ABA e o tratamento para o Autismo na infância

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O Transtorno do Espectro do Autismo (TEA) engloba um leque de características que incluem certos prejuízos na comunicação e interação social, além dos padrões restritos e repetitivos de comportamento que se apresentam (APA, 2013). Cada vez mais estamos avançando em relação ao tratamento do Autismo e o interesse científico tem contribuído para o aprimoramento das técnicas de detecção e diagnóstico, permitindo uma identificação da condição cada vez mais precisa e mais cedo no desenvolvimento infantil (Goulart e Assis, 2002).

A literatura aponta com veemência que as intervenções precoces e intensivas, fundamentadas em Análise do Comportamento são as mais indicadas para o tratamento. Segundo Fernandes e Amato (2013) as propostas de intervenção baseadas no modelo da Análise de Comportamento Aplicada (Applied Behavior Analysis – ABA) têm sido frequentemente mencionadas como o único modelo com resultados cientificamente comprovados para as intervenções direcionadas ao TEA.

A Análise do Comportamento Aplicada é mais conhecida no Brasil pela sigla ABA. Comumente considera-se a ABA como um método para o tratamento do Autismo, o que é um grande equívoco. ABA não é um método. Segundo Gomes e Silveira (2016) ABA é uma ciência que se interessa pelo estudo das variáveis que afetam os comportamentos e sua aplicação não é exclusiva para o tratamento do Autismo. Para cada demanda, a partir dessa ciência, temos acesso a um conjunto de técnicas de modificação e manejo do comportamento que podemos utilizar para criar planos de intervenção específicos e individualizados.

Para o tratamento do TEA a Análise do Comportamento pode ser aplicada de várias formas como descrito por Gomes e Silveira (2016): Aplicada a resolução de uma demanda específica, por exemplo: birra, agressividade; Aplicada junto a recursos e programas educacionais específicos, como o PECS; e na modalidade de intervenção comportamental intensiva que exige mais horas de intervenção, com o objetivo de estimular várias áreas do desenvolvimento ao mesmo tempo.

As intervenções comportamentais voltadas para o tratamento do Autismo devem ser direcionadas as áreas do desenvolvimento em que a criança apresenta déficits, assim como diretamente sobre determinados comportamentos que se apresentam em excesso, o que pode gerar prejuízos na aprendizagem e adaptação funcional da criança. Para traçar um plano de intervenção, devemos considerar que lidamos com um Transtorno do Desenvolvimento e que então, será necessário avaliar se o repertório comportamental da criança está congruente com o esperado para sua idade cronológica. Ao identificar os déficits, traçamos os comportamentos-alvo da intervenção.

Leonardi, Borges e Cassas (2012) descrevem que a avaliação funcional deve ser realizada para melhor compreensão do caso e delineamento das decisões clínicas a serem tomadas, a partir de quatro objetivos:

1. Identificar os comportamentos-alvo e as condições ambientais que o mantém.

2. Determinar a intervenção apropriada.

3. Monitorar o progresso da intervenção.

4. Auxiliar na medida do grau de eficácia e efetividade da intervenção.

Para identificar os comportamentos-alvo de intervenção é necessário, além da avaliação do desenvolvimento da criança, coletar dados com a família e escola. Ambos poderão relatar as principais dificuldades enfrentadas no dia-a-dia e quais são suas expectativas para a intervenção. E ainda, quais são as habilidades já adquiridas no repertório da criança, o que reforça os comportamentos da mesma e outras informações que serão determinantes para o sucesso das intervenções. É interessante que o trabalho seja alinhado nos diversos ambientes em que a criança está inserida para que o comportamento aprendido em um contexto seja emitido também nos demais.

Sobre o processo de generalização, Skinner (1974) descreve que um comportamento reforçado numa determinada ocasião tem maior probabilidade de ocorrer em ocasião que lhe seja muito semelhante; em virtude, porém, do processo de generalização, pode surgir em ocasiões que partilhem apenas algumas dessas mesmas propriedades.

O delineamento da intervenção apropriada deve acontecer a partir de uma análise individualizada, como qualquer processo terapêutico. O DSM-V descreve uma série de comportamentos que em conjunto podemos nomear como Transtorno do Espectro do Autismo, mas esse repertório não é igual para todos os indivíduos diagnosticados. E mesmo repertórios semelhantes podem apresentar funções diferentes, o que torna também a intervenção diferenciada para cada um. Vermes (2012) enfatiza que considerar o processo terapêutico a partir de uma demanda individual é basear-se na perspectiva de que o indivíduo é único. Mesmo ao seguir estruturas pré-elaboradas de intervenção, apenas uma análise cuidadosa do caso trará informações precisas para uma condução eficaz.

Contudo, a Análise Comportamento Aplicada (ABA) ao tratamento do Autismo tem como objetivo desenvolver repertórios de habilidades sociais relevantes e reduzir repertórios inapropriados, servindo-se, para isso, de métodos baseados em princípios comportamentais (Goulart e Assis, 2002). Toda intervenção deve partir de uma análise multifatorial e os comportamentos-alvo devem ser analisados funcionalmente. Dentre as inúmeras possibilidades de manejo comportamental, as avaliações periódicas devem ser realizadas para atestarem a eficácia dos procedimentos utilizados e/ou delimitar quais as mudanças são pertinentes para a melhor condução do caso.

Referências:

American Psychiatric Association (2015) Manual diagnóstico e estatístico dos transtornos mentais: DSM-5 [recurso eletrônico]; tradução: Maria Inês Corrêa Nascimento, et al.; 5. ed. Porto Alegre: Artmed.

Fernandes, Fernanda Dreux Miranda, & Amato, Cibelle Albuquerque de la Higuera. (2013). Análise de Comportamento Aplicada e Distúrbios do Espectro do Autismo: revisão de literatura. CoDAS, 25(3), 289-296.

Gomes, Camila & Graciella Santos (2016) Ensino de habilidades básicas para pessoas com autismo: manual para intervenção comportamental intensiva; ilustração, Daniel Augusto Ferreira e Santos. – 1. ed. – Curitiba: Appris.215 p.

Goulart, Paulo, & Assis, Grauben José Alves de. (2002). Estudos sobre autismo em análise do comportamento: aspectos metodológicos. Revista Brasileira de Terapia Comportamental e Cognitiva, 4(2), 151-165.

Leonardi, Jan Luiz; Borges, Nicodemos Batista; Cassas, Fernando Albregard. (2012) Avaliação funcional como ferramenta norteadora da prática clínica. In: Borges, Nicodemos Batista; Cassas, Fernando Albregard. Clínica analítico- comportamental: aspectos teóricos e práticos. Porto Alegre: Artmed, cap. 10, p. 105-109.

Skinner, B. F. (1974). Sobre o behaviorismo. São Paulo: Cultrix–Edusp, 1982. (Original de 1974).

Vermes, Joana Singer. (2012). Clínica analítico-comportamental infantil: a estrutura. In: Borges, Nicodemos Batista; Cassas, Fernando Albregard. Clínica analítico- comportamental: aspectos teóricos e práticos. Porto Alegre: Artmed, cap. 24, p. 214-222.

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Psicóloga com experiência em acompanhamento terapêutico de crianças com Transtorno do Espectro do Autismo em ambiente escolar e domiciliar, atendimentos psicológicos direcionados a dificuldades de aprendizagem de crianças e adolescentes com desenvolvimento típico; Experiência em aplicação do método ABA (Análise do Comportamento Aplicada) para intervenções multidisciplinares em crianças e adolescentes e realiza atendimentos psicológicos clínicos de adultos e idosos a partir da abordagem Analítico-Comportamental. E-mail: deboralouyse@hotmail.com

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