sua interação íntima e até sexual com outras pessoas, buscando um repertório comportamental ideal como ser humano, sem erros e defeitos.

2. Heteroexigência

Ao mesmo tempo em que a pessoa com ansiedade desajustada exige de si mesma, pode também cobrar excessivamente o outro. Ela comumente cria expectativas quanto ao comportamento das pessoas com as quais se relaciona. Por exemplo, diante de alguma crise de ansiedade, a pessoa pode exigir que o outro lhe dê atenção, que demonstre mais afeto, que cuide dele e outros. Pode colocar seu próprio repertório (ou o que seria seu repertório ideal) como parâmetro para que o outro se encaixe, por exemplo. Diante disso, a ansiedade só aumenta, elevando também o risco de outra emoção, como a raiva e a frustração, visto que essa exigência nem sempre é atendida.

3. Baixa resistência à frustração (extinção)

Este padrão está correlacionado com os dois anteriores. A baixa resistência à frustração significa que uma determinada pessoa, diante de extinção, retorna ao nível operante rapidamente, sem resistir (Moreira & Medeiros, 2007). As reações emocionais diante de uma extinção são tão significativas que há persistência na resposta. No entanto, algumas vezes, a persistência diante da ausência de reforço pode indicar acesso a reforçadores a curto, médio ou longo prazos.

Assim, uma pessoa com ansiedade desajustada pode ter dificuldades em estabelecer relações sociais (íntimas ou não) por não conseguir tolerar as emoções vindas das adversidades naturais que uma relação proporciona. Um exemplo disso é quando um determinado comportamento é reforçado intermitentemente ou mesmo quando há punição. Ilustrando mais um pouco, quando o interlocutor não dá a atenção que a pessoa gostaria ou quando o outro age de um jeito desagradável com a pessoa.

Um padrão comportamental de baixa resistência à frustração pode também indicar a função de esquiva quanto à estimulação aversiva. Por exemplo, uma pessoa com este padrão pode ser aquela em que não persiste em fazer uma tarefa com alto de custo de resposta, como tocar um instrumento musical, de modo que as adversidades naturais características da aprendizagem podem ser altamente punitivas para o sujeito.

Considerações finais

A título de conclusão, ressalta-se que tais padrões comportamentais não são exclusivos dos transtornos de ansiedade, podendo se encontram em outros transtornos que possuem a ansiedade com emoção comum, como as disfunções sexuais e os transtornos alimentares.

Ademais, acrescenta-se que a identificação dos padrões comportamentais dentro das formulações de caso são fundamentais para que o clínico tenha uma avaliação comportamental produtiva, sendo base ainda para avaliação funcional molar e molecular e, assim, para conseguir delinear um plano de tratamento dentro da Análise Comportamental Clínica.

Referências bibliográficas

Fonseca, F. N., Nery, L. B. (2018). Formulação comportamental ou diagnóstico comportamental: um passo a passo. In: A. K. C. R. de-Farias, F. N. Fonseca & L. B. Nery. (Orgs.). Teoria e Formulação de Casos em Análise Comportamental Clínica.

Marçal, J. V. S. (2005). Estabelecendo objetivos na prática clínica: quais caminhos seguir? Revista Brasileira de Terapia Comportamental e Cognitiva, VII (2), pp. 231-245.

Moreira, M. B., Medeiros, C. A. (2007). Princípios básicos de análise do comportamento. Porto Alegre: Artmed Editora.

Skinner, B. F. (1953/2003). Ciência e Comportamento Humano. (J. C. Todorov & R. Azzi, trad.). São Paulo: Martins Fontes.

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