Uma introdução a psicologia clínica dirigida as pessoas LGBT’s: Uma terapia comportamental afirmativa

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Do ponto de vista teórico o indivíduo homossexual não é psicologicamente diferente do indivíduo heterossexual. Porém, levando em consideração que um mesmo ambiente cultural afeta de forma muito distinta as pessoas LGBT’s (Lésbicas, Gays, Bissexuais e Transexuais) quando comparada as pessoas heterossexuais, visto que, esse mesmo ambiente dispõe de forte controle aversivo para com as pessoas LGBT’s torna-se necessário compreender profundamente as questões mais específicas dessas pessoas no âmbito individual e cultural, para assim atuar de maneira clinicamente mais adequada. Por esse motivo, o objetivo aqui é lançar luz a determinadas questões e nuances, que do ponto de vista da Terapia Afirmativa podem ser de grande relevância na clínica com pessoas LGBT’s fazendo uma interlocução com a Terapia Comportamental. 

É importante ressaltar que, apesar da palavra homossexual ser amplamente utilizada no texto, suas informações também se aplicam as pessoas LGBT’s como um todo.

Antes de delinearmos como seria uma intervenção afirmativa em um processo terapêutico comportamental, precisamos definir o que seria Terapia Afirmativa, conceito criado pelos psicólogos norte-americanos Donald Clark e Betty Berzon, foi empregado pela primeira vez em um artigo pelo psicólogo Alan Malyon em 1982. Desenvolvida, principalmente, nos Estados Unidos e Reino Unido, a Terapia Afirmativa não é uma abordagem independente de Psicoterapia e sim uma área de conhecimentos que questiona as visões que consideram a orientação homossexual fixa e patológica. Do ponto de vista terapêutico afirmativo, o profissional atua reconhecendo que a identidade homossexual é uma expressão positiva e natural da sexualidade humana, assim como, a heterossexualidade, e vai se atentar então, para os conflitos experienciados pelos homossexuais buscando compreender a sua dinâmica a partir dos processos de discriminação homofóbica, acreditando que esses impactam amplamente a vida dessas pessoas e consequentemente a sua sexualidade. (BORGES, 2009).

Partindo desse ponto vista, um modelo de psicoterapia afirmativa na terapia comportamental, deve perceber o sujeito homossexual não como diferente do heterossexual, mas levar em consideração todas as questões contingenciais que envolvem a homofobia e homossexualidade, visando assim construir uma visão mais aprofundada das particularidades desta população. Pois, para a psicoterapia afirmativa, a homofobia e a homofobia internalizada regras, autorregras e demais comportamentos encobertos como medo, culpa e vergonha que o indivíduo apresenta em relação à homossexualidade são consideradas responsáveis pelo desenvolvimento das principais condições sintomáticas apresentadas pelos homossexuais. (BORGES, 2009).

À vista disso, os terapeutas devem se atentar a algumas condições essenciais, uma das questões centrais do trabalho com essas pessoas é a postura do terapeuta. Esta deve ser uma postura não crítica e de aceitação, demonstrando respeito pela orientação sexual do cliente, considerando que clientes homossexuais possuem um longo histórico de opressão e por isso podem temer serem punidos pelo terapeuta, dificultando assim a expressão natural e espontânea do cliente dentro do consultório. (BORGES, 2009).

Audiência não punitiva

Um conceito analítico comportamental de grande importância é o de audiência não punitiva, que consiste em o terapeuta ser sensível ao seu cliente enquanto ouvinte, estar atento aos assuntos que o cliente traz, a sua maneira de se comunicar buscando interagir com o cliente em um mesmo nível de comunicação. Propiciando um ambiente no qual o cliente possa manifestar comportamentos, abordar assuntos que normalmente não abordaria com outras pessoas, seja por estas não estarem disponíveis para ouvi-lo ou porque ele poderia sofrer punição, o que pode ser muito presente no caso dos homossexuais. (MEDEIROS, 2002). Essa atitude do terapeuta é o ponto central de uma Terapia Afirmativa, pois só assim a psicoterapia se torna um lugar no qual o cliente vai recuperar os comportamentos que foram suprimidos pela punição.

Em conjunto com tal postura, o terapeuta deve também estar atento a alguns comportamentos clinicamente relevantes, produto dos efeitos da homofobia que podem ser, segundo Borges (2009), desde questões emocionais como baixa autoestima, depressão, ansiedade até mesmo a comportamentos mais públicos como ser preconceituoso com gays afeminados e lésbicas, forçar expressão social mais máscula, sentir se desconfortável na presença de pessoas LGBT’s e até mesmo se passar por heterossexual. Tudo isso está diretamente relacionado, com o fato de essas pessoas ao longo de sua vida terem sido expostas a homofobia social e cultural, o que faz com que o cliente desenvolva uma visão de que a sua maneira de ser e expressar a sua sexualidade é incorreta e negativa, já que tais comportamentos são sempre punidos nos ambientes em que ele vive.

Por causa disso, homossexuais tendem a apresentar grande repertório comportamental de fuga e esquiva, ou seja, se comportam de maneira a fugir e/ou evitar os eventos aversivos, se isolam em guetos, “encarnam” um personagem heterossexual em sua vida diária, desqualificam gays afeminados, dentre uma série de outros comportamentos que poderiam ser citados. (BORGES, 2009; SIDMAN, 2009). Apresentam também alto grau de autocontrole, em outras palavras, o indivíduo controla seu comportamento, quando este pode desencadear consequências conflitantes. (SKINNER, 1953). Logo, se comporta de maneira a tornar a resposta punida menos provável, por exemplo: agir de maneira considerada mais masculina resposta controladora, essa seria reforçada positivamente, por ser a maneira considerada socialmente adequada de um homem se comportar, o que reduz a probabilidade da resposta controlada que seriam os comportamentos considerados de homossexuais. (BORGES, 2009; SKINNER, 1953).

Constata-se que, para evitar os eventos aversivos e serem socialmente aceitos, estão o tempo todo em alerta, controlando seus comportamentos, pois não podem expressar sentimentos, trejeitos, isto é, não podem dar margem para que as pessoas cogitem a possibilidade de eles serem gays.

Contribuições da FAP

Em razão dessas questões, cabe a um terapeuta bem treinado auxiliar seu cliente a compreender que todo o sofrimento, insatisfação e vergonha relativo à sua sexualidade está diretamente relacionado ao ambiente opressor ao qual ele foi exposto. E para conseguir fazer isso o profissional precisa ter claro as questões socioculturais que perpassam ser gay em nossa sociedade e também analisar seus próprios comportamentos na relação terapeuta cliente, conforme propõe a Psicoterapia Analítico Funcional (FAP). Visto que, um terapeuta que apresenta preconceitos e crenças negativas relativas à população LGBT pode atuar no consultório sob controle de seus preconceitos impedindo uma condução adequada do caso. Consequência disso seria não conseguir explorar bem os aspectos de sofrimento do cliente, ajudá-lo a desenvolver autoconhecimento e auto aceitação. (BORGES, 2009; KOHLENBERG; TSAI, 2006).

Nessa perspectiva, um terapeuta com tais características, muito provavelmente não conseguiria trabalhar com seu cliente o objetivo final de uma Terapia Afirmativa, que é ajudar o cliente a desenvolver uma identidade homossexual positiva, que seria quando o cliente consegue aceitar e vivenciar a sua sexualidade de maneira assertiva, isto é, tendo uma perfeita integração dos seus sentimentos, pensamentos e desejos, eliminando assim os conflitos que se faziam presentes no início do processo.(BORGES, 2009).

 Abrindo o armário, contribuições da Terapia Afirmativa

O termo utilizado no subtítulo “armário” se refere a comportamentos de fuga, esquiva e autocontrole mecanismos psicológicos presentes nos indivíduos, que por serem expostos com frequência a preconceitos desde pequenos, por não se enquadrarem no padrão esperado de uma heterossexualidade, sofrem sanções, críticas, abusos físicos e emocionais. Com isso, aprendem a esconder pensamentos e sentimentos que são inaceitáveis para as pessoas de seu convívio, desenvolvem uma necessidade de se esconder, pois não conseguem admitir para si seus sentimentos homossexuais, uma vez que a mensagem passada a essas pessoas é de que há algo de errado nisso, resultando então em sentimentos de medo, culpa, vergonha e no não reconhecimento da sua orientação sexual e não integração a sua pessoa pública. (BORGES, 2009; LEVOUNIS; DRESCHER; BARBER, 2014).

A “saída do armário”; revelar e expor sentimentos, desejos e tendências homossexuais pode ser de várias maneiras diferentes, como por exemplo: a pessoa pode revelar a sua orientação sexual somente para os amigos temendo a reação dos familiares, podem falar sem revelar detalhes da sua vida pessoal, ao falar sobre um relacionamento afetivo com uma pessoa fala sem revelar o gênero da pessoa em questão na conversa. Nesse ponto, é de suma importância que o terapeuta faça perguntas claras e abertas sobre os relacionamentos do cliente, não presumindo que o cliente seja heterossexual, pois se o terapeuta não pergunta o cliente pode não contar e isso pode acabar reforçando no cliente sentimentos de inadequação e exclusão social. (LEVOUNIS; DRESCHER; BARBER, 2014).

A esses e uma série de outros aspectos que podem ser manifestações de estar no armário o terapeuta precisa estar atento e intervir de forma a propiciar ao seu cliente o reconhecimento da sua identidade sexual como positiva, válida e natural, tomando cuidado para não reproduzir e reforçar questões no cliente de incongruências e afastamento da sua sexualidade. (BORGES, 2009; LEVOUNIS; DRESCHER; BARBER, 2014).

 O Terapeuta deve revelar sua identidade sexual?

Vale refletir se a sexualidade do terapeuta pode interferir no processo terapêutico como fator facilitador ou até mesmo como um dificultador.

É interessante considerar que um cliente gay ao ser atendido por um psicoterapeuta gay, mesmo que esse não revele para o cliente a sua orientação sexual, pode sentir se mais à vontade, crendo que o profissional não irá julga-lo por sua orientação sexual. (LEVOUNIS; DRESCHER; BARBER, 2014). Mas também, o profissional da Psicologia que está realizando o atendimento pode ter preocupações se consegue atender alguém da sua “tribo”, caso ele possua questões pessoais que o dificultem na condução dos atendimentos. (BORGES, 2009; LEVOUNIS; DRESCHER; BARBER, 2014).

Porém, se ambos estiverem confortáveis com isso, tal semelhança de orientação sexual e cultural no que se refere a cultura LGBT pode ser de grande ajuda para criação do vínculo terapêutico e empatia, além do fato de que, o cliente pode se sentir mais confortável para relatar sua história e por não precisar explicar os mínimos detalhes da sua vida como homossexual. Vale ressaltar, que o terapeuta deve ser cauteloso, para não se perder em meio a algumas questões do cliente, pois mesmo que ambos terapeuta e cliente sejam homossexuais, existem coisas que possuem significados e sentidos diferentes na vida de cada um. (LEVOUNIS; DRESCHER; BARBER, 2014).

Pensando em uma relação terapeuta cliente, na qual, o cliente é homossexual e o terapeuta heterossexual, quais poderiam ser as possíveis implicações disso para o processo terapêutico? Em uma relação na qual o cliente é gay e o psicoterapeuta é heterossexual o cliente pode ficar inferindo o que será que seu terapeuta pensa a respeito da homossexualidade, e pode não conseguir parar de pensar se o terapeuta é um daqueles terapeutas reparativos e preconceituosos. Diante de tal situação, após usar todas as técnicas disponíveis e manejos para se estabelecer uma relação terapêutica de confiança e essas não forem suficientemente efetivas, o psicoterapeuta pode considerar se revelar de alguma maneira, mesmo que mais indireta, como simpatizante dos homossexuais, expondo uma visão positiva e sem preconceitos. (LEVOUNIS; DRESCHER; BARBER, 2014).

Por conseguinte, o cliente pode sentir-se a vontade ou não, para durante o processo em alguns momentos explicar questões sobre o mundo gay para seu terapeuta, uma vez que, terapeutas heterossexuais podem não conhecer bem a cultura LGBT e além disso, também reproduzir alguns estereótipos sobre os homossexuais, o que pode não ser benéfico para o processo, pois os estereótipos podem ser as questões que devem ser tratadas na terapia com o cliente (LEVOUNIS; DRESCHER; BARBER, 2014).

Pode parecer que tal discussão não seja necessária e até mesmo esteja tirando conclusões sobre a postura profissional ou capacidade do terapeuta com base em sua sexualidade, mas não é isso, o que se aponta aqui são algumas reflexões sobre aspectos que podem atravessar a relação terapeuta cliente e como esses podem interferir no processo e serem trabalhados. Afinal é fato que considerando o contexto sociocultural no qual estamos inseridos, é bem mais provável que um terapeuta gay saiba muito mais sobre o mundo hétero e sobre o mundo gay, do que um terapeuta hétero sobre o mundo gay (LEVOUNIS; DRESCHER; BARBER, 2014).

Contudo, considerando a discussão acima fica a seguinte pergunta, os terapeutas devem revelar suas identidades sexuais? De fato, na maioria dos casos não importa para os clientes a orientação sexual do seu terapeuta e isso quase nada, ou nada vai interferir na criação do vínculo e condução do processo. Porém, um terapeuta que não revela sua orientação sexual será na maioria das vezes compulsoriamente considerado heterossexual, e isso pode ter impactos no atendimento de clientes que possuem alguma questão com a sua “sexualidade”. (LEVOUNIS; DRESCHER; BARBER, 2014).

Segundo Levounis, Drescher e Barber (2014, p.95), além da reflexão proposta acima, alguns aspectos que podem ser levados em consideração para fazer tal revelação ao cliente, são eles:

  • O trabalho terapêutico está no início e o paciente se sente confortável ao perguntar o terapeuta sobre a orientação sexual dele.
  • O paciente identificou a questão de “sair do armário” ou a normalização dos pensamentos e sentimentos homoeróticos como um objetivo terapêutico, e o(a) terapeuta é LGBT.
  • O paciente expressa indiretamente uma curiosidade contínua sobre a orientação do terapeuta.
  • A não revelação prejudica a aliança entre paciente e terapeuta.
  • A interpretação errônea da orientação sexual do terapeuta reforça os sentimentos do paciente de raiva de si mesmo.
  • A clínica ou o terapeuta se anunciam como de orientação LGBT.

Em algumas condições específicas a orientação sexual do terapeuta pode de alguma maneira interferir ou até mesmo fazer parte da relação terapêutica, já a revelação ou não da orientação sexual do terapeuta deve ser muito bem avaliada considerando todo o histórico do caso clínico do cliente e também o contexto da psicoterapia.

Contudo, vale ressaltar também que na atualidade com as redes sociais os clientes podem ter acesso a informações sobre seus terapeutas extra consultório, assim como, poderiam também encontrar com seus terapeutas pela cidade em algum ambiente específico e que com base nessas informações extra consultório o cliente pode tirar suas próprias impressões e conclusões sobre o seu terapeuta. (LEVOUNIS; DRESCHER; BARBER, 2014). Logo fica evidente aqui a impossibilidade de uma neutralidade absoluta, como também de controle sobre as construções que o cliente faz com aquilo que conhece do seu terapeuta para além da relação terapeuta cliente.

Concluindo a Terapia Afirmativa embora não seja uma abordagem da Psicologia e sim uma linha de estudos específicos sobre a psicoterapia dirigida a pessoas LGBT’s, traz considerações importantes sobre a relação terapeuta cliente  e seus impactos clínicos, que são perfeitamente coerentes com a visão da Análise do Comportamento, já que enfatiza as contingências socioculturais sua relação com o repertório comportamental dessas pessoas e seus impactos psicológicos.

Referências:

BORGES, Klecius. Terapia Afirmativa: uma introdução à psicologia e à psicoterapia dirigida a gays, lésbicas e bissexuais. São Paulo: GLS, 2009. 101p.

KOHLENBERG, Robert J; TSAI, Mavis. Psicoterapia analítica funcional. Santo

André: Esetec, 2006.

LEVOUNIS, P.; DRESCER, J.; BARBER, M. E. (Orgs.). (2014). O livro de casos clínicos GLBT. Linck, Gabriela Wondracek (Trad.). Porto Alegre: Artmed.

MEDEIROS, Carlos Augusto. Comportamento Verbal na Terapia Analítico

Comportamental. Revista Brasileira de Terapia Comportamental e Cognitiva, São Paulo, v.4, n.2, 2002. Disponível em: <http://pepsic.bvsalud.org/scielo.php?script=sci_arttext&pid=S1517-

55452002000200004>. Acesso em: 11 nov. 2017.

SIDMAN, Murray. Coerção e suas implicações. Campinas, SP: livro pleno,2009.

SKINNER, Burrhus Frederic. (1953). Tradução João Carlos Todorov; Rodolfo Azzi. Ciência e comportamento humano. 11 ed. São Paulo: Martins Fontes, 2003.

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