A era da desconfiança

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Vivemos em uma época em que a desconfiança parece ser um elemento central que atravessa todos os níveis das relações humanas. Embora não seja um fenômeno novo, os tempos atuais parecem evidenciar uma generalização da desconfiança para qualquer coisa. No cotidiano e na clínica, relatos de que “hoje em dia não se deve mais confiar em ninguém” e “ele(a) deve ter alguma intenção por trás disso” são comuns e extrapolam o âmbito da linguagem, ou seja, podemos simplesmente evitar um relacionamento por não “confiar” que a outra pessoa está sendo sincera ou não irá nos prejudicar.

Mas, afinal, o que é, objetivamente, essa tal de desconfiança e por que ela parece marcar tão fortemente as nossas relações atuais?

Em primeiro lugar, podemos descrever a desconfiança como um padrão de comportamento que apresenta certas características, como suspeitar, sem um motivo razoável, de estar sendo explorado, maltratado ou enganado pelos outros, preocupar-se com dúvidas infundadas acerca da lealdade ou confiabilidade de amigos, sócios ou cônjuges, não confiar nos outros por acreditar que informações serão usadas maldosamente contra si, etc. (APA, 2014).

Quando os padrões de desconfiança se tornam muito acentuados e atrapalham a vida da pessoa, a psicopatologia classifica essas alterações com o nome de transtorno de personalidade paranoide (TPP). Segundo Beck, Freeman e Davis (2005), o indivíduo paranoide percebe a realidade de forma incorreta e atribui ao outro aquilo que existe verdadeiramente em si. Sentem-se vulneráveis em relação ao mundo e veem os outros como enganadores, malevolentes e manipuladores, podendo sentir raiva por qualquer forma de abuso percebida (Vasques & Abreu, 2011, citados por Schmidt & Méa, 2013).

Estas características, embora importantes para a compreensão do paranoide e da grande prevalência desse comportamento nos dias atuais, não indicam a função do comportamento nem as circunstâncias sob as quais ele ocorre. A despeito da desconfiança ou da paranoia assumir um caráter patológico ou não para a psiquiatria, para a análise do comportamento, ela só pode ser entendida através da identificação de três elementos: das respostas específicas, dos contextos em que ela ocorre e das consequências que produz. Essa formulação irá nos revelar como o comportamento se estabelece e se mantém (Banaco, Zamignani & Meyer, 2010).

Desta forma, dizer que alguém é paranoico ou muito desconfiado e explicar o seu comportamento por estes termos pouco ajuda. É mais produtivo observar em que situações a pessoa age assim e que consequências produz. Por exemplo, se uma pessoa questiona sobre onde estava o seu parceiro com um tom de voz áspero todas as vezes que ele chega em casa, podemos considerar isso um comportamento paranoide. O contexto é o parceiro não estar em casa. Supondo que este parceiro dê atenção e se justifique todas as vezes em que é questionado, é provável que ele esteja reforçando o comportamento desconfiado.

Além disso, dois outros pontos são importantes aqui. Devemos sempre observar a história individual do sujeito paranoico. É nesta história que encontraremos os principais elementos explicativos para o comportamento atual. Tomando o exemplo acima, podemos supor que o sujeito tenha sido traído diversas vezes em relacionamentos anteriores e tenha aprendido a desconfiar em qualquer relacionamento para evitar uma nova traição. Eventos históricos gerais como regras na infância para ser cauteloso com as pessoas, ambientes familiares instáveis e bullying podem contribuir para a aquisição de um padrão paranoide (Beck et al., 2005, Barlow & Duand, 2008, citados por Schmidt & Méa, 2013).   

Um segundo ponto é que o comportamento de desconfiar pode ter contribuído ou ter sido vantajoso para a sobrevivência da espécie. Se olharmos a desconfiança do ponto de vista reflexo, ou seja, como um conjunto de alterações corporais ou perceptivas que indicam algum tipo de perigo, ela pode ter servido e continuar servindo para nos proteger de perigos reais. Ou seja, você se sentir desconfiado diante de alguém que conhece a pouco tempo e não levar essa pessoa para sua casa, pode realmente lhe proteger de ser roubado, por exemplo.

Da mesma forma que um reflexo de sucção é um comportamento inato com valor de sobrevivência para a nossa espécie (Moreira & Medeiros, 2019), é possível que tenhamos nascido também com uma pré-disposição inata para desconfiar dos outros como forma de sobreviver no mundo social.

Bom, uma combinação de variáveis genéticas, pessoais e culturais parece dar conta de explicar os padrões de desconfiança que observamos nas pessoas em geral. No entanto, quero enfatizar aqui a suposição de que o nosso contexto social atual é o elemento que mais favorece uma desconfiança ou paranoia generalizada.

Se olharmos o cenário geral da política, por exemplo, verificamos que há uma desconfiança geral desta classe que aumentou consideravelmente nos últimos anos. Escândalos de corrupção generalizada sendo expostos acabam produzindo uma regra social de que “não se deve confiar em político”. Tal regra e os comportamentos de desconfiança associados parecem estar se generalizando facilmente para os mais diversos âmbitos, ou seja, passamos a desconfiar com mais força do nosso chefe, dos nossos colegas, amigos, parceiros, dos vendedores de uma loja, e assim por diante.

Passamos a ter uma sensação de que confiar é perigoso, pois as pessoas podem, de alguma forma, nos enganar e nos prejudicar. “Eu confio desconfiando”, frase que tenho ouvido com mais frequência do que em qualquer outra época. Em uma linguagem cotidiana, podemos dizer que grande parte das pessoas anda “armada” ou “em guarda” atualmente, ou seja, ficam em estado de alerta para qualquer sinal de que podem estar sendo enganadas e tem enorme dificuldade em confiar verdadeiramente. Está instalado o ambiente paranoide, que contamina facilmente qualquer indivíduo ou grupo social.

O grande problema é que esse padrão de desconfiança excessivo, embora possa nos proteger de danos reais, também implica em consequências aversivas, como, por exemplo, altos níveis de ansiedade nas relações sociais e perda de oportunidades, como não iniciar um novo relacionamento.

Termino esse texto chamando atenção para a relevância dos terapeutas estarem sensíveis a comportamentos excessivamente desconfiados de seus clientes e o quanto isso pode estar interferindo na qualidade dos seus relacionamentos sociais. Uma proposta clínica de construir repertórios de confiança – em si mesmo e nos outros – parece bastante apropriado para clientes com esse tipo de padrão. Não poderia deixar de propor uma reflexão sobre a próprio comportamento desconfiado do terapeuta. Você, enquanto terapeuta, confia realmente nos seus clientes? Confia em si mesmo? Será que, de algum modo, você reforça a era da desconfiança atual?  

  

Referências

APA (2014). DSM-V: Manual Diagnóstico e Estatístico dos Transtornos Mentais. Porto Alegre: Artmed.

Banaco, R. A., Zamignani, D. R., & Meyer, S. B. (2010). Função do comportamento e do DSM: Terapeutas analítico-comportamentais discutem a psicopatologia. Em E. M. Tourinho e S. V. de Luna (Orgs.), Análise do Comportamento: Investigações históricas, conceituais e aplicadas (pp. 175-191). São Paulo: Roca.

Beck, A. T., Freeman, A., & Davis, D. D. e col. (2005). Terapia cognitiva dos transtornos da personalidade. Porto Alegre: Artmed.

Moreira, M. B., & Medeiros, C. A. (2019). Princípios básicos de análise do comportamento (2. ed.). Porto Alegre: Artmed.

Schmidt, D. R., & Méa, C. P. D. (2013). Transtorno de personalidade paranoide dentro do enfoque cognitivo-comportamental. Revista de Psicologia da IMED, vol. 5 (2), pp. 77-83.

        

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