O que seria esse tal de “Hexaflex”? Entendendo o conceito de Flexibilidade Psicológica em ACT.

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No meu último texto descrevi um resumo referente ao artigo publicado por Gould, Tarbox e Coyne em 2017. Nele, falo sobre o uso da Terapia de Aceitação e Compromisso (ACT – Acceptance Commitment Therapy) como procedimento para redução de estresse em pais e cuidadores de crianças com Transtorno do Espectro do Autismo (TEA). Por meio deste texto, consegui adentrar em um tema que sou apaixonado. No entanto, confesso que por vezes sou abarcado por um evento encoberto, que aqui nomearei de sentimento de insegurança, pois considero que falar sobre ACT é uma responsabilidade imensa. Entretanto, fazendo uso das premissas da ACT, acolherei esse sentimento e caminharei em direção ao que é importante para mim, isto é, estudar e escrever sobre a ciência que tanto amo. Posto isso, neste artigo me proponho a descrever sobre o Hexágono da Flexibilidade Psicológica (Hexaflex).

O Hexaflex, de acordo com Steve Hayes e colaboradores (2012), trata-se de um processo para avaliação das funções dos comportamentos que compõem o repertório comportamental apresentado pelo indivíduo (o que inclui, identificar as variáveis mantenedoras do comportamento) e de como o indivíduo se relaciona com o seu contexto (isto é, avaliar em quais ambientes os comportamentos apresentados pela pessoa ocorrem, assim como, quais benefícios a curto, a médio ou longo prazo estes estão gerando para o cliente). Não obstante, o Hexaflex pode ser entendido, também, como um recurso visual para organizar, sintetizar e clarificar o que está contribuindo para o sofrimento da pessoa (Wilson, Strosahl &Hayes, 2012).

Em ACT, o Hexaflex é percebido e utilizado como um modelo unificado para uma análise transdiagnóstica do sofrimento apresentado pelo cliente. Posto isso, o mesmo pode ser utilizado para qualquer quadro clínico, desde os que possuem uma classificação nosológica, até os que não possuem classificação em manuais de diagnósticos de transtornos mentais e, além de ser utilizado como uma ferramenta para que o terapeuta realize a análise do caso de seu cliente, o Hexaflex pode ser utilizado, também, como um modelo ou um guia de intervenção para o terapeuta. (Wilson, Strosahl &Hayes, 2012; Saban, 2015)

“[…] um modelo unificado é um conjunto de processos coerentes que se aplicam com precisão, escopo e profundidade a uma ampla gama de problemas clinicamente relevantes e a questões de funcionamento e adaptabilidade humanos.” (Traduzido de: Wilson; Strosahl &Hayes, 2012, p. 60)

O que seria (In)Flexibilidade Psicológica?

Em ACT o termo “Flexibilidade Psicológica” refere-se ao nível de funcionamento do ser humano e a compreensão sobre o mesmo. Flexibilidade Psicológica envolve, também, qualidade de vida e a forma como a pessoa lida com o seu sofrimento, assim como, de que forma a mesma age diante de eventos (públicos ou encobertos) avaliados como desagradáveis (Wilson, Strosahl &Hayes, 2012; Saban, 2015; Saban-Bernauer, 2018).

O quadro de Flexibilidade Psicológica envolve seis processos básicos e centrais, sendo que estes serão contextos para a produção de qualidade de vida do cliente, juntamente como das pessoas que lhe são importantes. Os seis processos que compõem o quando de Flexibilidade Psicológica em ACT envolvem processos como: Desfusão Cognitiva, Aceitação, Atenção Flexível ou contato com o momento presente, eu como (parte do) contexto (self como contexto), valores e ações comprometidas (Wilson, Strosahl &Hayes, 2012; Saban, 2015).

No entanto, quando a pessoa não apresenta tais habilidades ou apresenta algumas, mas não consegue transitar entre as demais, esta vivencia um quadro de Inflexibilidade Psicológica. A Inflexibilidade Psicológica, também, pode ser organizada em um formato hexagonal (imagem 1). Segundo Hayes, os elementos que configuram o processo e Inflexibilidade Psicológica são: 1) Atenção inflexível – isto é, uma atenção voltada para um evento passado ou para o planejamento de algo ou alguma realização; 2) Esquiva experiencial – o que consiste nos comportamentos, públicos ou privados, que a pessoa emite com o objetivo de atrasar, suspender ou evitar o contato com eventos avaliados como aversivos; 3) Fusão cognitiva – quando a pessoa fica sob controle dos seus eventos encobertos (pensamentos, sentimentos, lembranças, etc.); 4) Conceitualização da noção de “Self” (Self-conceitual); 5) Inércia, impulsividade ou perseveração nos comportamentos de fuga/esquiva e; 6) Valores pouco claros ou evitativos  (Wilson, Strosahl &Hayes, 2012; Saban, 2015).

Imagem 1 – Hexágono da Inflexibilidade Psicológica. Tradução e adaptação de Wilson; Strosahl &Hayes, 2012, p. 62.

Hexágono da Flexibilidade Psicológica ou Hexaflex.

Em oposição aos modelos de Inflexibilidade Psicológica, Hayes e seus colaboradores desenvolveram o Hexágono da Flexibilidade Psicológica. Trata-se de um diagrama (imagem 2) que organiza os seis processos que compõem a Habilidade de Flexibilidade Psicológica. Como descrito anteriormente, o Hexaflex é um modelo unificado que pode ser utilizado tanto para avaliação do sofrimento do cliente, bem como instrumento para organizar as intervenções que o terapeuta deverá realizar no decorrer dos atendimentos com o mesmo. A partir da sistematização e organização dos comportamentos problemáticos apresentados pelo cliente no Hexágono da Inflexibilidade Psicológica, o terapeuta irá identificar quais áreas do Hexaflex serão foco prioritário de intervenção, assim como quais os processos serão necessários para que tais habilidades sejam desenvolvidas e/ou aprimoradas (Wilson, Strosahl &Hayes, 2012; Saban, 2015; Dixon & Paliliunas, 2018; Saban-Bernauer, 2018).

Imagem 2 – Hexágono da Flexibilidade Psicológica. Tradução e adaptação de Wilson; Strosahl & Hayes, 2012, p. 67.

Não obstante, conforme o conteúdo exibido na imagem 2, observa-se que existem linhas traçadas (leia-se encontros) entre um vértice (leia-se habilidade ou processo) e outro que compõem o Hexaflex. Sendo assim, nota-se que as estratégias utilizadas pelo terapeuta, que tenham como objetivo principal intervir, especificamente, em um dos processos da Flexibilidade Psicológica, podem ter um efeito secundário, isto é, a intervenção em outras áreas do Hexaflex, mesmo que essa não tenha sido a pretensão do terapeuta. Acredito que este aspecto trata-se de um grande diferencial entre a ACT e algumas outras vertentes terapêuticas que não estão fundamentadas na ciência da Análise do Comportamento. Através desta organização é possível identificar, ainda, que as intervenções realizadas pelo terapeuta estão, totalmente, permeadas, do início ao fim, em uma leitura contextual funcional, pragmática, ideográfica e monista do comportamento humano. Não obstante, tal organização possibilita que o processo terapêutico seja fluido, flexível e que pode e deve ser ajustado ao nível de habilidade do cliente, assim como, ao quanto este está aberto ao processo de mudança, ao invés de um procedimento cristalizado, isto é, uma forma de intervenção que deve seguir, categoricamente, uma estrutura de intervenção (Saban, 2015; Saban-Bernauer, 2018).

As Seis Habilidades do Hexaflex

O Hexaflex pode ser dividido em três colunas sendo que a do meio é compartilhada entre as outras. No lado esquerdo estão agrupadas as habilidades de Aceitação e Desfusão. Este lado do Hexaflex é também conhecido como “Núcleo de Abertura, Atenção e Aceitação”, visto que as habilidades abarcadas neste lado são responsáveis por intervir na redução da interferência que o processo de literalidade da linguagem e dos pensamentos possui na vida do cliente (para revisão, ler Murta & Barbosa, 2014), assim como, ensinar a pessoa a ter um repertório comportamental mais adaptativo e flexível, ao invés de tentar controlar o seu sofrimento ou tentar escapar desse. A Habilidade de Aceitação envolve trabalhar com o cliente para que este perceba que o sofrimento é parte inerente da vida do ser humano e para que o mesmo perceba seus eventos encobertos como tais se apresentam; livre de críticas e julgamentos. A Habilidade de Desfusão é caracterizada pelo processo do cliente de desprender-se da literalidade e enxergar seus eventos encobertos não como verdade ou imutáveis, mas sim como comportamentos flexíveis que são evocados a partir das experiencias que o mesmo irá vivenciar e do seu histórico de aprendizagens. Posto isso, as estratégias que serão utilizadas para intervir neste Núcleo do Hexaflex buscarão, ainda, fazer com que o cliente entre em contato com seus eventos encobertos avaliados como desagradáveis(e.g. pensar, sentir e lembrar) sem necessariamente responder a eles com tentativas de esquiva (Wilson, Strosahl &Hayes, 2012; Dixon & Paliliunas, 2018; Saban-Bernauer, 2018).

No centro do Hexaflex estão as habilidades de Atenção Flexível, (ou contato com) Momento Presente e Eu como contexto (Self como contexto). Como o próprio nome diz, a Habilidade de Atenção Flexível com momento presente tem como premissa fazer com que o cliente desenvolva uma atenção livre de críticas e crivos de valores, e que esta esteja voltada para o momento presente, isto é, para as contingências que estão em vigor no momento ou contexto no qual o cliente está inserido. Não obstante, a Habilidade de Self como contexto envolve, também, um processo de consciência, continuado, ao contexto no qual o cliente está inserido, assim como, a competência do mesmo em diferenciar suas experiências no momento atual das vivências anteriores (Saban, 2015).

O lado direito do Hexaflex, sendo conhecido, também, como “Núcleo de Ativação Comportamental ou Comprometimento” é composto pelas habilidades de Valores & Ações Comprometidas. Enquanto o lado esquerdo enfatiza os processos de percepção livre de críticas e julgamentos, aceitação e desfusão, o lado direito enfatiza o desenvolvimento e aprimoramento dos processos de atenção e modificação de comportamentos. Este lado também prioriza o desenvolvimento de repertórios comportamentais mais flexíveis e adaptativos. Sendo assim, o terapeuta buscará identificar os Valores do cliente, a fim de identificar contingências que se configurem em motivadores para a modificação dos comportamentos problemáticos apresentados pelo mesmo. Valores aqui, incluem, também, estilos de vida ou pessoas que são importantes para o cliente. Decorrente da identificação ou clarificação dos Valores do cliente, o terapeuta irá auxiliá-lo a identificar ou criar contingências que lhe possibilitem vivenciar tais valores ou que lhe auxiliem a se aproximar deles, assim como, caminhar em sua direção. Este processo é nomeado como Ações Comprometidas(Wilson, Strosahl &Hayes, 2012; Saban, 2015; Saban-Bernauer, 2018).

Considerações Finais

O processo de Inflexibilidade Psicológica trata-se de uma série de comportamentos que a pessoa apresenta com o objetivo de controlar, fugir ou escapar de seus eventos encobertos. Percebe-se, diante do que foi descrito até aqui, que o terapeuta que busca ensinar ao seu cliente o desenvolvimento de um repertório de Flexibilidade Psicológica deverá estar atento a alguns processos básicos.

É de suma importância que o clínico primeiramente identifique o que impossibilita que o cliente vivencie o processo de Flexibilidade Psicológica ou que desenvolva tal habilidade. A partir desta identificação, o terapeuta poderá detectar que o cliente está vivenciando um quadro de Inflexibilidade Psicológica e que este está se configurando em um enorme e intenso sofrimento para o indivíduo.

Decorrente dessa identificação preliminar, o terapeuta irá planejar e organizar quais serão as estratégias de intervenção que serão utilizadas para que o cliente desenvolva um repertório comportamental mais flexível, adaptativo e que lhe produza melhor qualidade de vida.

Todos estes processos podem ser realizados por meio do Hexaflex. Através deste instrumento desenvolvido por Hayes e colaboradores (2012), o terapeuta poderá identificar os comportamentos que estão aumentando ou prolongando o sofrimento do cliente, assim como permitir que o mesmo desenvolva repertórios comportamentais para lidar de forma assertiva com seu sofrimento e caminhar em direção a uma vida valorizada. Posto isso, identifica-se que a premissa da ACT não é fazer com que o indivíduo se livre do sofrimento, mas sim que o mesmo aprenda repertórios mais adaptativos e flexíveis para lidar com suas aflições para caminhar na direção do que é importante para ele (Wilson, Strosahl &Hayes, 2012; Saban, 2015; Saban-Bernauer, 2018).

Referências

Barbosa, L.M., Murta, S.G. (2014). Terapia de aceitação e compromisso: história, fundamentos, modelo e evidências. Revista brasileira de terapia comportamental e cognitiva. São Paulo, v. 16, n. 3, pp. 34-49. Disponível em: http://www.usp.br/rbtcc/index.php/RBTCC/article/view/711. Acesso: 22 Ago. 2019;

Dixon, M.R., Paliliunas, D. (2018). AIM: a behavior analytic curriculum for social-emotional development in children. LLC: Shawnee scientific press, pp. 26-38;

Saban, M. T. (2015). Introdução a terapia de aceitação e compromisso. Belo Horizonte, Ed. Artesã;

Saban, M. T. (2018). Terapia de aceitação e compromisso. Em: Zanelatto, N.A., Laranjeira, R. (Orgs.). (2018). O tratamento da dependência química e as terapias cognitivo-comportamentais: um guia para terapeutas. 2 ed. Porto Alegre: Artmed, pp. 133-157;

Wilson, K.G., Strosahl, K.D., Hayes, S.C. (2012). Acceptance and commitment therapy: the process and practice of mindful change. 2 ed. New York: The guilford press, pp. 60-66.

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