Cada ciência, uma viagem

As boas ideias começam com descobertas de novos lugares e culturas.

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“[…] não precisamos saber pra onde vamos

Nós só precisamos ir

Não queremos ter o que não temos

Nós só queremos viver

Sem motivos, nem objetivos

Estamos vivos e isso é tudo

É sobretudo a lei

Dessa infinita highway”

(Infinita Highway – Terra de Gigantes – Engenheiros do Havaí – 1987)

A evolução como fato científico revolucionou a ciência do século XIX, estabeleceu a biologia como ciência unificada, estimulou o desenvolvimento de estudos populacionais que favoreceram estudos em estatística, agronomia, genética de populações, antropologia, sociologia e economia (Mayr, 2005). Seu impacto sobre a psicologia foi fundamental também para a constituição de um ramo naturalista para os estudos científicos sobre o comportamento humano e não humano. Tudo isso são fatos listados em qualquer bom livro de história da psicologia científica. Contudo, nem sempre os livros nos deixam claro as condições materiais que tornaram uma idéia ou prática científica possível.

A ciência não evoluiu pelo desenvolvimento racional e ininterrupto das idéias e dos sistemas teóricos (Bourdieau, 1997). Ciências são práticas humanas e evoluem a partir das experiências humanas (Bourdieau, 1997). Meu objetivo aqui é apenas um, argumentar sobre o papel que viagens e de uma cultura de descoberta teve sobre a organização de práticas psicológicas baseadas em ciências naturais. Foi me basear em algumas fontes de relevância histórica, mas este não é e não se pretende um estudo historiográfico, apenas um ensaio sobre a importância do reconhecimento da diversidade da vida, da natureza e da cultura humana sobre a formação de cientistas e do desenvolvimento da ciência.


Figura 01: pensadores viajantes. À esquerda, Alexander Von Humboldt (1769-1859) naturalista e precursor do uso de métodos etnográficos para compreensão de hábitos e culturas então desconhecidas para povos europeus.  No centro, Charles Robert Darwin (1809-1882) por volta dos seus 20 anos, período em que embarcara na viagem à bordo do H.S.M. Beagle. À direita, William James (1842-1910), em uma fotografia durante sua estadia no Brasil em 1865 acompanhando seu mentor Louis Agassiz como assistente de pesquisa e co-responsável pela descrição anatômica e catalogação de espécimes.

Com o crescimento do comércio intercontinental entre a Europa, África, Ásia e América entre os séculos XVII e XIX, houve um maior interesse pelo conhecimento oceanográfico, geológico, geográfico, lingüístico e cultural, além da necessidade de produzir e organizar este conhecimento de maneira especializada (Burke, 2012). Neste contexto, surgiu a figura do naturalista, um intelectual dedicado à catalogação de evidências e produção de documentos que registrassem informações relevantes para expedições futuras e para a promoção das trocas culturais e conhecimento estratégico sobre esses novos territórios (Burke, 2012). Alexander Von Humboldt foi um destes notórios naturalistas que não se restringiu a um trabalho de secretariado, mas também dedicou seu tempo à construção de hipótese acerca da dinâmica geológica dos continentes e da regularidade e previsibilidade das correntes de ar ao longo do globo terrestre (Wolf, 2015). Os trabalhos de Humboldt revelam a importância do naturalista para o desenvolvimento científico que se observava nestes tempos. Por um lado, registrando em primeira mão e com o devido critério científico a natureza ao seu redor, por outro, produzindo informações que seriam revistas, armazenadas, integradas e reinterpretadas nas bibliotecas e arquivos nacionais, museus de história natural, observatórios astronômicos e universidades das principais cidades européias (Burke, 2012; Wolf, 2015).

Como seu avô Erasmus antes dele, Charles Robert Darwin foi um entusiasta dos estudos naturalísticos e posteriormente se tornaria o maior nome da História Natural de meados do século XIX e fundador da biologia moderna. Esse legado intelectual começou com boas e vastas observações sobre a natureza que se fizeram possíveis ao longo de sua viagem junto ao navio H.S.M. Beagle cuja missão durou de 1831 até 1836. Foi em uma dessas experiências no Beagle que Darwin começou a aceitar a evolução como um processo natural. Em 1832, Darwin identificou o processo básico que permite aos seres vivos se transformar ao longo do tempo: a descendência com modificação. Ao longo das gerações as proles (i.e. os filhotes) vão acumulando diferenças individuais em relação aos seus progenitores. Darwin demoraria pelo menos mais 08 anos (até 1840) para explicar como a seleção natural dá base para essa descendência com modificação, mas a evolução como processo natural foi identificado por Darwin ainda durante as viagens do H. S. M. Beagle.

O evolucionismo se disseminou entre a comunidade científica de meados do século XIX. Entre entusiastas e outros céticos, a evolução veio ao centro do picadeiro com evolucionistas darwinistas, não darwinistas e catastrofistas de diferentes matizes teóricos (Mayr, 2005). O impacto da teoria darwinista e do imaginário das viagens do Beagle alimentaria as gerações seguintes de naturalistas, inclusive de um acadêmico que – apesar de não ser conhecido como aventureiro – teve uma importante experiência como naturalista que tranformaria sua forma de ver o mundo e – segundo se argumenta atualmente (Machado, 2011) – sua ciência e filosofia: William James.


Figura 02: esboço da árvore da vida como encontrado nos cadernos de viagem de Charles Darwin a bordo o H. S. M. Beagle em 1832.

Figura 03: tirinha do blog “Um Sábado Qualquer” produzido e mantido pelo cartunista Carlos Ruas.

James embarcou como assistente na expedição Thayer de Louis Agassiz ao Brasil em 1865. Em seu percurso pelo Brasil, conheceu o Rio de Janeiro, além de Belém-PA e Manaus-AM. Diferentemente do discurso de Agassiz sobre a degenração social brasileira que, segundo este, seria decorrente da miscigenação, as impressões de James sobre o Brasil e – em especial – das cidades amazônicas foi totalmente oposta. De seu conhecimento das urbes amazônidas e dos povos tradicionais, James passou a nutrir um entusiasmo e uma valorização das diferenças culturais como outras possibilidades de civilização, moralidade e razão. Sem pessimismo ou otimismo, William James reconheceu nos povos que encontrou pela Amazônia brasileira uma alternativa à noção de civilidade européia e o impacto disto sobre seu pensamento e obra ainda está por ser investigado (Machado, 2011).

O certo é que de seu trabalho naturalístico de catalogação de documentos e espécimes ao longo da expedição, até seu adoecimento com varíola, fez James reconhecer que o ofício de naturalista não era para si e – ao mesmo tempo – que a evolução era um fato natural legítimo e universal (Machado, 2011). Seu sistema psicológico se basearia nas premissas evolucionistas e isso seria a porta de entrada para entrada de métodos naturalísticos para o estudo do comportamento humano e de animais não humanos, para os estudos comparativos e desenvolvimentais e para formulação de teorias neuropsicológicas para a evolução da mente² (Kinouchi, 2006). Da psicologia experimental à psicologia aplicada, da etologia às neurociências cognitivas (passando pela análise do comportamento), a obra de James é seminal para psicologia científica por oferecer uma interpretação naturalística para a origem e evolução da mente não apenas entre humanos, mas entre a diversidade de grupos de seres vivos.

William James foi um dos pioneiros da psicologia nos Estados Unidos, abriu um laboratório de psicologia na Universidade de Harvard que co-dirigiu junto à Hugo Münsterberg (que se doutorou com Wundt em Leipizig) e participou da formação de eminentes nomes da psicologia americana tais como Mary Calkins, Granville Stanley Hall, James Rowland Angell, Edward Lee Thorndike, Edwin Bissel Holt entre outros. Além de ter publicado talvez o mais importante texto introdutório à Psicologia até meados dos anos 1950, seus Fundamentos de Psicologia (James, 1890; 1892), James também foi autor de textos importantes para a filosofia americana tais como seu livro Pragmatismo além de seus Ensaios sobre o Empirismo Radical.

William James era uma figura do século XIX, um viajante sim, mas um homem-cis, branco pertencente à elite econômica de uns Estados Unidos imersos em políticas de segregação racial e étnica. A vida e obra de James guardam traços, idéias e argumentos que refletem esse estado de coisas. Nunca é demais relembrar os recortes que estamos fazendo. É importante deixar claro que não se quer sugerir que o século XIX fosse um oásis para história humana ou uma experiência de puro racionalismo. O nacionalismo e o imperialismo europeus conheceriam seu apogeu neste mesmo século, a escravidão mercantil de africanos e o colonialismo foram em grande medida naturalizados e justificados por doutrinas que hoje chamaríamos pseudocientíficas, mas o que hoje leva esse prefixo “pseudo” já representou paradigmas com grande poder dentro e fora da ciência. A ciência é uma prática humana e está sujeita aos vieses de um momento histórico e um contexto social, cultural e geográfico.

Ainda assim, é importante reconhecer que essa globalização da ciência ocidental expandiu o escopo das teorias e parece ter servido como um convite para grandes projetos científicos e teórico-filosóficos como o de William James. Dada as limitações deste texto, só é possível imaginar ou especular sobre quanto essas grandes ambições ajudaram a fomentar os grandes sistemas teóricos que surgiriam na psicologia ao longo da primeira metade do século XX.

Se por um lado, não temos uma narrativa tão histórica entre os criadores desses sistemas do século XX, por outro podemos ter certeza que a psicologia do século XX se desenvolveu de maneira que deu cada vez mais conta da diversidade, no escopo dos organismos que estudou, na diversidade étnica e racial de seus cientistas e profissionais e no alcance social de suas ferramentas teóricas e tecnológicas. Fica ainda o desafio de ampliar essa diversidade e garantir que ela venha com respeito e reconhecimento dos vieses que a história nos legou. Quem sabe quanto ainda há por descobrir nas viagens que ainda estamos por fazer?

Notas

¹ Este trabalho foi apresentado na forma de palestra na programação do Darwin Day 2019, evento promovido pelo Museu de Zoologia da Universidade de São Paulo para promoção e para divulgação científica sobre evolução.

² Lembrando que James utilizava primordialmente o termo “mente” para definir o objeto da psicologia,. Os termos comportamento e cognição são mencionados como medida ou atributo de propriedades mentais (James, 1890; 1892).

Referências

Bourdieau, P. (1997). Os usos sociais da ciência. São Paulo: Editora Unesp.

Burke, P. (2012). Uma história social do conhecimento: II: da Enciclopédia à Wikipédia. Rio de Janeiro: Zahar.

Burke, P. (2016). O que é história do conhecimento? São Paulo: Unesp.

Darwin, C. R. (1876). On the Origin of Species by Means of Natural Selection, 6th Edition. London: John Murray. First Published in 1859.

James, W. (1890). The Principles of Psychology, Vol. 01. New York: Henry Holt and Company.

James, W. (1892). The Principles of Psychology, Vol. 02. New York: Henry Holt and Company.

Kinouchi, R. (2006). Darwinismo em James: A Função da Consciência na Evolução. Psicologia: Teoria e Pesquisa, 22(3), 355-362.

Machado, M. H. P. T. (2011). O Brasil no olhar de William James: cartas, diários e desenhos de 1865-1866. São Paulo: EdUsp.

Mayr, E. (2005). Biologia, ciência única: reflexões sobre a autonomia de uma disciplina científica. São Paulo: Companhia das Letras.

Wolf, A. (2015). A Invenção da natureza. São Paulo: Planeta de Livros.

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