Treinamento de Habilidades em DBT para adolescentes: como foi em Manaus

A perspectiva de uma treinadora

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Atividade de Mindfulness guiada por uma participante

A Terapia Comportamental Dialética, comumente chamada pela sigla ‘DBT’ no Brasil, foi criada pela Dra. Marsha Linehan, do Estados Unidos, para tratar pessoas que apresentam desregulação emocional severa ou crônica, que sofrem intensamente e, diante disso, têm dificuldades em regular o que sentem ou fazem, muitas vezes levando-as a recorrer a comportamentos disfuncionais ou de risco, como cortar-se, usar drogas ou até considerar suicídio. (Linehan, 1993). A abordagem Comportamental Dialética, baseada em evidências científicas, se apresenta como sendo um tratamento eficaz que ajuda indivíduos a criarem vidas que valham a pena ser vividas, reduzirem os comportamentos de risco e aumentarem habilidades funcionais na resolução de problemas (Linehan, 1993).

Com o avanço continuo das pesquisas, a DBT também passou a ser usada para uma vasta gama de problemas clínicos, mostrando eficácia com diferentes grupos de pacientes. Entre esses, adolescentes também recebem tratamento DBT que, com amplo apoio científico, foi desenvolvido pelos Doutores Jill Rathus e Alec Miller (2007), com suporte da pioneira Dra. Marsha Linehan. Nesse programa, o Treinamento de Habilidades Multifamiliar é essencial para tratamento de jovens que apresentam sinais de desregulação emocional.
O treino de Habilidades é feito em grupo e geralmente incluem os pais. Seguindo o formato original, os jovens participam de terapia individual e do treino de habilidades. Adicionalmente, jovens, pais e/ou responsáveis, contam com acesso ao coaching sob demanda em caso de crises ou no suporte para generalização das habilidades. Além desse formato, algumas variações são possíveis, como treino de habilidades para jovens e pais ministrados separadamente, ou em diferentes contextos, como escola ou outras instituições, e ainda assim demonstram eficácia clinica.

Em 2018, Manaus, no norte do Brasil, teve a oportunidade de experimentar uma versão desse tratamento para adolescentes. Superando a adversidade da escassez de profissionais especializados na região, um grupo de terapeutas formou o 1o. Treinamento de Habilidades em DBT para Adolescentes.

Seis adolescentes entre idades 15 e 18 anos, durante 16 semanas, participaram dos encontros semanais voltados a ensiná-los habilidades que os ajudassem a regular suas emoções e seus comportamentos. Os pais foram convidados a participarem com os jovens em encontros pontuais durante o processo. Juntos, pais e filhos participaram ativamente dos módulos de Orientação, Mindfulness e Caminho do meio, tendo em vista que a participação dos pais é fundamental no tratamento dos adolescentes.

Os encontros, que seguiam o protocolo de prática de mindfulness, revisão de tarefas, intervalo, apresentação de novo conteúdo e exercícios práticos, contaram com o envolvimento dos jovens durante todos os 4 meses de tratamento. O material, adaptado à “linguagem jovem”, ofereceu conteúdos significativos para eles, que os ajudaram a lidar com dificuldades em controlar suas emoções em casa, com colegas, na escola e nos relacionamentos. As corriqueiras práticas de mindfulness se tornaram tão atrativas que os próprios jovens quiseram (e tiveram) a oportunidade de guiá-las ao longo do curso. A filosofia dialética se mostrou essencial para que os encontros fluíssem de modo a evitar polarizações e rigidez de comportamentos. Houveram choques de opiniões e comportamentos? Sim, sem dúvida! Houveram crises? Várias vezes! Contudo, a experiência vivencial, somada a atuação especializada da equipe de treinadores, ajudou as famílias a contornarem situações como essas e adicionarem ao leque de opções, novas maneiras de lidarem com seus conflitos.

Um ponto alto dos encontros foi durante o módulo Caminho do Meio, onde pais e filhos entram em contato teórico e prático com estratégias de mudanças comportamentais, validação e dialética. Definitivamente, uma experiência que provou ser inusitada para alguns participantes, oferecendo inclusive momentos de grande resistência. Afinal, é difícil pensar sobre as coisas de uma maneira diferente da que estamos acostumados; ainda que essa nova perspectiva seja mais efetiva e nos leve mais próximos dos nossos objetivos. Mudar é difícil E possível! Sem dúvida requer compromisso e treino; regado, obviamente, a muita validação.

No fim dos nossos encontros, cada família recebeu um broto de feijão com os dizeres Mente Sábia. Foi explicado que a prática de acessar nossa Mente Sábia requer cuidado e atenção, bem como os ingredientes certos, assim como o feijão, que para crescer precisa de água, sol e terra fértil. Esses cuidados são necessários dia após dia!

Como treinadora do Treino de Habilidades para Adolescentes em Manaus, houveram diversos desafios. Tive oportunidade de praticar comigo mesma estratégias de regulação emocional, tolerância ao mal estar e Mindfulness. Procurando ser interpessoalmente efetiva ao lidar com pessoas, me peguei em alguns momentos, priorizando meus objetivos nas interações com os participantes. Houveram momentos em que eu queria passar conhecimento, outros onde preservar o relacionamento falou mais alto. Cada encontro gerou em mim uma série de emoções. O que me manteve focada e motivada? Minha equipe de consultoria; reuniões regulares foram salvadoras. Me resgataram de momentos onde achei que não esta fazendo nada útil ou quando não tive certeza se sabia mesmo como fazer as coisas. Minha equipe de consultoria foi a síntese – o caminho para minha Mente Sábia – em equilibrar de forma efetiva, a transação entre minha maneira passional de falar sobre DBT e o focar nas necessidades específicas de cada família. Em suma, foi um sucesso!

Linehan, M. (1993). Cognitive-behavioral treatment of borderline personality disorder. New York: Guilford Press.

Miller, A. L., Rathus, J. H., & Linehan, M. (2007). Dialectical behavior therapy with suicidal adolescents. New York: Guilford Press.

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