“Tomar a decisão de ter um filho é importante. É decidir para sempre ter seu coração andando por aí fora de seu corpo.” – Elizabeth Stone

O tema deste artigo está alinhado a duas áreas de estudo das quais me interesso muito: Prática Parental Positiva e Terapia de Aceitação e Compromisso (ACT – do inglês Acceptance and Commitment Therapy). No decorrer deste texto apresentarei algumas considerações, preliminares, a respeito da Parentalidade pautada na filosofia da ACT.

Criando um contexto para discussão.

Enquanto a criança está dentro da barriga da sua genitora ou do seu genitor, ela é abarcada por uma série de informações, estimulações e interações (neuroquímicas, sensoriais, sociais e emocionais). Quando ela chega ao mundo, mais uma torrente de informações recai sobre ela (cores, formas, os sons e ruídos se tornam mais intensos, pessoas, interações, formas de comunicação – até então – não compreendidas, etc.).

O que será deste pequeno organismo em meio a essa vastidão de informações? Como este pequeno organismo irá sobreviver neste novo mundo, caótico, imprevisível, aglomerado de informações, pessoas e demais organismos?

Neste contexto de inseguranças, dúvidas e preocupações em relação à sobrevivência deste pequeno organismo que acaba de vir ao mundo, surge uma ou algumas pessoas que dedicarão um tempo da sua vida para criar, nutrir, acolher e organizar contingências que possibilitem a sobrevivência deste ser – a partir daqui denominado de criança. Tendo em vista os inúmeros modelos de arranjos familiares, utilizarei o termo “Responsáveis Afetivos” em referência aquela ou aquelas pessoas que criam ou criarão esta pequena criança.

De imediato, cabe aqui uma ressalva de que o conteúdo deste texto é dedicado a todos as/os responsáveis afetivos que assumiram o papel de pais decorrente do nascimento de um filho ou filha biológico, de uma adoção de uma criança (independente do seu estágio de desenvolvimento) ou pais de criação (ex: avós, tios, babás, madrasta ou padrasto, etc.)

Agora que esta criança veio ao mundo e/ou passou a integrar o arranjo familiar desses responsáveis afetivos, cabe a estes organizar o ambiente familiar a fim de criar contingências e contextos para o desenvolvimento físico, social e emocional da mesma.

Parentalidade: uma viagem ímpar.

A parentalidade se refere a uma série de ações que os responsáveis afetivos tomam e precisarão tomar, continuamente, a fim de prover as necessidades básicas de seu filho ou sua filha, com o propósito de garantir a sobrevivência desse/a e o contexto para o desenvolvimento físico apropriado e esperado para a sua prole. No entanto, parentalidade envolve mais do que simplesmente garantir a sobrevivência de sua criança através do fornecimento de proteção (ex: moradia, saneamento, acesso a roupas e materiais para uso de higiene pessoal, etc.) e de alimentos que possibilitem a sua sobrevivência (Caminha, 2014; Coyne & Murrell, 2009).

Parentalidade envolve, também, criar contingências para que a criança seja acolhida emocional e afetivamente no arranjo familiar; envolve modelar e ensinar a criança a identificar e nomear seus estados emocionais e como estes são frutos da interação com o seu ambiente como um todo. Envolve, também, incentivar, isto é, reforçar diferencialmente a criança, quando esta apresenta comportamentos socialmente apropriados (ex: interagir com pares ou adultos, utilizar comunicação funcional para solicitar algo ao adulto ou par, seguir as regras apresentadas pelo adulto, apresentar comportamentos de reciprocidade social ao interagir com outras pessoas, etc.).

Parentalidade requer que os responsáveis afetivos delimitem regras e expectativas de comportamentos socialmente apropriados que seu filho ou sua filha deverão seguir/apresentar, bem como, que gerenciem o manejo dos comportamentos socialmente inapropriados – não seguimento de regras – que suas crianças poderão, por ventura, apresentar (Caminha, 2014; Coyne & Murrell, 2009).

O subtítulo “Parentalidade: uma viagem ímpar” serve como alusão a este processo, bem como, aos desafios e aos inigualáveis encontros que os responsáveis afetivos experienciarão e vivenciarão ao assumirem e executarem o papel de pais.

Uma viagem ímpar ou uma montanha russa?

Durante o desenvolvimento da criança, os responsáveis afetivos por esta serão abarcados por um misto de sentimentos, sejam eles avaliados como agradáveis (ex: felicidade, ânimo, alegria, amor, surpresa, acolhimento, pertencimento, paz, paixão, sucesso etc.) ou desagradáveis (ex:medo, raiva, tristeza, angústia, surpresa, nojo, aversão, fracasso, derrota, inferioridade, etc.). Além dos sentimentos, os pais, são invadidos por uma combinação de pensamentos agradáveis e desagradáveis (ex: “Eu estou sendo um pai/uma mãe boa?”, “Meu filho(a) gosta de estar comigo?”, “Como é bom brincar com a minha criança?”, “Como o tempo está passando rápido, me lembro de quando ela/a era um bebezinho”, “Onde eu fui me meter?”, “Eu estou sendo um(a) péssimo/a pai/mãe?”, “Meu companheiro(a) não sabe fazer nada”, “Meu/Minha companheiro(a) bajula demais essas crianças, não coloca limite nelas”, “O que será que as outras pessoas estão pensando?”, etc.) (Caminha, 2014; Coyne & Murrell, 2009).

Com frequência, estes eventos encobertos são evocados nos responsáveis afetivos após a sua criança apresentar um comportamento-problema (ex: chorar, gritar, se jogar no chão, bater em um colega ou na irmã(o), insistir em querer brincar ou ganhar um item, etc.). Diante da emissão de comportamentos difíceis por parte da criança, é comum que os responsáveis afetivos sejam invadidos por uma combinação de sentimentos e pensamentos desagradáveis, envoltos de conteúdo de crítica a situação, ao comportamento da criança e, até mesmo, de autocrítica. Pode até parecer um clichê afirmar isso, mas se a criança apresenta estes comportamentos-problema em uma situação de interação ou visibilidade social (ex: na casa de um familiar, festa, shopping, na escola, no passeio, na igreja, ou em qualquer outro espaço de vida em comunidade) é aí que estes eventos encobertos aumentam em frequência, intensidade e duração. E como se os responsáveis afetivos estivessem no meio de uma tempestade nestas situações, sentindo-se literalmente no olho do furacão. (Coyne & Murrell, 2009).

Parentalidade & a Terapia de Aceitação e Compromisso (ACT)

Estar no olho do furacão de pensamentos e sentimentos desagradáveis se refere ao estado de Fusão Cognitiva, descrito pelos pesquisadores e terapeutas da ACT. A Fusão Cognitiva é um termo utilizado em referência à quando a pessoa é abarcada por eventos encobertos, avaliados como negativos, e não consegue se separar dos mesmos, tomando-os como realidade. A pessoa tem dificuldade para perceber que estes eventos são apenas o que de fato são, isto é, são apenas pensamentos, sentimentos e memórias e que os mesmos são como nuvens no céu, ou seja, vêm até a nossa percepção e vão seguindo o seu fluxo (Coyne & Murrell, 2009; Wilson, Strosahl & Hayes, 2012).

É muito comum que os responsáveis afetivos se vejam em um completo estado de Fusão Cognitiva quando seus filhos ou filhas estão emitindo comportamentos-problema. Além de imergirem em vários pensamentos e sentimentos desagradáveis de autocrítica, de autojulgamento e de autocobrança, é frequente aos responsáveis afetivos se verem presos a memórias passadas e avaliações do futuro, não conseguindo perceber claramente o que é importante e quais ações e decisões precisam ser tomadas para irem ao encontro às coisas que lhes são realmente importantes. Bem como, é frequente se enxergarem nos dizeres de seus pensamentos e sentimentos ou das avalições que fazem destes. É comum, também, aos responsáveis afetivos, tentar de todas as formas possíveis (ex: imagináveis e inimagináveis) fugir, escapar, evitar ou não entrar em contato com todos estes eventos que irão passar por seus pensamentos enquanto responsáveis afetivos (a isso dá-se o nome de Inflexibilidade Psicológica) (Coyne & Murrell, 2009; Wilson, Strosahl & Hayes, 2012).

Neste momento você leitora e leitor deve estar se perguntando: “Tá, já sei que eu enquanto pai/mãe tenho passado ou posso passar por tudo isso, mas o que é possível ser feito diante destas situações?”

A primeira consideração a se realizar é trazer o aparato de “normalidade” aos comportamentos-problema apresentados pelas crianças; isto é, muitos dos comportamentos que as crianças apresentam são esperados para o seu nível de desenvolvimento, bem como, ao nível de funcionamento no qual se encontram. Ressalto que, “ser esperado” não deve ser interpretado como impossível ou que não deva demandar de gerenciamento e manejo comportamental. No entanto, para que isto seja possível, é necessário que os responsáveis afetivos modifiquem algumas práticas parentais comumente utilizadas, tais como: 1) Deixar de perceber os comportamentos apropriados apresentados pela criança; 2) Prestar demasiada atenção aos comportamentos-problema emitidos pelo seu filho ou filha; 3) Aumentar o nível de demanda instrucional ou ameaçar a criança diante da observação de comportamentos difíceis e; consequentemente 4) Deixar de atentar-se a qualidade da interação afetiva entre adultos e crianças (Coyne & Murrell, 2009).

Posto isso, utilizarei aqui o acróstico realizado com a sigla “ACT” para indicar, mesmo que brevemente, algumas atitudes que podem ser tomadas pelos responsáveis afetivos para manejar os comportamentos-problema apresentados pela sua criança, assim como, para melhorar a qualidade de suas interações com a mesma (Coyne & Murrell, 2009; Wilson, Strosahl & Hayes, 2012):

Aceite os seus pensamentos e sentimentos da forma como eles se apresentam. Aceite que você pode cometer falhas enquanto Pai e Mãe. Aceite que você é um ser humano. Aceite que a sua criança pode apresentar comportamentosproblema. Aceite que sua criança pode não ter maturidade para manejar sozinha os conflitos que ela está vivenciando. Aceite que, muitas vezes, você precisará se manter calmo/a para auxiliar a sua criança a identificar e nomear seus estados emocionais e a modelar o repertório comportamental dessa. Aceite que você poderá se sentir frustrado/a, incapaz, malsucedido/a em manejar o comportamento da sua criança. Aceite que você não é seus pensamentos, sentimentos, memórias, reações fisiológicas, etc.

Comprometa-se/Conecte-se com aquilo e aquelas pessoas que são importantes para você. Comprometa-se a dar um passo de cada vez. Comprometa-se em treinar, continuamente, a prática de aceitação. Comprometa-se com os seus valores. Conecte-se com os seus valores. Conecte-se com o seu filho ou filha. Conecte-se com seu parceiro ou sua parceira que estão contigo nesta jornada parental, caso o/a tenha, caso não, conecte-se com sigo mesma/o. Esteja atento e comprometido com o seu autocuidado.

Tome decisões/faça aquilo que é importante e que lhe aproxime dos seus valores. Tome decisões que façam com que você vivencie continuamente os seus valores. Lembre-se, os valores são processos a serem vivenciados e experienciados e não objetivos a serem alcançados. Tome decisões que possibilitem uma melhoria a curto, médio e longo prazo nas suas interações com seu filho ou sua filha, melhorias essas que, sem sombra de dúvidas, serão duradouras. Tome decisões que possibilitem um cuidado para si mesmo(a), bem como, para com o(a) seu(ua) parceiro(a).

Deste modo, é importante lembrar que você, enquanto responsável afetivo por uma criança não está sozinho. Não é só você que passa por situações desagradáveis ou que é invadido/a por um misto de pensamentos, emoções e sentimentos avaliados como negativos/as. Não é um problema reagir de modo inadvertido a um comportamento-problema de sua criança – a problemática está em insistir nessa mesma estratégia ou forma de lidar com os repertórios de seu filho ou filha, pois a mesma pode não estar produzindo o resultado esperado. Quando estiver reagindo de uma determinada forma ao comportamento da sua criança tente notar quais são as consequências reais da sua reação na criança, em si mesmo(a) e nas pessoas ao seu redor; note se estas consequências aproximam-lhe de seus valores e do contexto de interação que você quer ter com a sua prole, ou do estilo de cuidador(a) que você quer ser (Coyne & Murrell, 2009).

Por fim, espero que este artigo tenha sido útil a você leitora e leitor e encerro este texto com uma citação que me encanta sobremaneira presente no livro da Coyne & Murrell (2009):

“Há tanta vida e riqueza em um momento de sofrimento, quanto em um momento de alegria.” (Autor desconhecido apud Coyne & Murrell, 2009, pp. 18)

Referências

Caminha, R.M. (2014). Educar crianças: as bases de uma educação socioemocional – um guia para pais, educadores e terapeutas. Novo Hamburgo: Sinopsys;

Coyne, L.W., Murrell, A.R. (2009). The joy of parenting : an acceptance and commitment therapy guide to effective parenting in the early years. Oakland: New Harbinger;

Wilson, K.G., Strosahl, K.D., Hayes, S.C. (2012). Acceptance and commitment therapy: the process and practice of mindful change. 2 ed. New York: The guilford press.

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Lucas Polezi do Couto
Psicólogo CRP 16/6198. Psicólogo Clínico, realiza atendimentos de crianças, adolescentes e adultos. Atualmente compõe a equipe da Casulo Comportamento e Saúde (Linhares-ES), clínica de Psicologia especializada no tratamento de crianças diagnosticadas com Transtorno do Espectro do Autismo (TEA) e Transtornos relacionados, como Consultor Comportamental. Apaixonado por Terapias Comportamentais Contextuais, em especial Terapia de Aceitação e Compromisso (ACT); Terapia Comportamental Dialética (DBT) e Terapia Focada na Compaixão (FCT).
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