Não acaba aqui: Encerrando a Terapia de Aceitação e Compromisso

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Sunrise scene

Nada é para sempre. Pessoas vão e vem; amores se iniciam, mudam e, algumas vezes, acabam; amizades, com a passagem do tempo, se intensificam, se afrouxam e depois se estreitam (ou não). Enquanto houver o constructo chamado “tempo”, sempre há de se pensar que tudo que se inicia pode vir a mudar ou se encerrar. Acredito que o mesmo pode ser aplicado à Terapia de Aceitação e Compromisso.

A TERAPIA TEM DE ENCERRAR EM ALGUM MOMENTO

Cada indivíduo é complexo e tem seu próprio tempo e a duração da terapia pode variar de algo breve a um tratamento de longo prazo a depender da complexidade de cada um. O que prevê a permanência de clientes em terapia é sofrimento psicológico (Brown & Jones, 2005). Existe um equívoco na área de saúde mental sobre a terapia precisar ser longa para ser efetiva[1]; o raciocínio é de que os benefícios da terapia se acumulam ao longo do tempo, portanto quanto mais tempo em terapia, maiores os benefícios. Alguns estudos sugerem que uma terapia de duração breve pode ser bastante eficaz (Deacon & Abramowitz, 2006; Lock, Agras, Bryson, & Kraemer, 2005; Molenaar et al., 2011; Sijbrandij et al., 2007; Smyrnios & Kirkby, 1993). De breve ou longa duração, um dia a terapia terá de encerrar.

COMO SABER A HORA DE ENCERRAR?

Quando encarada como arte, uma boa terapia pode vir a ser acidental. Quando tratada como ciência, uma boa terapia pode ser replicada através de métodos eficazes. Portanto, terapeutas ACT dispõem de conhecimentos analítico-funcionais básicos e devem realizar análises e avaliações funcionais continuamente com a finalidade de verificar o andamento e os resultados da terapia. Vale lembrar que, quando se trabalha com ACT, durante o contrato de terapia, cliente e terapeuta definem objetivos a serem trabalhados. Em termos simples: a melhor medida de flexibilidade psicológica está na expansão de repertórios comportamentais em coordenação com uma vida valorosa de forma que buscar essa vida independe da ausência ou permanência de sintomas (Bach & Moran, 2008). É possível iniciar um processo terapêutico em ACT com queixas de ansiedade e finalizá-lo mais ansioso do que entrou – o foco não é na redução de sintomas, mas na produção de comportamentos alinhados com seus valores.

COMO ENCERRAR?

Assim como não existe um jeito único de fazer ACT, não existe um “jeito certo” de finalizá-la. Não existe um jeito único para realizar o encerramento pois depende de como o percurso [da terapia] se deu, o que inclui a relação terapêutica e a avaliação funcional da/do cliente. Em sessões de finalização, é comum, ainda que acidentalmente, que o/a terapeuta passe de maneira sutil a ideia de que o cliente está de alguma forma consertado. Geralmente essa mensagem se relaciona à constatação de que a cliente pôde construir (e permanece construindo) um repertório comportamental alinhado com seus valores. Pensando em termos de RFT, porém, a relação que pode se derivar disso é de que ela [cliente] não terá mais problemas, o que poderia levar a uma negligência de padrões comportamentais [2]atuais que podem gerar problemas futuros. (Westrup, 2014). É interessante em pensar na sessão de finalização como uma sessão que faz jus ao trabalho realizado- tanto do cliente quanto do terapeuta que se engajaram neste tipo de trabalho capaz de produzir mudanças profundas na vida. A esquiva experiencial pode aparecer na sessão de encerramento de uma maneira disfarçada – não é tão incomum perceber que você (me incluo aqui) evitou entrar em contato com a emoção poderosa que ocorre ao final sem nem perceber. É difícil se abrir ao fato de que aquelas duas pessoas que se dispuseram a serem corajosas e abertas umas com as outras irão se despedir.

Imagine que você queria muito aprender a andar de bicicleta, mas tinha muito medo em fazê-lo – e a sua estava com alguns pedaços faltando. Nesse meio tempo, você aprendeu a adicionar partes importantes a ela – talvez algumas rodinhas extras; você aprendeu a subir nela e em algum momento a pedalar e se acostumar com o desconforto dessa aprendizagem, que naturalmente envolve cair, arranhões e pancadas. E juntos conseguimos te ajudar a aprender a pedalar. Mas esse trajeto é seu, não meu. Pode ser desafiador, mas para manter o equilíbrio você precisa continuar se movimentando.

A “ESTRUTURA”

De modo geral, alguns pontos são interessantes de serem incluídos em uma sessão de finalização:

  1. Relação terapêutica: A ACT é uma terapia densa e complexa e, ao mesmo tempo, nos encoraja a trazer nossa humanidade para a terapia de maneira autêntica e genuína – de forma a modelar essa autenticidade e humanidade nas pessoas atendidas por nós.
  2. Revisão da jornada (processos centrais trabalhados, progressões clínicas e pontos de virada): no dia-a-dia, sessão a sessão, é difícil verificar grandes mudanças (funcionalmente falando) – e provavelmente os clientes sentem algo nesse sentido; trazer pontos importantes de mudança ao longo da terapia salienta o quanto o cliente se esforçou para produzir mudanças bem como pode mostrar atenção e compaixão do terapeuta para com a vida do cliente. É como dizer: “eu estou com você.”
  3. Próximos passos: os desafios da vida não acabam ao final de uma terapia e nós sabemos que nossos clientes irão enfrentar outras dificuldades e grandes desafios (assim como nós!). A vida não ficará mais fácil nem menos sofrida – a medida é a de o quanto é capaz de se movimentar de acordo com seus valores a despeito do sofrimento oriundo dos desafios que surgirão:
  4. Encerramento experiencial: finalizar o trabalho com um exercício experiencial é uma ação poderosa – é da natureza do trabalho, e estranho seria se na última sessão a qualidade experiencial, central à ACT (Hayes, Strosahl & Wilson, 1999), desaparecesse. Permita-se entrar em total contato com o que é experienciado nesse momento poderoso entre duas pessoas.

ACT é um processo terapêutico bastante interpessoal (Wilson & DuFrene, 2009) onde o terapeuta se dispõe a sair da posição de autoridade enquanto terapeuta e se posiciona frente à sua cliente como um ser humano íntegro e consciente de suas vulnerabilidades. Embora tenha diversas técnicas e procedimentos, a essência da ACT se dá na relação terapeuta-cliente como veículo de mudança (Walser, 2019), e é de se esperar que, no progresso da jornada, terapeuta e cliente passem por momentos intensos. O terapeuta, sabendo que os desafios da vida não acabam quando se dá alta, busca auxiliar sua cliente a orientá-la a possíveis desafios que a vida trará – nenhuma terapia é suficientemente boa para evitar problemas maiores da vida e sofrimentos advindos dela (Guerin, 2019). Sendo um processo altamente experiencial, a última sessão não seria diferente. Tanto exercícios experienciais mais formais como boas doses de autorrevelação cabem aqui – eu particularmente me permito chorar se sentir que há espaço para tal. A ideia geral é de que os componentes da ACT não mudam, seja a primeira, quinta ou última sessão; a única diferença é a de que o cliente que passou por este processo dispõe agora de mais ferramentas para lidar com seu sofrimento a favor de uma vida alinhada com seus valores. Aproveite esse momento para honrar a si mesma e a seu cliente pela disposição a ter a experiência íntima assustadora, emocionante, dolorosa e poderosa que chamamos de terapia.

A jornada continua, dessa vez cada um na sua própria estrada.

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Caso tenha achado este texto útil ou interessante (ou não), por favor, disponha de alguns momentos para tecer alguns comentários. Eu agradeceria bastante. Obrigado!

REFERÊNCIAS

Bach, P. A., & Moran, D. J. (2008). ACT in practice: Case conceptualization in acceptance and commitment therapy. Oakland, CA, US: New Harbinger Publications.

Brown, G., & Jones, E. (2005). Implementation of a feedback system in a managed care environment: What are patients teaching us? Journal of Clinical Psychology, 61, 187-198.

Deacon, B., & Abramowitz, J. (2006). A pilot study of two-day cognitive-behavioral therapy for panic disorder. Behaviour Research and Therapy, 44, 807-817.

Guerin, B. (2019). What do therapists and clients talk about when they cannot explain behaviours? How Carl Jung avoided analysing a client’s environments by inventing theories. Perspectivas Em Análise Do Comportamento, 10(1), 076-097.

Hayes, S., Strosahl, K., & Wilson, K. (1999) Acceptance and Commitment Therapy: an experiential approach to behavior change. Estados Unidos: The Guilford Press.

Lock, J., Agras, S., Bryson, S., & Kraemer, H. (2005).A comparison of short- and long-term family therapy for anorexia nervosa. Journal of the Academy of Child and Adolescent Psychiatry, 44, 632-639

Molenaar, P. J., Boom, Y., Peen, J., Schoevers, R. A., Van, R., & Dekker, J. J. (2011). Is there a dose-effect relationship between the number of psychotherapy sessions and improvement of social functioning? British Journal of Clinical Psychology, 50, 268-282.

Sijbrandij, M., Olff, M., Reistsma, J., Carlier, I., de Vries, M., & Gersons, B. (2007). Treatment of acute posttraumatic stress disorder with brief cognitive-behavioral therapy: A randomized controlled trial. American Journal of Psychiatry, 164, 82-90.

Smyrnios, K., & Kirkby, R. (1993). Long-term comparison of brief versus unlimited psychodynamic treatment of children and their parents. Journal of Consulting and Clinical Psychology, 61, 1020-1027.

Walser, R. (2019) The Heart of ACT: Developing a Flexible, Process-Based, and Client-Centered Practice Using Acceptance and Commitment Therapy. Oakland, CA: New Harbinger.

Westrup, D. (2014) Advanced Acceptance and Commitment Therapy: The Experienced Practitioner’s Guide to Optimizing Delivery. Oakland, CA: New Harbinger

Wilson, K. G., & DuFrene, T. (2009). Mindfulness for Two: An Acceptance and Commitment Therapy Approach to Mindfulness in Psychotherapy. Oakland, CA: New Harbinger.


[1] O que não quer dizer que uma terapia de longa duração não é eficaz.

[2] Incluso aqui pensamentos, sentimentos, sensações e emoções.

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Graduado em Psicologia pela Universidade Presbiteriana Mackenzie (2015) e Especialista em Clínica Analítico Comportamental pelo Centro Paradigma de Ciências e Tecnologia do Comportamento (2018). Pesquisador do grupo de pesquisa Teoria das Molduras Relacionais Aplicada à Clínica (RFTAC), também do Paradigma. É membro da Association for Contextual Behavioral Science onde é membro do Time Estratégico: Creating a culture of competency to support dissemination in ACBS. Atuou como membro da Diretoria da Associação Brasileira para a Ciência Comportamental Contextual (ACBS Brasil) no cargo de Representante dos Estudantes do para a gestão de 2018-2019. Participa continuamente de treinamentos em Terapia de Aceitação e Compromisso (ACT) e Teoria das Molduras Relacionais (RFT), tendo realizado treinamentos diretamente com seus desenvolvedores. Recebeu o prêmio de Student Spotlight Award 2018 da Association for Contextual Behavioral Science. Atua em consultório particular em São Paulo com Terapia de Aceitação e Compromisso (ACT).

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Texto perfeito, além de emocionante!