Relações de Equivalência: breves comentários do porquê se estudar equivalência de estímulos

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Terrace (1966) entende que “controle de estímulos se refere à contemplação do valor de um estímulo antecedente na determinação da probabilidade de ocorrência de uma resposta condicionada” (p. 271). A área de controle de estímulos é estudada por meio da investigação empírica de processos comportamentais básicos e complexos como a discriminação simples e a discriminação condicional.

Sidman (2000) entende que as contingências de reforço produzem ao menos dois resultados: unidades analíticas e equivalência de estímulos. As unidades analíticas são categorizadas nas contingências de N termos. Quando observamos o papel da seleção por consequências numa contingência R-C falamos de uma contingência de dois termos, por exemplo. Um rato que pressiona a barra e produz uma pelota de comida e, em função disso, mantém-se pressionando, ilustra o exemplo. 

A discriminação simples, por sua vez, apareceria no que se chama de contingência tríplice: Sd-R-C. Um estímulo discriminativo serve de ocasião para que uma resposta seja emitida e que produza uma consequência subsequente no ambiente; no entanto, existe controle diferencial: na presença desse estímulo a consequência se segue à resposta, na presença de um estímulo diferente desse, consequência alguma é produzida pela resposta (Hübner, 2006). Uma situação do dia a dia ilustra um exemplo: quando um telefone toca, nós atendemos. 

 

A discriminação condicional, por sua vez, é uma contingência de quatro termos: Sc-Sd-R-C. Aqui vemos um operante discriminado sob controle de estímulos do contexto. Por discriminação condicional entende-se que “a significância do estímulo discriminativo não é invariável, muda com relação ao contexto em que aparece. Assim, a resposta correta não é feita com base em apenas um estímulo, mas com base em dois ou mais estímulos” (Cumming & Berryman, 1965, p. 285). Um exemplo do dia a dia, que complementa o nosso exemplo de discriminação simples e também ilustra um caso de discriminação condicional é o de que, geralmente, atendemos o telefone da nossa casa e não do restaurante em que estamos comendo, ou da loja em que estamos fazendo compra. Uma relação “se e somente se” é evidenciada na discriminação condicional (Hübner, 2006, p. 97). 

Ainda assim, é necessária a compreensão do outro resultado que advém das contingências de reforçamento, segundo Sidman (2000): a equivalência de estímulos. 

Emprestado da matemática, o conceito de relações de equivalência demonstra relações emergentes por meio de processos de reflexividade, simetria e transitividade (Sidman, 1994). Ainda que sejam emergentes, Sidman (2000) parte do pressuposto teórico de que essas relações representam efetivamente aspectos do mundo real e considera que a equivalência de estímulos abrange relações previsíveis e descritíveis. 

Em relações de equivalência, chamamos o estímulo condicional de estímulo-modelo e o estímulo discriminativo de estímulo-comparação. Sidman (1994), então, descreve a reflexividade como a relação estabelecida entre propriedades topográficas dos estímulos-modelo e estímulo-comparação: Se o estímulo chamado A1 for modelo e A1 e A2 forem estímulos comparação, é provável que a correspondência entre o modelo A1 e a comparação A1 emerja sem treino prévio, por serem topograficamente iguais. 

A simetria seria demonstrada pela reversibilidade das funções desses estímulos. Isto é, uma vez que eu aprendo uma relação AB em que A é o modelo e B é a comparação, a relação BA emergiria sem treino (De Rose, 1996), mostrando que “as funções de estímulo modelo e estímulo de comparação são intercambiáveis entre si” (Hübner, 2006, p. 100).

            A transitividade requereria o ensino de uma terceira relação de discriminação condicional: BC. Isto é, na presença de B, a correspondência com C seria reforçada. A transitividade aparece quando a relação AC surgisse no repertório do indivíduo sem treino específico, uma vez aprendidas as relações AB e BC, a relação AC emergiria sem treino prévio. 

            De Rose (1996) afirma que esse avanço na área de Controle de Estímulos foi importante por pelo menos dois motivos: 1) ensinando relações condicionais, outras relações emergiriam sem treino prévio; 2) as relações de equivalência poderiam estar tratando de comportamento simbólico… ou de um fenômeno que chamamos de linguagem (Hübner, 2006).

            As relações de equivalência tornam estímulos equivalentes entre si, isto é, torna estímulos substituíveis entre si, em relação de igualdade. Este é um argumento trazido à discussão de leitura com compreensão, por exemplo: se eu escrevo neste texto CACHORRO, você só entende pois, a nível textual, ele substitui o ser vivo cachorro. 

            O estudo das relações de equivalência se justificaria pelo simples fato de que podem ajudar-nos a explicar fenômenos sociais como o preconceito em suas diversas facetas (religiosa, racial, de gênero, orientação sexual etc.) bem como é utilizada para a alfabetização de crianças e adultos (cf. Llausas & Moroz, 2011; Ribeiro & Haydu, 2009).

            Ademais, existem pesquisas que investigam se relações verbais poderiam influenciar na formação de discriminações condicionais e relações de equivalência (cf. Wulfert, Dougher & Greenway, 1991; Martins, Hübner, Gomes, Pinto-Portugal & Treu, 2015) e que apontam que contingências verbais podem, sim, ser agentes facilitadores para a formação desses processos.

            Sundberg, Sundberg e Michael (2018) ainda apontam para o fato de que o estudo da equivalência de estímulos produziu outros quatro trabalhos: “1) a teoria de equivalência do Sidman (1994); 2) a teoria das molduras relacionais de Hayes, Barnes-Holmes e Roche (2001); 3) a teoria de nomeação de Horne e Lowe (1996) e a 4) a descrição de controle conjunto de Lowenkron (1998).” (p. 1). 

            O caráter social (alfabetização, entendimento da origem dos preconceitos), o caráter científico (como processos simbólicos podem ser explicados pela equivalência de estímulos em pesquisas empíricas) e a própria influência em outras teorias mostram com suficiência a importância do estudo da teoria de Sidman (1994, 2000, 2009), como um avanço não só na área de Controle de Estímulos, mas na Análise do Comportamento como um todo.

            Ainda que este texto tenha tentado demonstrar brevemente essa importância, ainda pode-se discutir mais da origem das relações de equivalência e também das teorias subjacentes evidenciadas por Sundberg, Sundberg e Michael (2018). 

Referências

Cumming, W. W. & Berryman, R. (1965). The complex discriminated operant: Studies of

matching-to-sample. Em D. I. Mostofsky (Org.), Stimulus generalization (pp. 284-330).

Stanford, CA.: Stanford University Press.

De Rose, J. C. (1996) Controlling factors in conditional discriminations and tests of

equivalence. In Zentall, T. R.; Smeets, P. M. (editors) Stimulus Class Formation in Humans

and Animals. Elsevier Science.

Hübner, M. M. C. (2006) Controle de estímulos e relações de equivalência. Revista

Brasileira de Terapia Comportamental e Cognitiva. 8(1), 95-106.

Martins, L. A. L., Hübner, M. M. C., Gomes, F. P., Pinto-Portugal, M., Treu, K. E. (2015)

Effect of the qualifying autoclitic “is” in conditional discrimination training and equivalence

tests. Acta Colombiana de Psicología. 18(1). pp. 37-46.

Sidman, M. (1994) Equivalence Relations and Behavior: A Research Story. Boston:

Authors Cooperative.

Sidman, M. (2000) Equivalence relations and the reinforcement contingency. Journal of

the Experimental Analysis of Behavior. v. 74, n. 1, pp. 127-146.

Sidman, M. (2009) Equivalence Relations and behavior: an introductory tutorial. The

Analysis of Verbal Behavior. v. 25, n. 1, pp. 5-17.

Sundberg, C. T.; Sundberg, M. L.; Michael, J. (2018) Covert verbal mediation in arbitrary matching to sample. Journal of the Experimental Analysis of Behavior.1-24.

Terrace, H. S. (1966) Stimulus Control. In Honig, W. K.; Staddon (orgs) Operant Behavior:

Areas of Research and Application. New York: Appleton-Century-Crofts.

Wulfert, E., Dougher, M. J., Greenway, D. E. (1991) Protocol Analysis of the

correspondence of verbal behavior and equivalence class formation. Journal of the

Experimental Analysis of Behavior, 56(3), pp. 489-504.

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Graduado em Psicologia pelo Centro Universitário Cesumar (UniCesumar), especialista em Análise do Comportamento e Psicoterapia Cognitivo-Comportamental pelo Núcleo de Educação Continuada do Paraná (NECPAR) e em Terapia Comportamental pela Universidade de São Paulo (USP). Tem como principais áreas de estudo o Behaviorismo Radical e a Análise do Comportamento com interesse em comportamento verbal, agências controladoras do comportamento, psicoterapia comportamental e psicoterapia analítica funcional.
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Caroline Cunha Assis
Caroline Cunha Assis
2 meses atrás

Muito bom!!!!