Utilizando a Terapia de Aceitação e Compromisso (ACT) para a Promoção da Redução de Estresse em Pais de Crianças com Autismo

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“Repare, nem toda lágrima é de dor, nem toda graça é sorriso. Nem toda curva da vida tem uma placa de aviso, nem sempre que você perde é de fato prejuízo.” Bráulio Bessa (2017)

O presente artigo trata-se de uma resenha acerca de um estudo empírico realizado por Gould, Tarbox e Coyne, publicado no ano de 2017 no Journal of Contextual Behavioral Science. Nesse estudo foram apontados os efeitos da implementação dos princípios da Terapia de Aceitação e Compromisso (do inglês Acceptance and Commitment Therapy – ACT) para promoção da redução de estresse de pais e cuidadores de crianças diagnosticadas com Transtorno de Espectro do Autismo (TEA).

Uma Breve Descrição do Estudo

De acordo com os autores do artigo, estudos indicam que pais ao criarem uma criança estarão expostos a fatores de estresse. Sendo esse estresse decorrente, em grande parte, das suas preocupações com o cuidado que devem direcionar a seu filho, cuidado esse que demanda dos mesmos uma atenção diligente e intervenções adequadas e diferenciadas que deverão ser realizadas com sua criança. De acordo com os autores do artigo o estresse psicológico pode ser caracterizado como uma experiência desencadeada por alta frequência de eventos privados que são evocados devido às contingências aversivas nas quais pais e cuidadores de crianças com TEA estão expostos.

 Não obstante, outro fator de preocupação aos pais de crianças com Autismo é o medo das represálias ou julgamentos que as demais pessoas podem apresentar em relação a sua criança. Frequentemente esses pais experienciam pensamentos que questionam sua eficácia parental e se o que estão fazendo para seu/ua filho/a é o correto e relevante (Gould, Tarbox & Coyne, 2017).

Terapia de Aceitação e Compromisso

A Terapia de Aceitação e Compromisso (ACT, do inglês Acceptance and Commitment Therapy) foi desenvolvida por Steven Hayes e seus colaboradores em meados da década de 90. A ACT trata-se de uma abordagem comportamental identificada como uma Terapia Comportamental de 3ª Geração/Onda, ou uma das Terapias Comportamentais Contextuais. De acordo com a proposta da ACT o sofrimento humano é evocado devido aos comportamentos de esquiva que a pessoa apresenta na tentativa de fugir, evitar ou suspender o contato com eventos encobertos ou públicos avaliados como desagradáveis. Decorrente disso, a pessoa se engaja em uma série de comportamentos na tentativa de solucionar os seus problemas, mas que, ao contrário disso, acabam por os prolongá-los, além de afastá-la de seus valores ou das pessoas ou coisas que lhe são importantes. Junto a isso, a ACT defende que para que a pessoa possa viver de fato uma vida valorosa, ou seja alinhada e caminhando em direção daquilo que é importante torna-se necessário que a mesma adote uma postura de flexibilidade psicológica, o que consiste na forma como a pessoa lida com seus eventos privados. A ACT organiza as habilidades de Flexibilidade Psicológica num conjunto de competências ilustrado em formato Hexagonal, sendo que cada vértice é composta por uma habilidade específica, o Hexaflex (Saban, 2015).

O HexaFlex é composto por seis processos básicos, sendo eles a Aceitação, onde é trabalhado com o sujeito estratégias e formas que esse pode utilizar para lidar com seus sofrimentos, seguindo com o processo de Desfusão, princípio pelo qual será discutido com a pessoa modos de desprender-se de seus sentimentos e pensamentos, ou seja, receber seus eventos encobertos sem criticas ou julgamentos, deixando-os seguir seu fluxo, sem se apegar a eles (Saban, 2015; Gould, Tarbox & Coyne, 2017).

As artimanhas que usamos para escapar da aflição nos desviam de nossos objetivos de vida. E é por eles que vale a pena viver (Hayes, 2006 apud Saban 2015).

Outros elementos que compõem o HexaFlex tratam-se do processo intitulado de contato com o momento presente, o que inclui convocar o sujeito a atentar-se de modo diligentemente aos fenômenos que ocorrem à sua volta, o Self como Contexto em que a pessoa deverá observar como é sua postura e reações diante dos eventos que ocorrem no contexto no qual está inserida. O quinto pilar trata-se da Clarificação de Valores, o que consiste em identificar, levantar e esclarecer coisas que são importantes para o sujeito e de que tipo de pessoa ele gostaria de ser. Por fim, o último pilar são as Ações Comprometidas (Compromisso, leia-se Comprometimento) onde a pessoa irá colocar em prática as mudanças que deseja realizar em sua vida ou que lhe são importantes (Harris, 2011; Saban, 2015; Gould, Tarbox & Coyne, 2017).

Aspectos Metodológicos

A pesquisa de Gould, Tarbox e Coyne (2017) foi um estudo de casos múltiplos que teve como participantes 3 mães de crianças com Autismo e que estavam vivenciando níveis frequentes de estresse. As crianças estavam participando de intervenção terapêutica fundamentada na Análise do Comportamento Aplicada ao Autismo (Terapia ABA, do inglês Applied Behavior Analysis). Foram realizadas seis sessões de Treinamento de Aceitação e Compromisso com frequência semanal. A organização das sessões foi fundamentada nos seis pilares que compõem o Hexágono da Flexibilidade Psicológica (HexaFlex).

Resultados

Por meio da aplicação dos princípios descritos pela ACT, presentes no HexaFlex, os pesquisadores identificaram avanços consideráveis nos comportamentos das participantes do estudo. Antes de iniciar o treinamento as mães relataram que experienciavam, com muita frequência, sentimentos de culpa, ansiedade, tristeza e raiva dirigida para si mesmas. Ainda, as mães relataram que estavam tendo pensamentos autocondenativos e de receio pelas represálias sociais (e.g.: “Eles vão achar que sou uma mãe ruim se eu não fizer nada”; “Bons pais não tem filhos que se comportam assim”; “Eu não suporto isso!”; “Eu não sou bom o suficiente”; “Eu não posso fazer isso [implementação de estratégias fundamentadas na Terapia ABA para modificação de comportamento] porque eu não sou boa o suficiente”). Após o treinamento, as mães que participaram desse procedimento passaram a utilizar as práticas e vivencias da ACT, desprendendo-se, assim, de suas experiências internas, conectando-se ao momento presente e aumentando seu engajamento em ações comprometidas e conectadas aos seus valores. Dito de outro modo, envolveram-se na implementação dos princípios que compõem o Hexaflex para vivenciarem uma vida significativa e valorosa (Gould, Tarbox & Coyne, 2017).

Por meio dos resultados obtidos neste estudo, identifica-se que é frequente que mães de crianças com TEA ou, até mesmo, as de crianças que não possuem diagnóstico de Transtorno do Neurodesenvolvimento, experienciem com muita frequência sentimentos de estresse, no que se refere ao cuidado de seus/suas filhos/as.

Não obstante, identificou-se que a implementação dos princípios e práticas fundamentadas na ACT mostrou-se efetiva na redução do estresse vivenciado e experienciado pelas participantes do estudo, essas passaram a ficar menos sob controle dos seus eventos encobertos e mais sob controle dos seus valores, envolvendo-se assim em práticas parentais positivas que resultaram na melhoria das suas interações tanto com suas crianças como com seus cônjuges.

Discussão e Conclusão

Por fim, busquei ao longo desse texto expor que existem medidas eficazes e sustentadas empiricamente que, ao serem utilizadas de modo apropriado, poderão proporcionar a redução do estresse que pais e cuidadores de crianças com TEA vivenciam.

A intervenção exposta no decorrer deste texto trata-se de um treinamento fundamentado nos princípios da ACT. Lidar com o sofrimento não é fácil, todavia é um caminho que precisa ser trilhado, para que assim, a pessoa, viver uma vida valorosa e que lhe seja significativa. No entanto, para que isso seja possível é de suma importância que repertórios comportamentais sejam modificados, possibilitando, assim, a adoção de posturas mais flexíveis e efetivas para a resolução de seus problemas. A ACT possibilita a seus praticantes uma forma diferenciada e eficaz de lidar com seus eventos encobertos desagradáveis, possibilitando, ainda, a esses aprendizados de como de desprender de seus eventos encobertos, como conectar-se ao momento presente, assim como a viver uma vida alinhada com o que é importante para eles.

Posto isso, é imprescindível que ao interagir com sua criança você busque se conectar com o momento presente, ou seja, atentar-se as pequenas coisas, aos “pequenos” avanços que sua criança pode apresentar (que para eles são saltos enormes) e a envolver-se numa interação parental que seja significativa e acolhedora para todos os envolvidos, comportando-se dessa forma você estará sob controle dos seus valores e não sob governância dos seus eventos encobertos.

Referências

Bessa, Bráulio (2017). Poesia com rapadura. Ceará: CeNE;

Gould, E.; Tarbox, J. & Coyne, L. (2017). Evaluating the Effects of Acceptance and Commitment Training on the Overt Behavior of Parents of Children with Autism. Journal of Contextual Behavioral Science. Disponível em: https://www.researchgate.net/publication/318034225_Evaluating_the_Effects_of_Acceptance_and_Commitment_Training_on_the_Overt_Behavior_of_Parents_of_Children_with_Autism. Acesso: 04 jun. 2019;

Harris, R. (2011). Liberte-se: evitando armadilhas da procura da felicidade. Rio de Janeiro: Agir;

Saban, M. T. (2015). O que é a terapia de aceitação e compromisso?. Em: Lucena-Santos, P.; Pinto-Gouveia, J. & Oliveira, M. da S.; (Org.’s) (2015). Terapias comportamentais de terceira geração: guia pra profissionais. Novo Hamburgo: Sinopsys, 178-216.

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Psicólogo CRP 16/6198. Psicólogo Clínico. Atualmente compõe a equipe da Casulo Comportamento e Saúde (Linhares-ES), clínica de Psicologia especializada no tratamento de crianças diagnosticadas com Transtorno do Espectro do Autismo (TEA) e Transtornos relacionados, como Consultor Comportamental. Atua, também, como Preceptor de Estágio Específico com Ênfase em Análise do Comportamento e no Estágio Básico III (Psicodiagnóstico) do curso de graduação em Psicologia da Faculdade Pitágoras - Unidade Linhares.

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