Ensinando Aceitação para Crianças: Breves considerações

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No meu último texto, descrevi os seis processos que compõem o modelo de Flexibilidade Psicológica proposto pela Terapia de Aceitação e Compromisso (ACT, do inglês Acceptance and Commitment Therapy) ( https://www.comportese.com/2019/09/o-que-seria-esse-tal-de-hexaflex-entendendo-o-conceito-de-flexibilidade-psicologica-em-act ). Neste texto, apresentarei algumas breves considerações sobre a importância de ensinar a crianças o processo de aceitação dos eventos encobertos, sendo esta habilidade um dos processos que compõem o Hexaflex.

Uma coisa que me fascina em ACT é a forma e/ou processo pelo qual auxiliamos nossos clientes a desenvolver variabilidade comportamental e repertórios comportamentais mais abertos e flexíveis às mudanças que ocorrem nas contingências presentes no ambiente. No decorrer dos encontros, buscamos trabalhar para que nossos clientes desenvolvam um repertório de aceitação dos eventos que ocorrem em suas vidas (sejam eles avaliados como agradáveis ou desagradáveis), que se conectem com o momento presente, que se comprometam com os seus valores (e.g.: pessoas ou características importantes para os mesmos) e que caminhem em direção a esses (Harris, 2011, Saban, 2015).

Para que seja possível a pessoa desenvolver esses repertórios é de suma importância que o terapeuta realize uma análise funcional dos comportamentos apresentados pelo cliente, no contexto atual, e como estes se relacionam com os ambientes nos quais o mesmo frequenta ou participa, tal como, com seu histórico de vida (Saban, 2015). Não é raro encontrarmos pessoas que desde a mais tenra infância foram ensinadas a evitar árdua e fortemente seus eventos encobertos (e.g.: emoções, pensamentos, sentimentos, reações fisiológicas, lembranças, etc.), visto que a expressão destes poderia ser considerada como sinal de fraqueza ou de adoecimento. Nossa sociedade, em sua maioria, para não dizer de modo geral, ensina nossas crianças, desde muito cedo, a não expressar suas emoções ou pensamentos; a racionalizar e controlar todas as suas experiências; a sempre manter o “pensamento positivo” (Harris, 2011).

Dado essa organização ambiental, não é de se estranhar que, com muita frequência, as crianças sigam solenemente e sem questionar as recomendações (leia-se ordens) apresentadas (leia-se dadas) pelos adultos, visto que isto é um dos principais responsáveis por modelar e selecionar grande parte dos repertórios comportamentais emitidos pela criança. Outra variável importante, é que para as crianças, os adultos são vistos como referência, sendo assim percebidos como mestres em controlar seus eventos encobertos (Harris, 2011, Dixon & Paliliunas, 2018).

“Desde muito cedo nos ensinaram que poderíamos controlar nossos sentimentos. À medida que crescemos, ouvimos muitas expressões do tipo ‘não chore’, ‘não fique desanimado’, ‘para de sentir pena de si mesmo’, ‘não há nada a temer’. ” (Harris, 2011, pp. 28)

Antes de entrar, especificamente, na discussão relativa a importância de ensinar aceitação para crianças é imperativo que o termo “Aceitação” seja conceitualizado segundo as premissas da ACT. O termo “Aceitação” pode gerar em você leitor uma certa estranheza, sendo possível, ainda, lhe eliciar um sentimento de desconforto, assim como, evocar uma série de questionamentos. O termo “Aceitação” leigamente pode ser conceitualizado e compreendido de uma forma totalmente destoante dos pressupostos da ACT, pois em Terapia de Aceitação e Compromisso a Habilidade de Aceitação não é simplesmente a pessoa aceitar passivamente, isto é resignadamente, tudo o que acontece em sua vida, sejam eventos agradáveis ou desagradáveis (Saban, 2015).

A “Aceitação” em ACT pode ser compreendida como a competência que a pessoa possui em reconhecer seus eventos encobertos, sem ser reativo a eles. Em tolerar entrar em contato com tais eventos, sem permanecer sob controle dos crivos de valores que são modelados e reforçados culturalmente, crivos estes que contribuem para que a pessoa fique paralisada com o que está acontecendo ou tentando fugir ou se esquivar a qualquer custo das experiências que são avaliadas como desagradáveis, a (Esquiva Experiencial). Cabe ressaltar que, os eventos encobertos são eliciados e evocados decorrente de um determinado contexto ou evento. Sendo assim, quando a pessoa tenta fugir de um evento encoberto ela, também, evita o contato com o contexto, com o momento presente e, consequentemente, se afasta dos seus valores, mesmo que a princípio isso não fique claro para a mesma. Sendo assim, “Aceitação” não deve ser visto como conformismo, mas sim como um repertório comportamental que envolve a competência da pessoa em tolerar a entrar em contato com seus eventos privados ao invés de, simplesmente, fugir deles (Saban, 2015).

Aceitação não é conformismo, não é tolerar, não é aguentar, não é resignação, não é comodismo, não é passividade. É uma ação de observar. Para treinar essa ação precisamos eliciar as sensações e treinar resposta de observação, no lugar da esquiva (Saban, 2015, pp. 200).

Em psicoterapia com adultos, nota-se que é uma tarefa árdua promover contingências que possibilitem o desenvolvimento desta habilidade, pois demanda que o terapeuta ACT esteja preparado para isso (o que inclui dominar os princípios e pressupostos da Terapia de Aceitação e Compromisso). Não obstante, quando falamos em ensino da Habilidades de Aceitação para crianças isso requer um preparo e um cuidado ainda maior, visto que, além de ensinar tal repertório a criança o terapeuta terá que analisar e, por vezes, modelar as práticas parentais utilizadas pelos pais para ensinar competências socioemocionais para seus filhos (Harris, 2011, Saban, 2015).

Um dos principais aspectos que contribuem para que crianças apresentem comportamentos de fuga e esquiva dos seus eventos encobertos são as contingências que se seguem ao comportamento. Estas podem ser reforçadoras negativas ou, até mesmo, punição positiva (Dixon & Paliliunas, 2018). Imagine um cenário no qual uma criança precisa fazer uma tarefa, porém quer ter acesso a um brinquedo antes. Diante desta situação, a criança apresenta comportamento de choro e o adulto, como forma de manejar o comportamento da criança, utiliza punição positiva através de repreensão verbal, por exemplo: “Pare de chorar! Engole esse choro! Não tem necessidade de você chorar por isso! Fecha essa matraca, homem não chora! Fique quieta, para de ser escandalosa!”, dentre outros exemplos de verbalizações punitivas que podem ser emitidas com a premissa de reduzir o comportamento de choro da criança.

Agora, eu pergunto a você que está lendo este texto: que repertório ou quais repertórios estão sendo “ensinados” para esta criança? Uma resposta sucinta é que comportamentos de fuga e evitação dos eventos encobertos serão selecionados no repertório da criança. Não obstante, a pessoa que interage com a criança nesta situação não prove à criança modelos de comunicação efetiva e assertiva para que possa comunicar seu/s sentimento/s diante da negação do pedido. Ainda, outra variável que pode ser identificada neste exemplo é um modelo de invalidação emocional, onde o adulto desconsidera, negligencia e invalida a emoção que a criança está sentindo, assim como, não provê a ela formas ou modelos mais assertivos de comunicação e expressividade emocional. Em decorrência da interação destes fatores é possível que a criança aprenda que a forma como ela está expressando seus sentimentos é errada, desnecessária e inapropriada. Mediante isso, a fim de que não entre mais em contato com abordagens aversivas, a criança passa a evitar expressar suas emoções ou demais eventos encobertos (Harris, 2011, Dixon & Paliliunas, 2018)

Agora imagine esta mesma situação, na qual a criança chora, pois não teve acesso ao brinquedo naquele momento e que diante do comportamento da criança o adulto se aproxima dela e emite a seguinte sentença: “Eu sei que você gostaria de brincar com este brinquedo e que por não poder fazer isso você tenha ficado triste. É compreensível que você tenha esse sentimento, não é um problema chorar, mas no momento nós não podemos ter esse brinquedo. Então vamos fazer o seguinte primeiro nós terminamos de fazer a tarefa depois você pode brincar com o brinquedo”.

Nesta situação o adulto lida completamente diferente com o comportamento de choro da criança. O adulto primeiramente ajuda a criança a nomear seu estado emocional, valida a emoção que a criança está sentindo, não a julgando nem a repreendendo por chorar e expressar sua emoção desta forma. Além disso, o adulto clarifica para a criança o gatilho para seu comportamento de choro. Por fim, o adulto organiza, por meio do contrato verbal, contingências para que a criança tolere o atraso no acesso ao item reforçador e permaneça engajada na rotina, pois isso será valoroso para a mesma e possibilitará que ela tenha acesso ao item que gostaria.

Ensinar Aceitação dos eventos encobertos para crianças possibilita que estas possam entrar em contato com os mesmos, sem julgá-los ou sem serem reativas a expressão destes. Desenvolver o repertório de Aceitação em crianças é ensiná-las a validar, a respeitarem seus estados emocionais e a serem empáticas com os sentimentos e emoções das demais pessoas. Além disso, é uma possibilidade de ensinar a criança a identificar, nomear seus estados emocionais e envolver-se em estratégias de regulação emocional sem criticá-los ou tentar escapar deles, assim como, sem se autocriticar ou se culpar por estar se sentindo de determinada forma (Harris, 2011, Dixon & Paliliunas, 2018).

Ensinar Habilidades de Aceitação a crianças além de possibilitar todos estes benefícios é, também, uma forma de prevenir e diminuir a incidência do desenvolvimento de quadros de transtornos mentais, que acarretam sofrimento emocional e têm impacto considerável no seu funcionamento e participação da vida em comunidade, quando estas se tornarem adolescentes.

Por fim, o desenvolvimento do repertório de Aceitação em crianças viabilizará que essas se conectem com o momento presente e apresentem comportamentos em direção aos seus valores, daquilo que lhes é importante. A criança poderá aprender a tolerar sentir, pensar e experienciar eventos encobertos avaliados como agradáveis ou desagradáveis, sem estagnar seu desenvolvimento socioemocional, bem como, a tolerar esperar para ter acesso a contingências reforçadoras atrasadas e que tenham maior valor reforçador do que as consequências imediatas (Dixon & Paliliunas, 2018).

O desenvolvimento da aceitação depende do entendimento de que gastar tempo lutando ou resistindo a pensamentos e sentimentos impedirá o avanço da vida. Além disso, é importante interagir psicologicamente com as maiores recompensas posteriores aqui e agora, às vezes (Dixon & Paliliunas, 2018, pp. 32).

Referências

Dixon, M.R., Paliliunas, D. (2018). AIM: a behavior analytic curriculum for social-emotional development in children. LLC: Shawnee scientific press;

Harris, R. (2011). Liberte-se: evitando as armadilhas da procura da felicidade. Rio de Janeiro: Agir;

Saban, M.T. (2015). O que é terapia de aceitação e compromisso?. In: Lucena-Santos, P., Pinto-Gouveia, J., Oliveira, M.S. (2015). Terapias comportamentais de terceira geração: guia para profissionais. Novo Hamburgo: Sinopsys, pp. 179-216.

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Lucas Polezi do Couto
Psicólogo CRP 16/6198. Psicólogo Clínico, realiza atendimentos de crianças, adolescentes e adultos. Atualmente compõe a equipe da Casulo Comportamento e Saúde (Linhares-ES), clínica de Psicologia especializada no tratamento de crianças diagnosticadas com Transtorno do Espectro do Autismo (TEA) e Transtornos relacionados, como Consultor Comportamental. Apaixonado por Terapias Comportamentais Contextuais, em especial Terapia de Aceitação e Compromisso (ACT); Terapia Comportamental Dialética (DBT) e Terapia Focada na Compaixão (FCT).
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