Afinal, por que eu me sinto tão insegura? E o que isso tem a ver com gênero?

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Já fazia um tempo que eu queria falar sobre esse assunto, porque ele aparece de várias maneiras nas minhas apresentações, rodas de conversa e experiência profissional. Lembro que a primeira vez que isso realmente chamou minha atenção foi ano passado, quando falei sobre variáveis de gênero no atendimento a mulheres em psicoterapia em um evento do dia das mulheres. Nessa época eu estava fazendo o doutorado sanduíche na Universidade Autônoma de Barcelona, na Espanha, e tinha ido falar a convite da Associação de Pesquisadores e Estudantes Brasileiros na Catalunha. Pois bem, quando abrimos para as perguntas, a presidenta da Associação pediu a palavra e me perguntou diretamente “Como a gente faz quando se sente insegura? Porque eu me sinto muito insegura e vejo o quanto isso afeta meu trabalho frente a essa associação, e eu não via isso no presidente anterior”. 

Até hoje eu tenho esse episódio como um quadro de como esse sentimento pode ser injusto. Lembro de ter compartilhado com ela justamente essa impressão, afinal, caramba!, ela estava morando na Espanha, presidindo uma Associação, organizando um evento como aquele, e ainda assim sofrendo e duvidando de si mesma. Eu sei que em parte isso é normal e esperado, uma vez que situações desafiadoras realmente produzem insegurança e medo, mas dizer simplesmente que isso é normal também é  ignorar e não validar outros aspectos importantes da experiência dela (e de outras mulheres): a de que é diferente a forma como homens lidam com a mesma situação. 

Lembro também de uma cliente, há alguns anos, chegar pra mim em sessão com uma matéria de revista dizendo “agora eu sei porque me sinto tão insegura”, e a matéria dizia “Diferença no cérebro pode influenciar habilidades de homens e mulheres: mulheres têm mais facilidade com a linguagem, homens com cálculos”. Não vou me ater à minha chateação com reportagens reducionistas, que ignoram totalmente o contexto e atribuem todas as características a fatores únicos, geralmente biológicos, genéticos, ou quaisquer que seja. O que posso dizer é que essa explicação ignora dois aspectos principais: não existe um fator único de determinação do comportamento, e que mulheres e homens têm experiências consideravelmente diferentes na nossa sociedade. 

Uma dessas experiências, para começar, envolve o próprio comportamento de expressar emoções, dentre elas, a insegurança. Para mulheres é muito mais permitido ou fomentado a expressão de conteúdos emocionais, íntimos, enquanto pra homens não. Então você pode pensar “Que bom, né? Que bom que mulheres podem demonstrar  mais suas vulnerabilidades, suas inseguranças. Olha aí uma vantagem”. Bom, não necessariamente. A questão não é que mulheres e homens têm diferenças, é claro que têm, a questão é que essas diferenças têm marcadores sociais importantes que estabelecem justamente uma desigualdade, e nós não vivemos em uma sociedade cuja vulnerabilidade seja valorizada. Ao invés disso, apesar dos avanços, a vulnerabilidade ainda é muitas vezes associada à fraqueza, e justamente por isso são permitidas às mulheres e não aos homens. Assim, é favorecido ou mesmo incentivado que mulheres expressem ou demonstrem mais emoções sem que isso demonstre qualquer vantagem no mundo corporativo, por exemplo. 

Por outro lado, segurança é super valorizada, além de deixar as pessoas confortáveis. Mas aí entra um outro aspecto, segurança (e outras características relacionadas) é uma traço favorecido em homens, e valorizado muitas vezes em homens, e não em mulheres. Ou seja, o que vai ser valorizado não é só a característica em si, mas a conformidade daquela característica com a pessoa que a está expressando. Assertividade, por exemplo, não é tão valorizada em mulheres como a vulnerabilidade, a doação, a disponibilidade para o outro, a compreensão, habilidades que são importantes para o cuidado. Então o cuidado fica a cargo feminino, não à toa as profissões de cuidado são predominantemente femininas – e, não à toa também, profissões de cuidado também são menos valorizadas e menos remuneradas (Stacey, 2013). 

Quer outro dado? Em uma pesquisa com cartas de recomendação de orientadores, Madera, Hebl e Martin (2019) encontraram que mulheres costumam receber mais descrições como afetuosa, gentil e educada, enquanto homens costumam ser descritos como ambicioso, autoconfiante e dominante. Os autores também encontraram que essas mesmas características enfatizadas para mulheres estavam relacionadas a menores decisões de ingresso nas vagas.

Assim, a pergunta que surge é “têm sentimento mais justificado do que esse de insegurança e inadequação?” Isso sem discutir outras contingências mais presentes no universo feminino, como a invalidação, as exigências desiguais e o abuso e a violência (para saber mais, ver Pinheiro & Oshiro, 2019). Tudo isso contribui para que, de fato, mulheres se sintam mais inseguras, e também apresentem mais sintomas de ansiedade e depressão (World Health Organization, 2001). 

Por fim, infelizmente esse sentimento não vai simplesmente desaparecer. Ele está bem relacionado à nossa história enquanto mulheres e a contingências que muitas vezes ainda estão presentes. Mas situar isso dentro de um contexto e identificar de onde vem é fundamental para que possamos compreender e acolher essa sensação, enquanto nos engajamos em valorizar as características que já temos e trabalhar as que foram pouco estimuladas ou suprimidas, tolerando os aversivos que podem, e vão, surgir. 

[Um forte abraço.]

Nota 1: Agradeço à Mariana Sartor pela revisão cuidadosa do texto.

Referências

Madera, J. M., Hebl, M. R., & Martin, R. C. (2009). Gender and letters of Recommendation for Academia: Agentic and Communal Differences. Journal of Applied Psychology, 94(6), 1591–1599. 

Pinheiro, R. C. S., & Oshiro, C. K. B. (2019). Variáveis de gênero que terapeutas devem estar atentas no atendimento a mulheres. In: Pinheiro, R. C. S., & Mizael, T. M. (Orgs.). Debates sobre feminismo e análise do comportamento. Fortaleza: Imagine Tecnologia Comportamental. 

Stacey, C. L. (2013). Care Work. In: Smith, V. (ed.). Sociology of work: an encyclopedia. University of California, Thousand Oaks: Sage.

World Health Organization (2001). Gender Disparities in Mental Health. Geneva: WHO, Department of Mental Health and Substance Dependence, vol 48.

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Mariana
Mariana
2 meses atrás

Texto excelente!