AS TRAGÉDIAS, O COTIDIANO E O TERCEIRO NÍVEL DE SELEÇÃO

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O Brasil todo tem se mostrado muito comovido com a grande tragédia que foi o rompimento da barragem em Brumadinho – MG, no dia 25/01/2019. As proporções das perdas sofridas ainda estão sendo mensuradas: quantas vidas foram perdidas? Quantas famílias perderam seus entes queridos? Quantos animais morreram, e os que foram resgatados estão em que condições de saúde? Quais os impactos ambientais que a região sofreu?  E os econômicos?  Especialistas e estudiosos estão dedicados a mapear os números deste triste acontecimento.

Por meio das redes sociais e dos veículos de informação é possível ter acesso às ações em prol das vítimas: equipes de profissionais recrutados, profissionais e cidadãos voluntários têm sido – quem sabe – uma gota de socorro e alívio para os vitimados. A população geral tem demonstrado alívio ao saber de tais iniciativas. Campanhas para envio de suprimentos também foram realizadas em diversas regiões do país.

                Podemos analisar este trágico acontecimento como a condição antecedente para a emissão, por parte dos profissionais e voluntários, de respostas de empatia e solidariedade. Compõem o terceiro nível de seleção do comportamento: são os comportamentos socialmente desejados, selecionados e mantidos pelo seu valor reforçador para o grupo social.

                Diferente de respostas individualistas, cujas consequências são o benefício do indivíduo que se comporta, as respostas de terceiro nível de seleção produzem consequências que são reforçadoras para o grupo social (em diversas proporções: pode ser o núcleo familiar, a comunidade escolar, a cidade, o país…). A assistência prestada produzirá, em última instância, que aquele grupo social sobreviva e se mantenha existindo. A perpetuação de práticas culturais, sistemas econômicos e políticos é assim viabilizada.

                Diante de um evento de proporções tão grandiosas, conseguimos identificar mais claramente que a sobrevivência da população de uma região torna-se prioridade para o país, neste momento. As operações motivacionais que tornam as ações de resgate e socorro mais prováveis são o sofrimento tão intenso e a devastação de uma região tão grande. O risco de vida, a escassez de alimentos e de condições mínimas para sobrevivência são estímulos aversivos (incontestáveis), que aumentam o engajamento das pessoas em prol de minimizar os prejuízos deste episódio. Resumidamente, a privação destas condições de vida torna mais prováveis os comportamentos de solidariedade e cooperação.

                Ao pensar sobre toda esta mobilização, me deparei com a reflexão que trago para este texto: a população brasileira tem se mostrado habilidosa para prestar tal assistência e apoio e se solidarizar diante das necessidades dos demais membros da sociedade. Por que, então, atitudes mais simples e mais “triviais” andam tão escassas?


Extraído de https://cidadeape.org/2017/05/04/em-sao-paulo-978-dos-idosos-nao-conseguem-atravessar-a-rua-no-tempo-dos-semaforos/

Quantas vezes passamos pelas ruas (em veículos ou andando a pé) e vemos os pedestres se arriscando ao atravessá-las? Ou esperando longamente até poderem passar por uma faixa de pedestres? Uma mulher com criança de colo sem ajuda para carregar seus pertences em uma fila?

                Pequenas gentilezas, como frear o carro e permitir que um pedestre atravesse, ajudar um idoso com dificuldade para ler alguma informação, dar instruções para uma pessoa que pede ajuda, também são comportamentos da classe do terceiro nível de seleção. 

                Os antecedentes podem ser mais discretos: nem sempre temos notícias que mostram índices de espera para atravessar a rua ou quantos motoristas dão prioridade aos pedestres. Podemos passar desapercebidos por diversas situações cotidianas, nas quais os comportamentos de terceiro nível de seleção seriam benvindos, e mesmo necessários.

                Possivelmente, as operações motivacionais não são fortes o suficiente para evocar os comportamentos de solidariedade e parceria. Os estímulos aversivos aos quais me refiro dificilmente atingirão a pessoa que poderia prestar sua ajuda: o pedestre é que ficará no sol ou chuva esperando sua vez de atravessar, o idoso é que poderá cometer um erro por não ter tido acesso à informação correta, entre tantos outros exemplos possíveis.

                A impressão que me dá é que temos respondido apenas às operações motivacionais que alteram de forma muito drástica o valor dos estímulos (tanto aversivo quanto reforçador positivo). Se o sofrimento for pequeno, ou o ganho for muito pequeno, não nos movemos, ficamos onde estamos.  

                O risco disso é que os comportamentos de terceiro nível de seleção sejam enfraquecidos, e que precisemos de situações muito graves para que uns se comovam com a situação dos outros. E, no intervalo entre esses lamentáveis incidentes, estejamos engajados apenas em comportamentos e ações que nos tragam benefício claro, direto e pessoal.

Como psicólogos e analistas do comportamento, podemos pensar qual é o nosso papel para tentar estimular e incentivar práticas de terceiro nível de seleção com os nossos clientes de psicoterapia. Os comportamentos-alvo de intervenções psicoterapêutica compreendem aqueles que irão promover ao indivíduo bem estar e qualidade de vida, porém cabe ao profissional considerar o contexto sociocultural em que o cliente de psicoterapia está inserido.  Não cabe ao escopo de processos psicoterapêuticos incentivar  comportamentos que causem prejuízos ao grupo social para garantir o bem estar individual. O desenvolvimento pessoal, objetivo que leva muitos clientes à psicoterapia, não pode se tornar incompatível com o equilíbrio do ambiente social e com as Contingência de Reforçamento em operação na cultura.

Deixo em aberto também a reflexão para que cada um identifique o que desperta seus comportamentos de mostrar-se sensível ao outro….

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