A habilidade de nomeação: uma revisão

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A primeira descrição de autismo foi feita pelo médico austríaco Leo Kanner em 1943. Na obra “Distúrbios Autísticos do Contato Afetivo”, Kanner (1943) conta sobre suas observações de 11 crianças que apresentavam “um isolamento extremo desde o início da vida e um desejo obsessivo pela preservação da mesmice”. Desde então, os critérios diagnósticos do autismo sofreram diversas alterações, sendo que, hoje, segundo o DSM V (APA, 2013), um indivíduo com diagnóstico de Transtorno do Espectro Autista (TEA) deve apresentar duas principais características: (1) déficit na comunicação e interação social; (2) padrão de comportamento ou de interesses restritos e repetitivos. Essas características devem estar presentes precocemente no período do desenvolvimento ou até que as demandas sociais excedam as capacidades limitadas.

Grande parte das dificuldades na comunicação de indivíduos com TEA estão relacionadas a um repertório verbal empobrecido. Skinner (1957) define comportamento verbal comoum comportamento operante mantido por consequências mediadas por um ouvinte que foi especialmente treinado pela comunidade verbal para operar como tal. Levando em conta que indivíduos com TEA apresentam grande dificuldade na comunicação, pode-se dizer, portanto, que eles têm falhas significativas no comportamento verbal. 

Dentre as falhas apresentadas por este público, a habilidade de nomeação (naming) pode estar presente. Horne & Lowe (1996) a definem como uma relação comportamental bidirecional que integra funções de falante e ouvinte tal que a presença de uma pressupõe a outra. Possuir estas duas funções é o início do funcionamento verdadeiramente verbal. A habilidade de naming está dentro dos comportamentos intitulados “falante-como-próprio-ouvinte” (speaker-as-own-listener), assim como trocas de conversa consigo mesmo (self-talking envolving speaker and listener allowed)(Lodhi & Greer, 1989) e correspondência entre dizer-fazer (correspondence between saying and doing) (Paniagua & Baer, 1982). 

A nomeação tem sido considerada uma habilidade chave para o desenvolvimento verbal e pode ser considerada um cuspcomportamental. Segundo Rosales-Ruiz & Baer (1997), um cusp comportamental é um comportamento que permite que o organismo entre em contato com consequências que produzem novas oportunidades de aprendizado. Quando uma criança não tem nomeação, as respostas de falante e ouvinte são evocadas apenas com instruções diretas frente à um estímulo. Uma criança que tem falha na habilidade de nomeação, ao ver alguém falando “bola” frente ao estímulo “bola” não consegue responder à pergunta “o que é isso?” em relação a bola e/ou, tampouco pegar a bola, dentro de um conjunto de objetos, quando solicitado por alguém. Além disso, mesmo se ensinada a tatear de maneira estruturada, não conseguirá, sem treino direto, selecionar a bola dentro de um conjunto de objetos. Ou seja, não há aprendizagem de tato por observação e o ensino de respostas de falante não evoca respostas de ouvinte. Já a criança que tem a habilidade de nomeação, ao observar alguém tateando um estímulo, consegue emitir tanto respostas de falante (tato) quanto respostas de ouvinte frente a este estímulo, sem ser treinadas. Desta forma, para crianças que apresentam esta habilidade, instruções para respostas de falante ou de ouvinte resultam na emissão de respostas não ensinadas anteriormente (Greer & Longano, 2010).

Em outras palavras, uma criança com habilidade de nomeação adquire novos comportamentos verbais como resultado de experiências de nomeação – quando uma criança e outra pessoa estão, simultaneamente, olhando para ou sentindo um estímulo e a pessoa o tateia ou sinaliza. Quando há habilidade de nomeação, a linguagem das crianças expande-se exponencialmente, dado que agora elas são capazes de aprender incidentalmente (Greer & Longano, 2010).

Fiorile & Greer (2007) apontam que este fenômeno é uma etapa chave da função linguística que pode estar deficitária ou inexistente em muitas crianças com TEA e outros diagnósticos de atraso de linguagem.

Dada a relevância dessa habilidade no desenvolvimento do repertório verbal, diversas pesquisas foram feitas em torno deste tema (Fiorile & Greer, 2007; Greer & Longano, 2010; Greer & Ross, 2008; Greer & Speckman, 2009; Greer & Stolfi, 2007), discutindo não só a definição da habilidade de nomeação como também procedimentos eficazes para a sua emergência.

Greer e colaboradores (Fiorile & Greer, 2007; Greer & Longano, 2010; Greer, Stolfi & Pistoljevic, 2007) têm investigado o efeito de diversas variáveis no estabelecimento do repertório de nomeação, com ênfase na utilização do Protocolo de Procedimentos de Instrução com Múltiplos Exemplares (Multiple Exemplar Instruction – MEI) para o ensino desta habilidade. 

Greer, Stolfi & Pistoljevic (2007) compararam o uso do Protocolo MEI com o treino de um único exemplar (Single Exemplar Instruction – SEI) em crianças com atraso no desenvolvimento de linguagem, e que não tinham a habilidade de nomeação. As crianças que passaram pelo ensino com MEI adquiriram nomeação, e as que foram submetidas ao SEI, só adquiriram nomeação quando foram submetidas ao MEI posteriormente. 

Fiorile & Greer (2007) realizaram um estudo com quatro crianças com TEA e que não conseguiam fazer a transição do que foi aprendido como ouvinte, para o repertório de falante (tato). O objetivo do estudo foi testar se um treino de tato seria suficiente para estabelecer o repertório de nomeação. Os resultados mostraram que as crianças não adquiriram repertório de nomeação após o ensino de tato, mas o adquiriram após o ensino com MEI. Neste estudo, foram utilizados apenas itens com três dimensões (3D). Os autores salientam que diferenças podem ser encontradas em estudos que utilizam itens com duas e três dimensões em seus conjuntos de estímulos, dado que a emergência do repertório de nomeação em itens 3D não implica na habilidade de nomeação para outros tipos de itens, como por exemplo em itens 2D.

Os últimos estudos têm mostrado que o melhor procedimento para ensinar a habilidade de naming é o ensino com MEI, mas ainda precisam de mais estudos para definição da melhor apresentação dos estímulos a fim de garantir resultados consistentes referentes à generalização da habilidade. 

Nota: A habilidade de naming é aqui traduzida como nomeação, e se refere, portanto, à relação comportamental bidirecional que integra funções de falante e ouvinte. Já a habilidade de nomear itens é aqui referida como tato, seguindo nomenclatura proposta por Skinner em Verbal Behavior(1957).

REFERÊNCIAS:

American Psychiatric Association (2013). Diagnostic and Statistical Manual of Mental Disorders, (5th Edition) (DSM-V). Washnington, DC: Author.

Fiorile, C. A., & Greer, R. D. (2007). The Induction of Naming in Children with No Prior Tact Responses as a Function of Multiple Exemplar Histories of Instruction. The Analysis of Verbal Behavior, 23(1), 71–87.

Greer, R. D., Stolfi, L., & Pistoljevic, N. (2007). Emergence of Naming in preschoolers: A comparison of multiple and single exemplar instruction. European Journal of Behavior Analysis, 8, 119–131. 

Greer, R. D. & Ross, D. E. (2008). Verbal Behavior Analysis: Inducing and Expanding New Verbal Capabilities in Children with Language Delays. New York, NY:Allyn and Bacon. 

Greer, R.D. & Speckman, J. (2009) The Integration of Speaker and Listener Responses: A Theory of Verbal Development. The Psychological Record, 59, 449-488. 

Greer, R. D., & Longano, J. (2010). A rose by naming: How we may learn how to do it. The Analysis of Verbal Behavior, 26, 73-06

Horne, P. J., & Lowe, C. F. (1996). On the origins of naming and other symbolic behavior. Journal of the experimental analysis of behavior65(1), 185–241. doi:10.1901/jeab.1996.65-185

Kanner, L. (1943) Autistic disturbances of affective contact. Nervous Child,2, 217-250. 

Lodhi, S. & Greer, R.D. (1989) The Speaker as Listener. Journal of the Experimental Analysis of Behavior, 51, 353-559.

Paniagua, F. A. & Baer, D. M. (1982). The analysis of correspondence training as a chain reinforceable at any point. Child Development, 53, 786-798. 

Rosales-Ruiz, J. & Baer, D.M. (1997) Behavioral Cusps: A Developmental and Pragmatic Concept for Behavior Analysis. Journal of Applied Behavior Analysis, 30, 533-544.

Skinner, B. F. (1957). Verbal Behavior. New York: Applenton-Century-Crofts. 

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