Um breve panorama sobre o estudo do comportamento verbal

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Em meu texto de estreia para a coluna RFT e relações derivadas, decidi começar apresentando aos leitores um tema importante na psicologia como um tudo: um panorama sobre o estudo da linguagem. Aqui, mais especificamente, sobre o estudo da linguagem dentro da análise do comportamento. Abordo brevemente o continuum do estudo na nossa área partindo de Skinner a Sidman para a elaboração da RFT e onde nos situamos hoje.

O “Começo” – Skinner e o comportamento verbal

A psicologia, em suas diferentes tradições, sempre se preocupou com a linguagem e o pensamento humano.Skinner (1957) em O Comportamento Verbal define linguagem como qualquer comportamento emitido por um falante que é reforçado pela mediação de um ouvinte especialmente preparado, que por sua vez dá origem à múltiplas classes de comportamento verbal (os operantes verbais: mandos, ecoicos, textuais, transcrição, ditado, intraverbais, tatos, tatos estendidos e autoclíticos). Skinner (1953) também argumenta que o comportamento humano deve ser passível de uma análise científica e rigorosa, ( e isso inclui o fenômeno da linguagem, afinal linguagem é comportamento.

Embora esses conceitos de operantes verbais tenham sido usados extensivamente em programas de educação corretiva (Lovaas, 1981), o texto de Skinner não gerou um programa de pesquisa básica em linguagem humana que fosse vibrante e produtivo (o mesmo, inclusive, dizia que seu livro era um exercício em interpretação). Um provável motivo para tal é de que muitos dos operantes verbais que ele definiu poderiam ser estudados no laboratório de pesquisa com não humanos. Por exemplo: quando um rato aprende a pressionar uma barra em troca de comida em uma câmara operante, a resposta de pressão à barra pode ser  interpretada como um tipo de mando: “Me dê comida”. (Hayes, Blackledge & Barnes-Holmes, 2001). Ainda assim, a primeira abordagem skinneriana para linguagem era uma visão conceitual, e havia pouca motivação para se estudar linguagem no animal humano. Isso mudou com o estudo do comportamento governado por regras, numa tentativa de explicar o comportamento do ouvinte. Skinner (1969) define regras como estímulos especificadores de contingência (ex: ao emitir-se uma regra, esta instrução irá atuar como estímulo discriminativo para o ouvinte). Skinner, no entanto, não definiu em termos funcionais o que é essa “especificação”.

A descoberta da equivalência de estímulos

 No início dos anos 70, Sidman relatou um efeito comportamental em sua pesquisa na aquisição de habilidades básicas de leitura em indivíduos com déficits de aprendizagem (Sidman, 1971). Esse efeito ficou posteriormente conhecido como equivalência de estímulos e foi o início de uma  a explicação analítico-comportamental da comunicação e pensamento simbólico. O efeito básico da equivalência de estímulos envolve uma série de treinos de respostas de “correspondência” (matching) que poderiam ser facilmente explicadas em termos de contingências de reforçamento direto, mas comportamentos de matching emergentes  eram frequentemente observados e difíceis de explicar nos termos de princípios comportamentais estabelecidos por serem relações comportamentais que eram aprendidas sem um treino direto e contingente (Sidman, 1994). Argumenta-se, então, que Sidman ofereceu uma interpretação analítico-comportamental do fenômeno de “significado”; as coisas “fazem sentido” para os outros por esses estímulos verbais participarem de uma mesma classe de equivalência, o que sugere que isto pode ser exclusivo, ou ao menos altamente predominante, em humanos.

O Responder Relacional Arbitrariamente Aplicável

A extensão do trabalho de Sidman para o campo do comportamento governado por regras se deu com a abordagem de Hayes e Hayes (1989) sobre a equivalência de estímulos ser uma classe operante do responder relacional arbitrariamente aplicável (RRAA). De acordo com esta visão, uma história de reforçamento de relações entre estímulos estabelece padrões particulares de operantes generalizados chamados de molduras relacionais (Barnes-Holmes, Barnes-Holmes, & Cullinan, 2000).

No livro seminal da RFT (Hayes, Barnes-Holmes & Roche, 2001) é utilizada a unidade básica da moldura relacional para fornecer explicações analítico-funcionais para áreas específicas da linguagem e cognição humanas, sendo o comportamento governado por regras uma destas áreas. De acordo com a RFT, uma regra (ou instrução) pode ser considerada uma rede de molduras relacionais, tipicamente envolvendo relações de coordenação e temporalidade, com dicas contextuais que transformam funções comportamentais específicas. Desde então, a RFT têm fornecido base para explicações analítico-funcionais para diversos temas da psicologia como inteligência, cognição implícita, preconceito, self e assim por diante (Hughes & Barnes-Holmes, 2016b). 

Pesquisadores da área recentemente trouxeram uma contribuição para a área que eles chamam de uma estrutura multidimensional, multinível (MDML) para analisar o RRAA (Barnes-Holmes et al., 2017). De acordo com essa estrutura, o RRAA pode ser conceitualizado, em amplo sentido, se desenvolvendo desde o vínculo mútuo a redes simples envolvidas em molduras para redes mais complexas envolvidas em regras e instruções para a relação de relações às redes relacionais envolvidas no raciocínio analógico para até ao relacionar redes relacionais. Essa estrutura também conceitualiza cada um desses níveis como tendo múltiplas dimensões: derivação, complexidade, coerência e flexibilidade. O MDML, ao se organizar em cinco níveis e quatro dimensões que se interseccionam, produz vinte unidades de análise comportamental: as FAARQs – functional-analytic abstractive relational quanta.

Em termos simples: Derivação se refere a quão bem foi praticada uma instância particular do RRAA, ou seja, na primeira vez que um RRAA é emitido a derivação será alta, porém após repetidas instâncias dessa classe o nível de derivação irá cair (ex: “Nossa, eu nunca tinha pensado nisso”, ou os famosos insights). Complexidade se refere ao nível de detalhe ou densidade de um padrão particular de RRAA; um RRAA envolvendo apenas vínculo mútuo é via de regra mais simples do que um RRAA envolvendo vínculo combinatório (ex: dizer “sou uma pessoa ruim” e “em alguns momentos tenho pensamentos que sou uma pessoa ruim” envolve níveis diferentes de RRAA). Coerência se refere à medida que um RRAA é amplamente previsível baseada em uma história anterior de reforçamento. Por exemplo: A frase “Um rato é maior que um elefante” seria tipicamente recebida como baixa em coerência dentro das redes relacionais que operam na comunidade verbal podendo até tal resposta verbal ser punida. No entanto, tal frase pode ser coerente em certos contextos, como em uma brincadeira onde dizer que o “do contra” é a regra do jogo. Flexibilidade se refere à medida em que uma dada instância de RRAA pode ser modificada por variáveis contextuais atuais. Imagine que a uma criança se pede para que responda qual é a resposta incorreta para a pergunta: “Quem é maior, o rato ou o elefante?” Quão mais facilmente isso for atingível, mais flexível o RRAA. Quando visualizada através das lentes do MDML, a RFT apresenta uma força potencial para analisar mais rapidamente as complexidades e dinâmicas da comunicação e pensamento simbólico humano.

Possivelmente pode-se especular que a habilidade do RRAA é uma característica definidora da espécie humana e que sua compreensão pode levar a maior variação no comportamento e a potencial aquisição de novos comportamentos que servem ao aumento da sobrevivência em múltiplos níveis-de indivíduos, grupos e espécies. Minha intenção até aqui foi de apresentar brevemente como a análise do comportamento tem estudado o comportamento verbal, desde as ideias iniciais de Skinner até os dias atuais com as propostas mais recentes da RFT. Obrigado pela leitura!

Referências

Barnes-Holmes, D., Barnes-Holmes, Y., Luciano, C., & McEnteggart, C. (2017) From the IRAP and REC model to a multi-dimensional multi-level framework for analyzing the dynamics of arbitrarily applicable relational responding. Journal of Contextual Behavioral Science, 6 (4), 434-445

Hayes, S. C., Barnes-Holmes, D., & Roche, B. (2001) Relational frame theory: A post-Skinnerian account of human language and cognition. New York : Plenum.

Hayes, S. C., Blackledge, J. T., & Barnes-Holmes, D. (2001) Language and cognition: Constructing an alternative approach withing the behavioral tradition. In. S. C. Hayes, D. Barnes-Holmes, &  B. Roche (Eds.), Relational frame theory: A post-Skinnerian account of human language and cognition. New York : Plenum.

Hughes, S., & Barnes-Holmes, D. (2016b) Relational frame theory: Implications for the study of human language and cognition. In R. D. Zettle, S. C. Hayes, D. Barnes-Holmes, & A. Biglan (Eds.) The Wiley handbook of contextual behavioral science. West Sussex, UK: Wiley-Blackwell

Lovaas, O. I. (1981) Teaching developmentally disabled children: The ME Book. Austin : TX: Pro-Ed.

Skinner (1953/2003) Ciência e Comportamento Humano (Todorov e Azzi trads.) São Paulo: Martins Fontes

Skinner (1945) The operational analysis of psychological terms. Psychological Review, 52(5), 270-277.

Skinner, B. F. (1969) Contingencies of reinforcement: A theoretical analysis. New York: Appelton-Century-Crofts.

Sidman, M. (1971). Reading and auditory-visual equivalences. Journal of Speech & Hearing Research, 14(1), 5-13.

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