Personalidade evitativa: Transtorno ou “jeito de ser”?

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A análise do comportamento rejeita, tradicionalmente, a noção de que qualquer comportamento – por mais incomum que pareça – seja, em si mesmo, patológico. Esta perspectiva deriva da ideia geral de que a nossa forma de ser e de agir é selecionada biologicamente, pelas consequências das nossas próprias ações e também por uma cultura (Banaco, Zamignani, Martone, Vermes & Kovac, 2012; Skinner, 1981).

Sendo assim, não faria sentido considerar um comportamento qualquer como patológico ou um conjunto de comportamentos como um transtorno, uma vez que os mesmos processos de seleção natural (biológica), comportamental (operante) e cultural são os responsáveis pela formação de uma “personalidade” (seja lá como for sua topografia). Portanto, seria mais apropriado dizer que um comportamento “merece atenção clínica”, por exemplo, do que dizer que o mesmo é patológico.

Bom, quando nos deparamos com indivíduos muito tímidos, ou seja, que temem exageradamente o julgamento e a rejeição dos outros, tem um comportamento muito discreto e cauteloso nas interações sociais com desconhecidos, são inibidos emocionalmente, são extremamente sensíveis a críticas e reprovações dos outros e geralmente evitam relações íntimas (Caballo, Bautista, López-Gollonet & Prieto, 2008), podemos desconfiar da existência de um padrão de comportamento nomeado pela psiquiatria como transtorno de personalidade evitativa (TPE).

Talvez, ao ler as características mencionadas acimas, você pode se perguntar: mas isso não se trata de um quadro de fobia social? De fato, há uma enorme confusão conceitual sobre estes dois fenômenos em função da grande semelhança na sintomatologia. Segundo van Velzen, Emmelkamp e Scholing (2000), seis dos sete critérios diagnósticos do DSM-III-R para o TPE estão claramente relacionados aos critérios da fobia social generalizada (FSG). Em um estudo de Barros Neto e Lotufo Neto (2006), de uma amostra de 22 pacientes diagnosticados com fobia social, 14 também receberam um diagnóstico de TPE.

Apesar da grande semelhança entre estes dois transtornos, existem algumas diferenças quanto à gravidade dos sintomas. No TPE, haveria um maior nível de sofrimento geral, maior nível de ansiedade social e sintomas depressivos, maior evitação social, maior prejuízo no funcionamento social e ocupacional e maior taxa de comorbidades (van Velzen, Emmelkamp & Scholing, 2000). É interessante observar que as diferenças são basicamente quantitativas (na gravidade dos sintomas e/ou número de comorbidades) e não qualitativas (funções ou topografias diferentes).

Ainda sobre as diferenças entre o TPE e a FSG, Weinbrecht, Schulze, Boettcher e Renneberg (2017) apontam que, no TPE, haveria um menor auto respeito, maior dificuldade em expressar emoções em relacionamentos íntimos e maior evitação geral, reforçando a ideia de que o TPE seria apenas uma condição mais grave da fobia social, ainda que ambos os quadros possam apresentar características mais específicas em termos qualitativos.

É importante ter em vista que o termo “personalidade”, para a análise do comportamento, refere-se a padrões de comportamento bastante regulares de uma pessoa que são nomeados com adjetivos, como “tímido”, “agitado”, “sério”, “sensível” e assim por diante (Banaco, Vermes, Zamingnani, Martone & Kovac, 2012). Assim, um indivíduo com personalidade “evitativa” seria alguém que manifesta padrões regulares de ansiedade e evitação nas interações sociais de forma geral. A priori, não poderíamos considerar esses padrões como um transtorno, uma vez que todos nós apresentamos, em algum grau, ansiedade e evitação – mesmo que sutil – nas interações sociais.

Por exemplo, ao fazer uma apresentação oral diante de uma audiência, provavelmente sentiremos nosso coração acelerar mais rápido, nossa musculatura ficará tensa e, pelo menos no início da apresentação, tenderemos a manter menos contato visual com o público. Estas e outras respostas típicas são descritas com o rótulo de “ansiedade social” e também fazem parte do que se entende por “personalidade evitativa”.

O ponto chave é que, dependendo do grau de intensidade destas respostas frente a estas situações sociais, elas podem gerar muito sofrimento e prejuízos graves à vida do indivíduo, como já ressaltado. Quando isso ocorre, teríamos um conjunto de comportamentos que merece atenção clínica ou, na linguagem da psiquiatria, teríamos um transtorno.

Um “jeito de ser” evitativo pode ser equivalente àquilo que, na linguagem comum, chamamos de “timidez”, não sendo, portanto, alvo de atenção clínica. Por outro lado, a medida que os níveis de ansiedade social são cada vez mais intensos e frequentes, gerando sofrimento e prejuízos cada vez maiores, podemos considerar a existência de um transtorno de ansiedade social (ou fobia social) e, no caso mais extremo, de um TPE.

A despeito dos nomes que se possa dar a determinados padrões de comportamento, a tarefa principal do analista do comportamento será sempre a de investigar, compreender e, se necessário, intervir nas contingências das quais esses comportamentos são função.

Para concluir, não há dúvida de que devemos estar atentos em relação às topografias da ansiedade social – evitar contato visual, não expor opiniões em público, ruborizar quando se é o centro das atenções, etc. – às frequências e intensidades destas respostas, assim como saber identificar, a partir destas variáveis, se estamos diante de um caso simples de timidez, fobia social ou TPE.

Porém, como analistas do comportamento, precisamos ir além e identificar as variáveis ambientais – antecedentes e consequentes – responsáveis pela instalação e manutenção destas topografias, frequências e intensidades e, até mesmo, dos rótulos utilizados para descrevê-las. Isso significa, também, atentar para o terceiro nível de seleção do comportamento: a cultura. Ou seja, precisamos compreender qual o papel da cultura no sofrimento associado ao TPE e suas variações. Tema para um próximo artigo.

Referências

Banaco, R. A., Vermes, J. S., Zamignani, D. R., Martone, R. C., & Kovac, R. (2012). Personalidade. Em M. M. C. Hubner & M. B. Moreira (Orgs.), Temas clássicos em psicologia sob a ótica da análise do comportamento. Rio de Janeiro: Koogan.

Banaco, R. A., Vermes, J. S., Zamignani, D. R., Martone, R. C., & Kovac, R. (2012). Psicopatologia. Em M. M. C. Hubner & M. B. Moreira (Orgs.), Temas clássicos em psicologia sob a ótica da análise do comportamento. Rio de Janeiro: Koogan.

Barros Neto, T. P., & Lotufo Neto, F. (2006). Transtornos de personalidade em pacientes com fobia social. Revista de Psiquiatria Clínica, vol. 33 (1), pp. 3-9.

Caballo, V. E., Bautista, R., López-Gollonet, C., & Prieto, A. (2008). O transtorno da personalidade esquiva. Em V. E. Caballo (Org.), Manual de transtornos da personalidade: Descrição, avaliação e tratamento. São Paulo: Santos.

Skinner, B. F. (1981). Selection by consequences. Science, New Series, vol. 213 (4507), pp. 501-504.

van Velzen, C. J. M., Emmelkamp, P. M. G., & Scholing, A. (2000). Generalized social phobia versus avoidant personality disorder: Differences in psychopathology, personality traits and social and occupational functioning. Journal of Anxiety Disorders, vol. 14 (4), pp. 395-411.

Weinbrecht, A., Schulze, L., Boettcher, L., & Renneberg, B. (2017). Avoidant personality disorder: A current review. Current Psychiatry Reports.  

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