A história de vida de cada animal e o desenvolvimento das espécies colocam cada ser vivo em alguma condição de incapacidade, pela própria adaptação ao ambiente que se modifica. Tornar-se pessoa é tornar-se vulnerável a partir dos ambientes que se desenvolve.


A ilustração mostra macacos com condições diferentes e, dependendo do contexto, viverão condições de vulnerabilidades distintas.

Ser homem e ser mulher envolvem especificidades nas vulnerabilidades na história de vida na realidade brasileira. Zanello (2018) descreve, a partir de seu olhar psicanalítico, contingências culturais sobre as formas diferentes que homens e mulheres sofrem, expressam sentimentos e adoecem. As exigências sociais da cultura sexista estabelecem critérios sobre o tornar-se pessoa, o que acaba sendo equivalente a tornar-se homem ou mulher. Algumas dessas exigências são descritas e apresentadas como fortes condições para estabelecerem o sofrimento entre homens e mulheres.

As características socioculturais atuais estão selecionando cada vez mais sofrimento emocional, transtornos mentais como a depressão (Nico, Leonardi & Zeggio, 2015). Visto que a seleção comportamental só ocorre diante de variação dos mesmos (Skinner, 1953/2003), necessita-se emitir diferentes comportamentos para a adaptação da própria espécie no contexto atual. Comportamentos que descrevem a vulnerabilidade parecem fazer parte do que é necessário para melhorar a saúde emocional humana de maneira geral.

Skinner não criou o conceito de vulnerabilidade na Análise do Comportamento, mas com o nascimento e desenvolvimento das Terapias Comportamentais Contextuais – Terapia de Aceitação e Compromisso (ACT), Psicoterapia Analítica Funcional (FAP), Terapia Comportamental Dialética (DBT) e a Terapia Comportamental Integrativa de Casais (IBCT)
(Kohlenberg & Tsai, 1991; Linehan, 2010; Christisen, Doss & Jacobson, 2018; Saban, 2015) – surgiram conceitos e análises sobre o comportamento a partir de pesquisas com humanos. Ouso aqui tentar definir operacionalmente vulnerabilidade como uma classe de respostas, que podem ser respondentes e/ou operantes, com a função de descrever sentimentos, pensamentos e ações sobre inabilidade diante de uma dada situação no ambiente privado ou público. E é exatamente este o desafio de sentir-se vulnerável ou expor a vulnerabilidade: estamos num contexto social que não se permite ser vulnerável. Precisamos dar conta de diversos papéis, sem perdas de tempo, de dinheiro, de pessoas, de saúde, ter e ser cada vez mais… A sociedade atual é contexto que exerce função de estímulo delta para a emissão de comportamentos de exposição de vulnerabilidade. Assumir tal característica consiste em se comportar diante de contextos com função de estímulo delta, ou seja, que sinalizam consequências punitivas, mais especificamente punições condicionadas generalizadas.

Atualmente, o contexto que torna o comportamento de expor as próprias vulnerabilidades um desafio pode ser caracterizado com muitas exigências sociais para estar bem, feliz e por pior que se esteja, deve-se pensar num lado positivo e tentar sentir-se melhor. Esta estratégia pode funcionar em algumas situações. Esquivar-se da própria vulnerabilidade pode funcionar (sendo retirado ou evitando o contato com o estímulo aversivo) a curto prazo mas não funcionar a longo prazo, e o que fazer diante desta situação? É entrando em contato com falta de manutenção do comportamento de esquivar-se da própria vulnerabilidade (ou seja, a extinção do comportamento de esquiva) que tal comportamento poderá diminuir de frequência. O sofrimento aumenta quando os sentimentos ditos socialmente como “ruins” não podem ser controlados. É comum clientes que chegam nos consultórios em busca de novas estratégias, cada vez mais eficazes para diminuir a ansiedade, medos, vergonha, timidez, tristeza, ou seja, para diminuir sentimentos que uma história de vida demorou para ensinar a sentir.

Quando ressalto a importância de assumir a própria vulnerabilidade refiro-me a uma autodescrição de comportamentos privados de uma pessoa. Seria tatear os sentimentos e pensamentos. Assim como no operante verbal, essa classe de respostas estaria sob controle dos estímulos antecedentes – sentimentos e pensamentos – e não dos consequentes – punições sociais (Skinner, 1957/1978). Alguns exemplos seriam: dizer eu te amo primeiro, falar alguma característica que você não tem orgulho e ninguém gostaria de ter.

Quando comecei a pensar em escrever este texto sobre vulnerabilidade listei logo alguns pontos para facilitar o desenvolvimento do texto de maneira objetiva, em terceira pessoa, como espera-se de um texto acadêmico, e ao longo da escrita pensei o quanto estava me distanciando também dessa característica que tanto precisamos viver – a condição de se expor, de colocar-se enquanto pessoa. Por isso, aqui começo a escrever diferente e falar o quanto é, também, um desafio para mim escrever de maneira mais pessoal, visto que textos acadêmicos (e a ciência em geral) adotam a impessoalidade por diversos motivos. O que estou fazendo é uma descrição do contexto que vivenciamos e a emissão de comportamentos diferenciados diante dele. É um exemplo do que é desconfortável, diferente, além de correr risco de descréditos e críticas por escrever desta maneira. E mesmo assim estou escolhendo esta alternativa para mostrar um exemplo de se mostrar vulnerável.  A vulnerabilidade é conceituada pelo senso comum como a característica principal de quem é ou está vulnerável, e este por sua vez significa ser ou estar ferido, frágil, prejudicado, ofendido, sujeito que pode ser atacado, derrotado (pesquisa feita pelo dicionário do Google).

O desafio é perceber-se, aceitar-se e expor a própria vulnerabilidade sem garantias de reforço social, sem ter treino ou até mesmo tendo modelos que descrevem contingências punitivas do comportamento. E aí, nós, como analistas do comportamento, já estamos com a lupa, buscando quais reforços manteriam tais comportamentos. A resposta talvez seja que a própria e única experiência seja reforçadora. A experiência de ser quem se é, de buscar contextos que façam sentido viver os custos de uma escolha que valha a pena, ou seja, uma escolha alinhada com valores de vida. A totalidade dessa experiência pode manter pessoas assumindo vulnerabilidades, assumindo o que tem a aprender e respeitando as vulnerabilidades de quem esteja por perto. A psicoterapia pode ser o contexto inicial para esta exposição e alguns contextos na sociedade atual não.

Essa imagem é uma metáfora que pode ser lida de múltiplas formas. Nunca teremos a bagagem necessária para os desafios que teremos. Muitas vezes carregamos “bagagens” que não são nossas, que nos impedem de caminhar na direção que é importante no momento. Perceber e assumir que é difícil carregar tantas coisas podem ter consequências muito valiosas, é preciso se expor!

De acordo com Brown (2016), assumir a própria vulnerabilidade consiste em se comportar sem garantias, sem ter conhecimento, previsão ou controle do que virá depois. De acordo com a autora, a vulnerabilidade pode promover a conexão entre as pessoas, pois o que há de belo e único em cada um é a vulnerabilidade. De acordo com a autora, ser vulnerável é ser corajoso para experimentar sensações intensas, as quais dão sentido na vida e direcionam para uma vida plena.

As Terapias Comportamentais Contextuais tem objetivo de aumentar o sentido da vida, a busca por vidas valiosas e plenas para quem as busca (tanto psicólogos como os clientes) (Kohlenberg & Tsai, 1991; Linehan, 2010; Christisen, Doss & Jacobson, 2018; Saban, 2015). Viver plenamente baseia-se, para essas terapias, caminhar em direção dos valores e propósitos de vida e lidar com todas as emoções e pensamentos no presente, o que envolve comportar-se com as vulnerabilidades. Todas elas têm olhares e abordagens cuidadosos sobre a vulnerabilidade, valorizam o acolhimento das vulnerabilidades na relação terapêutica e treino para a generalização dessas habilidades para relações fora da psicoterapia. Nos próximos textos serão abordados como cada uma dessas Terapias percebem, observam e modelam a maneira de lidar com a vulnerabilidade humana em terapia.

Bronw, B. (2016). A coragem de ser imperfeito. (traduzido por J. Macedo). Rio de Janeiro: Sextante.

Crhistisen, A., Doss, B.D. & Jacobson, N.S. (2018). Diferenças Reconciliáveis: reconstruindo seu relacionamento ao redescobrir o parceiro que você ama, sem se perder. (Traduzido por M. R. S.W. Lins, e M. Rozman). 2ª Ed. Novo Hamburgo: Sinopys.

Kohlenberg, R. J., & Tsai, M. (1991). Functional Analytic Psychotherapy: a guide for creating intense and curative therapeutic relationships. NY: Plenum.

Linehan, M. M. (2010). Terapia Cognitivo-Comportamental para Transtorno da Personalidade Borderline. Porto Alegre: Artmed.

Nico, Y., Leonardi J. & Zeggio, L. (2015). A Depressão como Fenômeno Cultural da Sociedade Pós-moderna – Parte I: Um Ensaio Analítico-Comportamental dos Nossos Tempos. São Paulo. (e-book).

Saban, M.T. (2015). Introdução à Terapia de Aceitação e Compromisso. Belo Horizonte: Artesã.

Skinner, B. F. (1978). Comportamento verbal (Traduzido por M. P. Villalobos) São Paulo: Cultrix. (Trabalho original publicado em 1957).

Skinner, B. F. (2003) Ciência e comportamento humano. (Traduzido por J. C. Todorov & R. Azzi). São Paulo: Martins Fontes. (Trabalho original publicado em 1953).

Zanello, V. (2018). Saúde mental, gênero e dispositivos: cultura e processos de subjetivação. Curitiba: Appris.

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