Como a ACT pode ajudar na prevenção do coronavírus?

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Como a ACT pode ajudar na prevenção do coronavírus?

Talvez essa chamada desperte curiosidade pois existe, a meu ver, uma regra de que como profissionais da saúde tratamos apenas de questões mentais, saúde mental ou “transtornos” mentais. Não necessariamente, pois um problema de saúde mental tende a levar a um problema de saúde física, e vice-versa (Morey et al., 2015; Segerstrom & Miller, 2004). O nível de dificuldade envolvida em realizar mudanças comportamentais saudáveis – como parar de fumar ou perder peso – é maior do que o nível de dificuldade em modelar novos comportamentos para superar a depressão, ansiedade, TEPT ou comportamentos adictos/autolesivos (Strosahl, Robinson & Gustavsson, 2015). O Treinamento de Aceitação e Compromisso (ACT) têm se mostrado como uma intervenção eficaz para lidar com questões relacionadas a estilo de vida, práticas culturais saudáveis e saúde pública (Bazley & Pakenham, 2019; Biglan & Embry, 2013; Dereix-Calonge et al., 2019; Gloster, Meyer & Lieb, 2017; Sandoz, Kellum & Wilson, 2017; White et al., 2017).

Estamos em um momento de pandemia por conta do SARS-CoV-2, o coronavírus, e a doença causada por ele, a COVID-19 (Organização Mundial da Saúde, 2020). O coronavírus é uma família de vírus que causa infecção respiratória (Organização Mundial da Saúde, 1992). Atualmente não dispomos de uma vacina para o vírus, portanto o melhor a ser feito é adotar as medidas de prevenção (Ministério da Saúde, 2020).

Orientações e medidas de prevenção são regras, e o seguimento de regras só se dá caso elementos da regra fizeram parte do repertório relacional de um indivíduo (Hayes et al., 2001; Hayes, 2012). Particularmente tenho visto muitos comportamentos contrários aos sugeridos pelos órgãos de saúde e me peguei pensando: “por que ninguém segue?” e também “como aumentar a probabilidade de as pessoas seguirem tais regras?”.

Você, ou seus entes queridos, podem ou não contrair o coronavírus nos próximos dias. É realmente algo que, apesar das medidas preventivas, não é 100% garantido que não acontecerá com você ou comigo mesmo que aqui escrevo. Isso pode levar à ansiedade, ao medo e às tentativas de controlá-lo e a necessidade de lidar, seguindo a agenda de eliminação, com esses pensamentos e medos. Algo perfeitamente normal e esperado, mas que pode separar você das coisas mais valiosas da sua vida ou por vezes potencializar danos a outras pessoas. Pensando neste temor relacionado à pandemia, venho aqui com algumas sugestões. Estas são as mesmas medidas sugeridas pelos órgãos, portanto minha intenção não é a de sugerir algo sem embasamento, mas sim com um olhar aumentado pelos processos de ACT:

ESQUIVA EXPERIENCIAL x ACEITAÇÃO
Note suas reações sobre a progressão do contágio do vírus. Você tenta não pensar ou não sentir esse medo relacionado ao contágio e, nesta tentativa de evitá-lo, acaba deixando de realizar ações importantes? Ou será que isso acaba te levando a buscar continuamente notícias sobre a evolução e prevenção do vírus? Você está estocando comida ou produtos de emergência?

Você teria disponibilidade de se abrir pra esse temor? Você teria disponibilidade para lidar com a sensação de não abraçar uma pessoa querida, de se colocar mais distante? Você abriria espaço para a sensação causada pela possibilidade de contrair o vírus?


FUSÃO x DESFUSÃO COGNITIVA
Você nota sua mente “trabalhando demais” ultimamente em relação ao contágio? Você sofre pensando que talvez possa morrer e que te impeça de fazer o que te importa? Se não com você, então com seus entes queridos? Ou, do contrário, você se percebe encarando a situação como “nada demais”? Como exagero? Pare por um momento e observe seus pensamentos. Imagine sua mente como um rádio ligado que transmite estações e notícias, às vezes agradáveis e outras desagradáveis. Pergunte a si mesmo, que estação minha mente está transmitindo agora? Atribua um nome, por exemplo “Estação Preocupação”, “Estação Pânico”, “Estação Xenofobia” etc. Depois de colocar esse nome, pergunte a si mesmo(a): O que ganho se não comprar o que esta estação diz, se a desobedecer, mesmo que ela continue com a publicidade repetidamente?
Como seria se você apenas notasse estes pensamentos e agisse de acordo com seus valores de proteção e autocuidado?

EU-CONCEITUAL x EU-COMO-OBSERVADOR (EU-CONTEXTUAL)
O problema do coronavírus é que ele não é visível a olho nu. Isso pode gerar a um fortalecimento do eu-conceitual na coordenação do “eu” com elementos enrijecedores: “eu estou bem”, “eu estou seguro(a)”, “eu estou perdido(a)”, “eu não me importo” etc.
Se você puder neste momento, pegue um copo e encha-o com água. Observe como o copo permanece o mesmo, apenas o que ele contém mudou. Esvazie o copo e encha-o com outro líquido (por exemplo, café ou refrigerante). Faça o mesmo e veja como o copo não se altera; o que muda é seu conteúdo. Agora imagine que você é o copo e sua mente o enche de conteúdo dizendo que você é assim ou assim. Observe isso e perceba que você não é o conteúdo de sua mente e veja se você consegue notar o conteúdo da sua mente te dizendo que você está seguro(a) ou em apuros e prossiga para tomar medidas eficazes carregando esse conteúdo com você.

DISTANCIAMENTO x CONTATO COM O MOMENTO PRESENTE
Você nota medo em sair da rua nos próximos dias e se contagiar? Você anda checando excessivamente seu próprio corpo tentando identificar sintomas? Você tem notado quantas vezes tende a tocar seu rosto durante o dia?
Se dê um momento enquanto lê isso e respire, tomando consciência da sua própria respiração e de seu corpo. Note seu peito expandindo enquanto você inspira e contraindo quanto você expira. Perceba impulsos de tocar o próprio rosto – seu rosto coça? Sua mão parece inquieta? Respire. Abra espaço para essas sensações desconfortáveis enquanto não há a possibilidade de você lavar as mãos ou aplicar álcool gel.

DISTANCIAMENTO DOS VALORES X CONTATO COM OS VALORES
O que importa para você nisso tudo? Se não você, quem é importante para você nisso tudo? Você estaria disposto a agir de acordo com sua longevidade e bem-estar? Se não a sua, a daqueles que lhe são importantes? Se não a daqueles que lhe são importantes, da nossa humanidade comum? Ou da diversidade?


INAÇÃO/IMPULSIVIDADE x AÇÕES COM COMPROMISSO
O que é mais importante de fazer nesse momento: focar apenas em não se infectar e não ficar doente e, assim, parar de fazer coisas como ler, ficar com sua família, conversar com um(a) amigo(a)? Você consegue tomar medidas preventivas como evitar aglomerações e contato físico desnecessário? E, principalmente, lavar as mãos mesmo que tenha pensamentos de que “não precisa”?
Você consegue neste momento evitar atitudes xenofóbicas e racistas por medo de se infectar?

Você consegue fazer tudo isso e continuar fazendo aquilo que lhe é importante como seu lazer, descanso, prazer, momentos em família e autocuidado?

E se eu contraí o vírus e desenvolvi COVID-19?

Tudo que foi discutido acima, da perspectiva dos processos centrais da ACT, também se aplicará a você. A diferença se dará no processo vivido: o de uma pessoa enferma. Ao desenvolver sintomas busque seu hospital de referência mais próximo e lembre-se de seguir as recomendações dos órgãos sanitários sobre contaminação, bem como as orientações profissionais, porém sob uma perspectiva de acordo com seus valores, onde o seu isolamento ou período de quarentena podem ser respostas de compromisso alinhada com a a manutenção de sua saúde e a proteção de pessoas significativas em sua vida.

Espero ter sido útil.

REFERÊNCIAS

Bazley R., & Pakenham, K. (2019) Suicide prevention training for Christian faith-based organizations using Acceptance and Commitment Therapy: a pilot controlled trial of The HOLLY Program. Journal of Contextual Behavioral Science (11). https://doi.org/10.1016/j.jcbs.2018.11.002

Biglan, A., & Embry, D. (2013) A framework for intentional cultural change. Journal of Contextual Behavioral Science (3) https://doi.org/10.1016/j.jcbs.2013.06.001.

Dereix-Calonge, I., Ruiz, F., Sierra, M., Peña-Vargas, A., & Ramírez, E. (2019) Acceptance and commitment training focused on repetitive negative thinking for clinical psychology trainees: A randomized controlled trial. Journal of Contextual Behavioral Science (12) https://doi.org/10.1016/j.jcbs.2019.02.005.

Gloster, A., Meyer, A & Lieb, R. (2017) Psychological flexibility as a malleable public health target: Evidence from a representative sample. Journal of Contextual Behavioral Science (6)https://doi.org/10.1016/j.jcbs.2017.02.003.

Hayes, S. (2004) Rule-Governed Behavior: Cognition, Contingencies, and Instructional Control. Springer.

Hayes, S., Barnes-Holmes, D. & Roche, B. (2001) Relational Frame Theory: A Post-Skinnerian Account of Human Language and Cognition. Springer.

Ministério da Saúde (2020) Coronavírus. https://www.saude.gov.br/saude-de-a-z/coronavirus

Morey, J., Boggero, I.,Scott, A., & Segerstrom, S. (2015). Current Directions in Stress and Human Immune Function. Current Opinion in Psychology. 5. 10.1016/j.copsyc.2015.03.007.

Organização Mundial da Saúde (1993) CID-10 – Classificação Estatística Internacional de Doenças e Problemas Relacionados à Saúde (Volume 3). Edusp

Sandoz, E., Kellum, K & Wilson, K. (2017) Feasibility and preliminary effectiveness of acceptance and commitment training for academic success of at-risk college students from low income families. Journal of Contextual Behavioral Science (6) https://doi.org/10.1016/j.jcbs.2017.01.001.

Segerstrom, S & Miller, G. (2003). Psychological stress and the immune system: a meta-analytic study of 30 years of inquiry. Psychological Bulletin. 130.

Strosahl, K., Robinson, P., & Gustavsson, T. (2015) Inside this moment: A Clinician’s Guide to Using the Present Moment to Promote Radical Change in Acceptance and Commitment Therapy. New Harbinger.

White, R., Gregg, J., Batten, S., Hayes, L., & Kasujja, R. (2017) Contextual Behavioral Science and Global Mental Health: Synergies and opportunities. Journal of Contextual Behavioral Science (6) https://doi.org/10.1016/j.jcbs.2017.07.001.

World Health Organization (2020) Coronavirus disease (COVID-19) outbreak. https://www.who.int/emergencies/diseases/novel-coronavirus-2019

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Graduado em Psicologia pela Universidade Presbiteriana Mackenzie (2015), Qualificação Avançada em Clínica Analítico Comportamental pelo Centro Paradigma de Ciências e Tecnologia do Comportamento (2018) e Mestrando em Análise do Comportamento Aplicada pelo Centro Paradigma de Ciências e Tecnologia do Comportamento. Membro do grupo de pesquisa Teoria das Molduras Relacionais Aplicada à Clínica (RFTAC), do Paradigma. Membro da Association for Contextual Behavioral Science onde integra o Time Estratégico: Creating a culture of competency to support dissemination in ACBS. Atuou como membro da Diretoria da Associação Brasileira para a Ciência Comportamental Contextual (ACBS Brasil) para a gestão de 2018-2019. Recebeu o prêmio de Student Spotlight Award 2018 da Association for Contextual Behavioral Science. É Psicoterapeuta em consultório particular em São Paulo trabalhando com Terapia de Aceitação e Compromisso (ACT).

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Cleber

Sempre acho difícil compreender os conceitos da ACT, e da forma como expôs no texto facilitou muito a compreensão.