Imagine que a sua história de vida seja a seguinte:

  Por volta dos oito anos de idade você enfrenta experiências de abuso físico e sexual. Nesse mesmo período, você vivencia situações de bullying e rejeição na escola por parte de colegas e funcionários da instituição. Na adolescência, você começa a beber e usar os mais diversos tipos de drogas para lidar com os próprios sentimentos e com as lembranças de um passado repleto de sofrimentos que não puderam ser compartilhados.  

O tempo passa e, com ele, cresce a sensação de solidão, tristeza e desvalia. O medo de não ser bom o suficiente e de não merecer o amor dos outros torna-se um de seus principais companheiros. Você tenta entender as suas experiências internas, bem como sensações físicas e percepções diante das mais diversas situações. Ao compará-las com seus amigos, sua conclusão é de que tais vivências pessoais são estranhas e incomuns. Em casa, você percebe que existem muitos problemas além dos que você vivencia. O sentimento de solidão aumenta. Aos poucos, você começa a evitar falar sobre si para outras pessoas. Você se isola. Pessoas passam a ser interpretadas como perigosas e você se torna cada vez mais hipervigilante em relação às intenções dos outros.

Porém, em um momento de muita angústia, você decide buscar um psicoterapeuta e revela para ele o quanto você sente diariamente uma dor e queimação no peito – como se fosse um vulcão -, e em sua cabeça passam vários pensamentos misturados em uma rapidez incontrolável e um desejo desesperador de dar fim a tudo isso. As drogas já não te ajudam mais como antes e você precisa de quantidades cada vez maiores. Seu psicoterapeuta fica assustado com o seu relato acerca dos episódios de abuso de substâncias, diz que está muito preocupado com você e sinaliza o quanto tudo isso é muito problemático, além de afirmar que todo o seu sofrimento é causado pelo uso de drogas. Você sente como se, mais uma vez, alguém não tivesse te entendido. Sua vergonha aumenta e passa a vir acompanhada de um sentimento de incapacidade de mudar sua situação. A necessidade de isolamento cresce.

Após uma noite de uso abusivo em um quarto de motel, uma equipe de resgate psiquiátrico arromba a porta e o leva para o hospital contra a sua vontade. Eles afirmam que você está colocando sua vida em risco e precisam te proteger de você mesmo. Você fica aterrorizado. Seus pensamentos começam a ficar cada vez mais confusos e acelerados. Você começa a questionar o que é real ou não e grita “por favor, me diga quem eu sou”, mas parece que ninguém te ouve quando, de repente, uma agulha o espeta.

Lentamente, grogue, você acorda. O mundo parece ter entrado em colapso. Você é informado que foi contido física e quimicamente e, por conta disso, sente-se tão confuso.

Depois de sair do hospital, você começa a perder o contato com amigos e familiares. Ninguém quer entender o que está acontecendo e você se sente cada vez mais culpado e aterrorizado por tudo. Seus sonhos e esperanças encontram-se adormecidos. Você tenta outros psicoterapeutas e continua sentindo medo de não ser compreendido, o que afeta a sua motivação para ir às sessões.  

Finalmente, após anos acumulando experiências frustrantes com profissionais de saúde mental nos mais diversos contextos de vulnerabilidade, você encontra alguém que realmente ouve o que você tem para dizer e demonstra se importar com a sua história. Alguém que está disposto a ir no inferno em que você se encontra e buscar uma saída estando ao seu lado. Alguém que não só caminha com você, como também te ajuda a elaborar novas estratégias para lidar com os seus problemas. Alguém que reconhece em você qualidades que você nem lembrava que tinha.

Enfim, você dá os primeiros passos em direção ao caminho de redescoberta de quem você é e o que deseja fazer nesta vida. 

Agora imagine qual teria sido o desfecho desta história se você não tivesse encontrado um profissional realmente interessado em te ajudar a sair do inferno que era a sua vida. Muitas vezes, lidamos com pessoas que sofrem intensamente como se elas fossem apenas perigosas, incapazes ou não colaborativas. Sob o rótulo da loucura, a vivência de emoções tipicamente muito intensas acaba sendo invalidada.

Para essas pessoas, o vazio provocado pela crença de não saber quem são pode ser compreendido como subproduto da transação entre seu elevado grau de instabilidade emocional e ambientes que invalidam a ocorrência de suas experiências. Para quem vivencia emoções de maneira muito intensa durante boa parte do tempo, torna-se muito difícil voltar a atenção para os próprios estados internos. As sensações de vazio e confusão mental crescem e o sentimento de vergonha e culpa desembocam em isolamento ou comportamentos autolesivos que, muitas vezes, acontecem de maneira pouco consciente.

Para a Terapia Comportamental Dialética (DBT), esses comportamentos são compreendidos como estratégias pouco efetivas para o manejo de problemas e emoções avassaladoras. Essas estratégias foram aprendidas e mantidas ao longo da história de vida do cliente e uma das funções do tratamento é ajudá-lo a compreender a história que demandou tal aprendizagem, bem como contribuir para a aquisição de novas habilidades psicossociais para lidar com os problemas da vida.

Afim de contextualizar essa discussão, faz-se necessário entender o que são as estratégias dialéticas dentro da DBT e como elas poderiam nos ajudar a desenrolar, de maneira criativa, problemas que enrijecem o processo terapêutico.

Segundo Swenson (2016) propósito, presença e improvisação são os três principais paradigmas dialéticos da DBT.

Guiados pelo paradigma da mudança, terapeuta e cliente analisam, de maneira colaborativa, tudo aquilo que pode aproximar ou distanciar o cliente da vida que ele quer viver (propósito). A partir daí,metas, objetivos e comportamentos-alvo vão sendo clarificados em conjunto com a elaboração de métodos e estratégias que nos permitam ajudar o cliente a caminhar em direção a uma vida valiosa.

O paradigma da aceitação, através de estratégias como validação, comunicação recíproca e mindfulness, nos ajuda a ver e aceitar as coisas como elas são (por mais doloroso que isso seja), estando presente e sem julgamentos.

A transação entre as estratégias de aceitação e mudança permite que o terapeuta, em momentos de polarização com o cliente, lance mão de um terceiro paradigma: improvisação, que tem como objetivo a promoção – de maneira flexível e criativa – da retomada do movimento e fluxo do processo terapêutico. A chave para o vínculo terapêutico transformador, em muitos momentos, encontra-se na liberdade para improvisar em uma relação de vulnerabilidade e confiança. Isso envolve uma síntese entre o propósito da terapia e o senso de participação e presença entre terapeuta e cliente.

Ao mesmo tempo, tudo isso exige muito do terapeuta. A responsabilidade que assumimos ao nos colocar do lado de um cliente em uma jornada de intenso sofrimento pode ser muito exaustiva. É importante que nós, enquanto profissionais de saúde mental, saibamos identificar as nossas barreiras enquanto trabalhamos com esses clientes. Isso demanda um grau de honestidade que pode vir também acompanhado de certo nível de dor. E, lembre-se: seja gentil com você mesmo. Conhecer os nossos limites contribui para a identificação do tipo de ajuda que necessitamos.

Ser terapeuta DBT é também fazer parte de uma comunidade de terapeutas (equipe de consultoria) e ser lembrado, a todo momento, que não estamos sozinhos.

Referências

Linehan, M. Vencendo o Transtorno da Personalidade Borderline-Com a Terapia Cognitivo-Comportamental: Tratamentos que Funcionam. Artmed Editora.

Swenson, C. R. (2016). DBT principles in action: Acceptance, change, and dialectics. Guilford Publications.

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Helena Martinelli Serra
6 meses atrás

“Sob o rótulo da loucura, a vivência de emoções tipicamente muito intensas acaba sendo invalidada.”

Perfeito.