Série: Cuidando do Cuidador – Contribuições Contextuais

Contribuições da FAP – Expandindo o modelo CCA

Olá! Seja bem-vindo!

No texto Considerações sobre o Amor próprio nas relações de cuidado – Contribuições do modelo CCA (parte I), discutimos como é fácil, na agitação do dia-a-dia, nos perdermos de nós mesmos e abdicarmos do nosso autocuidado, especialmente quando estamos exercendo algum papel de cuidador, seja na nossa vida pessoal, seja na nossa vida profissional. Além disso, apresentamos alguns conceitos do Modelo CCA (Consciência, Coragem e Amor), do inglês ACL Model, proposto pela Psicoterapia Analítica Funcional – FAP, relacionados ao autocuidado, em especial o AMOR PRÓPRIO (ler mais aqui).  

Aqui, no Considerações sobre o Amor próprio nas relações de cuidado – Contribuições do Modelo CCA (Parte II), daremos continuidade a abordagem do tema apresentando mais reflexões e algumas sugestões de exercícios de autocuidado baseadas na proposta do Modelo CCA.

Alguns autores da FAP propõem vários exercícios que podem nos ajudar a exercitar Consciência, Coragem, Amor e Amor Próprio nas relações de cuidado (cuidando dos outros e de si mesmo).

Vamos listar alguns deles aqui.

A sugestão é que você conheça cada um deles e sinta como cada proposta te afeta. Note o que você sente, que pensamentos surgem, que lembranças são evocadas e exercite a aceitação e a validação desses conteúdos que surgirem.

Tente não praticá-los por impulso. Avalie cuidadosamente quais dessas práticas de auto observação, reflexão e autocuidado são coerentes com as suas necessidades. Procure reservar um tempo de qualidade e um local seguro para se dedicar aos exercícios que fizerem sentido para você.

Se sentir necessidade, peça ajuda de alguém da sua confiança e, lembre-se de que esses exercícios, embora possam fazer parte dela em algum momento, não substituem a sua psicoterapia pessoal! Eles são apenas sugestões de práticas de autocuidado que podem ser úteis, especialmente, quando estamos exercendo a função de cuidadores (de clientes, pacientes, familiares, amigos, etc.).

1. Exercício de Auto-observação e reflexão:

Reserve um momento para contemplar a si mesmo.

Observe suas características. Apenas as observe. Evite se comparar e/ou julgar os julgamentos que surgirem. Tente exercitar sua curiosidade agora.

A partir de sua observação, o que você notou que gosta sobre si mesmo?

De que características suas você se orgulha e consegue tirar mais proveito?

Como essas características impactam suas relações de modo geral?

Agora, respire fundo e volte a se observar.

Que outras características você percebe? Há alguma da qual você se envergonha ou não gosta? Todos nós temos nossas dificuldades e limitações, tente apenas descrever as características, o motivo pelo qual você não gosta da referida característica e o impacto que elas têm em suas relações.

Lembrete importante:

Evite adicionar a sua descrição sentenças auto depreciativas. Lembre-se, estamos exercitando nosso autocuidado, nosso foco aqui é examinar e elencar características suas que sinalizam alguma necessidade de cuidado, não de repreensão, está bem?

Na sequência, tente resgatar, em sua história de vida, que experiências podem ter contribuído para a constituição do seu repertório atual de características, as positivas e as negativas. Que experiências marcaram sua trajetória e ajudaram a constituir suas características ao cuidar e ao ser cuidado?

2. Exercício de Feedback:

Use um tempinho agora para pensar em alguém de sua confiança, alguém com quem você já tenha tido experiências diversas, em contextos também diversos. Exercite sua coragem e pergunte a essa pessoa sobre as suas qualidades e defeitos e sobre como você é ao cuidar e ao ser cuidado.

Como foi para você receber este feedback? As respostas bateram com as suas expectativas? Algo te surpreendeu? O que você pode levar de construtivo desse feedback?

3. Exercício de auto-observação em CCA:

Após refletir sobre suas características positivas e negativas, sobre seu repertório de cuidar e ser cuidado, e sobre as experiências de sua vida que possam ter contribuído para a construção desse repertório, eu te convido agora a, com o auxílio do modelo CCA (ver mais aqui, aqui e aqui), refletir também sobre as seguintes questões:

Autoconsciência: O quanto você está consciente de seus sentimentos e necessidades em interações íntimas?

Autoconsciência: O quanto você está consciente de seus sentimentos e necessidades em interações íntimas?

Consciência do outro: O quão consciente você é do outro? Você percebe o que eles sentem ou talvez precisem?

Coragem – Exposição emocional: o quanto você consegue mostrar suas emoções em interações íntimas?

Coragem – Exposição de ideias, sentimentos, opiniões, valores: O quanto você consegue dividir o que você está autenticamente sentindo e pensando?

Coragem – Pedir: Como você é ao pedir pelo o que você precisa? Você faz perguntas? Sinaliza desconfortos/preferencias/desejos? Pede por mudanças?

Amor – Compreensão: Você expressa empatia/compreensão e validação quando os outros estão se expondo?

Amor – Dar: Como você é ao prover segurança e aceitação?

Amor – Receber: Como você é ao aceitar tentativas dos outros de serem gentis com você?

Você percebe se há algo que você esteja evitando na sua vida, especialmente em situações em que você está no papel de cuidador?

4. Resgate de valores e formulação da Missão de vida:

A FAP acredita que as pessoas atingem um alto grau de realização quando estão em contato com a paixão, o talento ou senso de propósito que as põe à disposição para ajudar a melhorar o mundo. Quando estamos em contato com nossos valores e com os princípios que ancoram nossa vida – a vida que queremos ter, a pessoa que queremos ser, o que queremos alcançar, como queremos aproveitar nosso tempo e o legado que queremos deixar -, temos mais condições de nos encaminharmos nessas direções.

A formulação de missão de vida, baseada nesses valores, podem nos servir de bússola, fornecendo dicas do que realmente importa para nós e nos ajudando a nos reorientar diante dos desafios e das incertezas que encontraremos ao longo da vida.

Tire um tempo agora para resgatar: O que você considera de mais valioso na vida? Em que princípios suas ações se baseiam?

Esta pode ser uma atividade extremamente desafiadora e, ao mesmo tempo, extremamente importante para construir uma vida significativa.

Em Tsai, M; Kohlenberg, R. J.; Kanter, J. Kohlenberg, W.; B.; Follette, W.; Callaghan, G. M. (2011, p.258), você pode encontrar uma lista de Valores para a Realização – saúde, espiritualidade, sexualidade, consciência emocional, consciência social, autenticidade, dentre outros –, que podem te ajudar neste exercício de resgate e validação dos seus próprios valores, daquilo que você mais valoriza na vida.

Depois de refletir, resgatar e validar esses valores formule sua missão de vida.

As declarações de missão são consideradas como plantas ou rascunhos que podem ser revisados, enquanto nos modificamos ou crescemos, mas permanecem inspiradoras e poderosas através de nossas interações (Tsai et. al., 2011). Pode ser em texto corrido ou em forma de tópicos, música, poesia, utilize o formato que mais te agradar para contemplar o que você considera sua melhor versão – a pessoa que você almeja ser para você mesmo e para os outros.

Na página 261 de Tsai et. al. (2011) são oferecidos vários modelos de missão nos quais você pode se inspirar para fazer a sua. A seguir vamos deixar algumas perguntas que podem te orientar para a construção da sua missão de vida, sua bússola, uma ferramenta para você revisitar, de tempos em tempos, e que te ajudará a estar sempre em contato com o que realmente é valioso pra você na sua relação consigo mesmo e com o mundo:

Por qual lema você busca viver?

O que estimula você no mundo?

O que você faria se fosse mais corajoso(a) ou se tivesse mais recursos, ou ainda, se acreditasse que fosse possível?

Quais são as coisas que trazem a você grande felicidade?

Descreva cinco coisas pelas quais você deseja ser lembrado(a).

(Ver exemplos em Tsai et. al. 2011, p. 260).

Lembre-se de considerar-se nos papeis de quem cuida e de quem recebe cuidados.

5. Exercício da prática diária (refere-se ao tópico III da definição de AMOR PRÓPRIO – Ver Parte I Link):

Enquanto algumas pessoas usam a prática da meditação diária para aumentar a consciência, outras acham difícil incorporar tal atividade no dia-a-dia por várias razões, incluindo a falta de tempo ou predisposição.

O que Tsai et. al. (2011) defendem é uma prática diária, não necessariamente de meditação, que possa elevar o seu compromisso com os seus valores (Ver exemplos em Tsai et al., 2011, pág 258) e te ajudar a exercitar altruísmo, responsabilidade universal, coração aberto e missão pessoal.

Busque uma prática para engajar-se no dia-a-dia que o afaste das exigências de uma vida agitada e confusa e o aproxime de sua voz interior, exercite sua criatividade e traga à tona o seu melhor e mais sábio EU  (Tsai et. al., 2011).

São alguns exemplos de atividades diárias de reconexão e autocuidado: escrever um diário, ler livros motivadores, criar arte, fazer uma oração, tomar um banho de banheira, sair para ver a natureza, trabalhar no jardim, fazer uma caminhada, fazer trabalho voluntário, exercitar-se, ouvir ou criar músicas, fazer amor, cozinhar comidas saudáveis, deixar de comer uma refeição, fotografar ou filmar momentos inesquecíveis e/ou relacionar-se com outras pessoas.

Enquanto cuidadores, quanto mais forte e diversificado for nosso repertório de autocuidado, maior será nossa capacidade de cuidar.

Para continuar se desenvolvendo é essencial engajar-se em uma prática do dia-a-dia que nos abra para o que é realmente importante (Tsai et. al., 2011).

Reserve um tempo para você, considere as opções de exercícios, avalie qual pode ter mais a ver com você e com suas necessidades de autocuidado e coloque em prática.

Aproveite o espaço abaixo para comentários e compartilhe conosco sua experiência ao realizar os exercícios, suas principais dificuldades no manejo de seu autocuidado e que estratégias funcionam melhor para você. Juntos podemos ampliar e fortalecer os repertórios de autocuidado uns dos outros.

Participe!

Confira também os textos da Série Cuidando do cuidador – Contribuições contextuais.

Referências:

Holman, G., Kanter, J. W., Tsai, M., & Kohlenberg, J. R. (2017). Functional analytic psychotherapy made simple. Oakland: New Harbringer

Tsai, M; Kohlenberg, R. J.; Kanter, J. Kohlenberg, W.; B.; Follette, W.; Callaghan, G. M. (2011). Um guia para a Psicoterapia analítica funcional (FAP): consciência, coragem, amor e behaviorismo. Santo André: ESETec.

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Psicóloga pelo Instituto de Educação Superior de Brasília (IESB). Especialista em Análise Comportamental Clínica pelo Instituto Brasiliense de Análise do Comportamento (IBAC). Psicoterapeuta de adolescentes e adultos. Interessada em propostas terapêuticas contextuais (individuais e em grupos). Co-Líder no projeto Viva com consciência, coragem e amor (do inglês: Live with Awareness, Courage and Love) em Brasília. Dedica sua trajetória pessoal e profissional a aprender e ensinar amor, alimentando, dia após dia, a esperança em um futuro valioso, buscando promover cura em si mesma e nos outros.
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