Habilidades e desafios perante o distanciamento social… repercussões do COVID 19

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Há alguns meses o mundo viu surgir, com surpresa e certa descrença, um vírus que rapidamente se proliferou e espalhou por cidades chinesas provocando um elevado número de infecções e mortes. Essa realidade parecia distante para nós brasileiros, até que, alguns meses depois, nos encontramos também em recomendação de distanciamento social na tentativa de conter o crescimento dos casos.

O distanciamento social pode produzir as mais variadas sensações, pensamentos e reações. O objetivo deste artigo é falar de habilidades que podem ser importantes para que passemos por este processo da melhor forma possível .

A terapia de aceitação e compromisso (ACT) discorre acerca da importância de se criar flexibilidade psicológica, no sentido de trazer ao indivíduo “a habilidade de estar consciente e experienciar por completo os resultados emocionais e cognitivos, persistir e alterar seu comportamento em prol de valores escolhidos” (Hayes, Pistorello & Biglan, 2008).

Em tempos de COVID 19, de atitudes que variam do pessimismo à negligência e de recomendações científicas a jogos políticos, o desafio consiste em encontrar um equilíbrio. Este equilíbrio seria sinônimo de flexibilidade psicológica e contem, em si, seis aspectos que apontam em direção a comportamentos saudáveis e processos psicológicos não patológicos: aceitação, atenção presente, valores, compromisso, self como contexto e desfusão.

A aceitação refere-se justamente à capacidade de estar aberto às coisas ruins que acontecem na vida e entrar em contato com sensações desconfortáveis relacionadas a elas. Trata-se de reduzir a ocorrência de ações que foquem apenas em diminuir frequência e/ou intensidade deste desconforto, já que lutar para não entrar em contato com o sofrimento não impede a sua ocorrência. No cenário atual, apresenta-se como uma habilidade importantíssima, uma vez que estar em isolamento social obviamente traz restrições de contato com inúmeras situações altamente reforçadoras e consequentemente um provável maior contato com sentimentos como frustração, raiva, medo, dentre outros.

A atenção presente traz o desafio de estar psicologicamente presente ao que está ocorrendo neste exato momento, distanciando-se de preocupações infundadas do que poderia ter sido feito no passado ou o que pode ser feito no futuro. Entendendo que o tempo presente é o único passível de qualquer atuação ou mudança, fica evidente a importância do exercício de se conectar consigo e com o seu redor (mesmo que este redor esteja restrito a alguns metros quadrados e alguns indivíduos). Através desta conexão, pode tornar-se possível ver beleza e possibilidades de ação mesmo na restrição.

Os valores são como uma bússola que norteia nossas ações a cada instante, nos permitindo nos aproximarmos de quem desejamos ser. “São vividos momento a momento, e não como uma conquista definitiva” (Barbosa & Murta, 2014). Quanto mais ciente o indivíduo for de seus valores, mais poderá exercitá-los, e ainda que a restrição social traga cerceamento de muitas formas de entrar em contato com estes valores, é possível fazer  o exercício de experimentar novas formas de viver que sejam alinhadas com aquilo que é importante para nós.

O compromisso se entrelaça aos valores. Existe compromisso quando as atitudes do indivíduo precisam refletir de forma coerente o que faz sentido para ele. O grande desafio é que viver efetivamente segundo esses parâmetros trará contato com o desconforto das mais variadas formas, ratificando que o que está em jogo não é o não desconforto e, sim, o enfrentamento de um desconforto que tenha por pano de fundo um sentido maior. Em tempos de distanciamento social tão extenso, muitas das vezes combinado por dias lindos e ensolarados (que mais parecem um convite), é preciso um lembrete constante que há uma motivo maior para se manter no isolamento.

O self como contexto reflete a flexibilização de um self rígido e conceitual com crenças arraigadas acerca de si mesmo. É a possibilidade de se ver em perspectiva, sem limitação de seu repertório de ações, e com a possibilidade de entrar em contato com a experiência vivida para posteriormente tirar suas percepções e conclusões. Neste cenário atual é uma habilidade que pode trazer a abertura a flexibilidade e alternativa de ações para melhor lidar com suas limitações, bem como na forma de se perceber diante de tudo isto.

Por fim,e, tão importante quanto as demais habilidades, temos a desfusão cognitiva, ou a habilidade de distanciamento dos próprios pensamentos, sentimentos e sensações. Distanciar-se não quer dizer não entrar em contato e sim trata-los como o são (pensamentos, sentimentos ou sensações) e não como definidores da forma como devemos nos comportar. Neste momento em que estamos privados do externo, o contato com o interno pode aflorar para algumas pessoas e, esta desfusão, pode ajudar para que não ocorra o emaranhamento consigo mesmo, ou seja, que o contato tão intenso com pensamentos/sentimentos e sensações os coloquem em um patamar preponderante e leve a um um distanciamento das demais habilidades mencionadas anteriormente.

A separação entre as seis habilidades anteriores é mais teórica do que prática, pois na realidade, o exercício da flexibilidade psicológica engloba todas elas de forma dinâmica.

Nenhuma das habilidades colocadas são instâncias mágicas em que se tem ou não . São muito mais um exercício constante de se redescobrir e se aperfeiçoar enquanto ser humano. Neste sentido, não se trata de tê-las e sim de conhece-las e repetidamente exercitá-las. Cada indivíduo, com suas indiossincrasias apresentará recursos e dificuldades diferentes. Dito isso, é preciso acrescentar que viver em distanciamento social é um desafio para a humanidade de forma global e mesmo indivíduos que tenham menor grau de sofrimento psicológico, certamente enfrentarão algumas dificuldades.

Referências Bibliográficas

Barbosa, L.M. & Murta, S.G. (2014). Terapia de aceitação e compromisso: história, fundamentos, modelo e evidências. Rev. Bras. de Ter. Comp. Cogn., vol. XVI (3), pp. 34-49

Hayes, S.C., Pistorello, J., Biglan, A. (2008). Terapia de Aceitação e Compromisso: modelo, dados e extensão para a prevenção do suicídio. Rev. bras. ter. comport. cogn. vol.10(1), pp. 54-63

Saban, M. (2015). Introdução à Terapia de Aceitação e Compromisso. Belo Horizonte: Editora Artesã

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