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Este é um site que, no geral, aborda temas sobre comportamento humano, e seu conteúdo majoritário está direcionado a psicoterapeutas comportamentais. Mas você não precisa ser psicólogo, nem mesmo profissional da área da saúde para se beneficiar da proposta desse texto.

Nessa “Era da correria” encontramos cada vez menos tempo e estímulo para desacelerar e nos reconectar com nosso EU mais profundo. Aquele EU mais conectado com as próprias ideias, próprias necessidades, os próprios sonhos, os próprios valores, os próprios talentos e os próprios desafios e limitações.

Não raro, acabamos muito mais conectados com as demandas, as exigências e os prazos do mundo burocrático, do mundo do trabalho e da nossa vida social, do que realmente às nossas próprias demandas.

Acabamos nos tornando uma espécie de “resolvedores de problemas”, nos mais diversos contextos. Um deles, com frequência, pode ser a nossa rede social de apoio, quando nossos entes mais próximos e queridos eventualmente precisam de alguma ajuda ou cuidado.

Todos nós, psicólogos ou não, em algum momento de nossa trajetória, muito provavelmente, assumiremos algum papel de cuidador, afinal, cuidar e ser cuidado também faz parte da vida. Seja no nosso trabalho, seja na nossa família ou diante de algum evento inesperado e difícil da vida, alguém provavelmente vai precisar e/ou solicitar a sua ajuda e, vice-versa.

Ajudar, contudo, nem sempre é uma tarefa fácil. Receber ajuda também não.

Ao longo do texto eu vou dividir com vocês algumas reflexões e sugestões da Psicoterapia Analítica Funcional – FAP que tem me ajudado na busca por um exercício mais equilibrado desse papel de cuidadora, no contexto profissional como psicóloga clínica, nos contextos sociais dos quais participo e, principalmente, no cuidado comigo mesma.

Expandindo o Modelo CCA da FAP:

A FAP

A FAP – Psicoterapia Analítica Funcional é uma terapia comportamental contextual, desenvolvida para ajudar a aliviar o sofrimento dos clientes em suas relações interpessoais, especialmente aquelas relações mais próximas, que costumamos chamar de relações de intimidade.

Relações de intimidade referem-se ao compartilhamento do que está no interior, em seu EU mais autêntico, revelando-se para o outro, apesar do medo, num contexto de particular afeição e confiança (Pereira & Vandenberghe, 2005).

Segundo Pereira & Vandenberghe (2005), intimidade envolve o que ele chama de vulnerabilidade interpessoal, que seria emitir determinados comportamentos com uma certa abertura para o risco de sofrer uma crítica ou punição em uma relação.

O modelo CCAconsciência, Coragem e amor (do inglês ACL– awareness, courage and love)

O Modelo CCA estrutura os processos da FAP configurando uma proposta de análise que visa contribuir para a iluminação de aspectos terapêuticos importantes e padrões chaves que nos auxiliam a ter mais clareza de nossos objetivos e ações em relações de intimidade (Holman et al., 2017; Lopes, 2018).

É um modelo baseado em décadas de estudos que apontam para a necessidade de orientar o olhar clínico para alguns aspectos da conexão social (ver mais aqui e aqui) que convergem para um padrão significativo em relações saudáveis de intimidade (Lopes, 2018).

Como podemos conferir em outros textos do portal (como aqui, aqui e aqui – sobre o modelo CCA) o amor é um dos pilares fundamentais da FAP. Dentro dessa proposta do Modelo CCA, a palavra AMOR, representa uma classe de respostas (conjunto de ações) que sinaliza a abertura sensível ao comportamento corajoso do outro, de modo a promover o reforçamento desse comportamento corajoso, ou seja, tem como função o aumento da probabilidade de ele ser emitido em maior força e variabilidade no futuro (Holman et al., 2017; Lopes, 2018).

Dessa forma, o amor refere-se a uma classe ampla em que suas respostas (ações) também podem aparecer de diversas formas, desde que tenham a função de acolher e fortalecer a coragem do outro. Por exemplo: a) ouvindo-o com atenção e sensibilidade; b) respeitando limites; c) sinalizando sua abertura a feedbacks; d) pedindo desculpas sinceras, de forma adequada, quando apropriado; e) expressando apreciação; f) fazendo uma auto-revelação; g) atendendo a um pedido; h) ou mesmo, negando um pedido, de modo que a pessoa se sinta respeitada e compreendida ao ter sido corajosa, ainda que não possa ser atendida (Holman et al., 2017).

Nos termos da FAP, esse amor terapêutico está relacionado a um cuidado profundo e ético no qual o terapeuta encoraja o cliente a crescer e fazer mudanças rumo aos seus valores. Assim, a expressão do amor terapêutico deve ocorrer a partir de uma postura compassiva, cuidadosa, respeitosa e acima de tudo, a serviço da construção de um repertório de enfrentamento mais efetivo PARA O CLIENTE (Tsai, Callagan e Kohlenberg, 2013; Lopes, 2018).

Vandenberghe (2017) destaca que:

      “A conexão curativa envolve aceitar, de forma recíproca, o amor que o outro oferece, e comunicar o sentimento de proximidade com essa pessoa.  Tal reciprocidade ocorre quando ambos mostram coragem e amor, trocando as posições de maneira fluida.” (p. 214)

Essa relação entre coragem e amor é interessante por que ajuda esclarecer algumas dinâmicas interpessoais relevantes. Em termos comportamentais, por exemplo, uma pessoa A se move corajosamente em direção à outra (pessoa B), revelando-se profundamente (exemplo de ação corajosa); quando a pessoa B a consequencia utilizando a classe de respostas que chamamos de AMOR, o comportamento corajoso da pessoa A é reforçado, de modo que ao longo do tempo o repertório dela é ampliado e os mais diversos comportamentos em direção à pessoa B aumentam em intensidade e frequência.

Ao mesmo tempo, quando as pessoas não agem de forma responsiva (atenciosa, acolhedora e sensível), tendemos a parar de nos abrir e a diminuir o investimento na relação (Holman et al., 2017).

Seguindo esse raciocínio, quando uma pessoa se engaja em comportamentos vulneráveis de autorevelação (ou seja, corre riscos interpessoais de sofrer críticas e rejeições, exercitando sua coragem em se abrir), a resposta amorosa (empatia, compreensão, compaixão, doação e validação) da outra pessoa é ingrediente crucial na construção de uma conexão de intimidade (Lopes, 2018).

Da perspectiva do terapeuta/cuidador

Entretanto, nem sempre tais respostas amorosas virão como resposta aos nossos movimentos corajosos. Inclusive em relações terapêuticas, de cuidado, em que, enquanto cuidadores, oferecemos nosso melhor, saindo de nossas zonas de conforto para buscar alcançar, de forma significativa e corajosa, as necessidades de nossos clientes. Necessidades estas que podem estar bem distantes do que alguns clientes podem fantasiar e desejar.

Em sua essência, a FAP propõe que o modelo CCA – consciência, coragem e amor – seja incorporado pelos terapeutas em sua vida pessoal e profissional, da mesma forma como é proposto aos clientes (dentro e fora do consultório) (Lopes, 2018).

Assim, torna-se possível oferecer não apenas uma relação verbal (o falar) sobre a relevância de agir com consciência, coragem e amor, nas relações interpessoais, mas a demonstração para o cliente do que isso significa na prática, convidando-o a experimentar, na própria relação terapêutica essa consciência, essa coragem e esse amor a partir dos quais consideram fruto relações intensas e curativas (Holman et al., 2017).

Nesse sentido, é importante que o terapeuta esteja sensível – consciência – ao que está acontecendo, a cada momento (aqui, agora), nele mesmo, em seu cliente e na interação entre ambos, especialmente se estão havendo oportunidades para o engajamento em ações corajosas e amorosas (Holman et al., 2017; Lopes, 2018).

Além disso, pode ser crucial a sua abertura e disposição para, junto com o cliente, experimentar as incertezas de estar fora da zona de conforto, desafiando seus padrões de relacionamentos disfuncionais – coragem, ao mesmo tempo em que cria um ambiente acolhedor, compreensivo (Vandenberghe, 2017). Assim, o terapeuta convida seu cliente a ser corajoso e vulnerável, de modo a reforçar suas pequenas melhoras, no momento em que elas ocorrem – amor (Lopes, 2018).

Para tanto, é essencial que os terapeutas cultivem sua capacidade de se cuidar e recarregar sua motivação para persistir sendo positivo mesmo quando clientes não respondem bem a seus esforços (amor próprio) (Tsai, Callagan & Kohlenberg, 2013;  Holman et al., 2017).

Nesse sentido, de acordo com Holman et al. (2017), um aspecto fundamental da classe AMOR, que adquire relevância especial em ambientes hostis, incluindo o trabalho de terapeutas com clientes agressivos e resistentes à vulnerabilidade, é o do AMOR PRÓPRIO, por eles operacionalizado em três pontos principais:

  1. Auto aceitação: que significa estar aberto a qualquer experiência vivida.
  2. Aceitação do amor dos outros: que envolve considerar-se merecedor de amor e cuidado e permitir a aproximação amorosa dos outros. Pode parecer um pouco estranho à primeira vista, mas a recusa de amor e de tentativas de ajuda, apoio e suporte de outras pessoas dentro desse modelo é vista como uma forma de autonegação e castigo auto infligido.
  3. Autocuidado: refere-se ao engajamento em atividades relaxantes, que rejuvenescem e recarregam as pessoas ou que lhes deem prazer. Tem a função de ajudar as pessoas a permanecerem efetivas em suas relações, especialmente em momentos difíceis de sobrecarga e estresse.

A terapia pessoal e supervisão clínica (no caso de psicoterapeutas) são recursos fundamentais no processo de autocuidado.

Até aqui discutimos a necessidade do autocuidado, inclusive em situações que exercemos papel de cuidador. Além disso apresentamos alguns conceitos da FAP e do modelo CCA relacionados ao autocuidado, em especial o AMOR PRÓPRIO e suas instâncias.

Na parte II daremos continuidade a apresentação de outras reflexões e sugestões de exercícios de autocuidado baseadas na proposta do Modelo CCA da FAP.

Acompanhe as atualizações do site e confira as próximas publicações da série: cuidando do cuidador – contribuições contextuais.

Referências:

Holman, G., Kanter, J. W., Tsai, M., & Kohlenberg, J. R. (2017). Functional analytic psychotherapy made simple. Oakland: New Harbringer

Lopes, A. L. A. (2018). Consciência, Coragem e Amor: um estudo de caso à luz do modelo CCA. Monografia de conclusão de curso. Instituto Brasiliense de Análise do Comportamento (IBAC). Link:

Pereira, M. B. & Vandenberghe, L. (2005). O papel da intimidade na relação terapêutica: uma revisão teórica à luz da análise clínica do
comportamento. Revista Psicologia: Teoria e Prática – 2005, 7(1): 127-136.

Tsai, M; Kohlenberg, R. J.; Kanter, J. Kohlenberg, W.; B.; Follette, W.; Callaghan, G. M. (2011). Um guia para a Psicoterapia analítica funcional (FAP): consciência, coragem, amor e behaviorismo. Santo André: ESETec.

Tsai, M., Callaghan, G., & Kohlenberg, R.J. (2013). The use of awareness, courage, therapeutic love, and behavioral interpretation in FAP.  Psychotherapy, Vol 50(3), Sep 2013, 366-370.

Vandenberghe, L. (2017). Três faces da Psicoterapia Analítica Funcional: Uma ponte entre análise do comportamento e terceira onda. Revista Brasileira de Terapia Comportamental e Cognitiva, 2017, Volume XIX no 3, 206-219.

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