Quando a moda do Mindfulness pega: perigos e riscos

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No ano de 2016 o jornalista da Radio BBC, de Londres, Jolyon Jenkins, produziu algumas reportagens sobre os riscos envolvidos na prática de Mindfulness. Em um destes textos ele descreve a experiência de Suzanne (nome fictício), uma francesa de vinte e poucos anos. Suzanne descreveu a Jenkins que, ao frequentar um retiro silencioso de meditação de 10 dias em Manchester (UK), enfrentou um ataque de pânico. Isto aconteceu no sétimo dia. Ela descreveu assim: “Foi como se meu cérebro explodisse. Daí eu me senti separada do meu corpo”. Suzanne descreveu para os seus professores de meditação o que estava sentindo, mas eles disseram para ela seguir firme meditando.

Outra reportagem inglesa ilustra, através do caso real de 4 pessoas que procuraram grupos de mindfulness no Reino Unido, situações similares. Estas situações acontecem, porém as pesquisas costumam ignorar estes casos. Há um HYPE (exagero) ao redor do Mindfulness. Ainda assim, é assustador saber que uma simples sessão de mindfulness, mal conduzida, pode levar alguém a ter um episódio psicótico ou ataque de pânico. Isso é real.

Para muitas pessoas pode parecer estranho falar em “riscos” e “perigos” quando se trata de “mindfulness” ou de “meditação”. As pessoas imaginam uma pessoa sentada, em paz e tranquilidade, ouvindo os sons de pássaros. Contudo, isso não passa de um estereótipo. Para a grande maioria das pessoas a experiência de sentar em silêncio e apreciar o que ocorre no corpo e nos pensamentos ao longo de alguns minutos costuma ser extremamente desafiador. Deste modo, como qualquer outra prática de autoconhecimento, introspecção, e mudança de comportamento, Mindfulness exige, por parte de quem oferece um treinamento ou sessão de mindfulness, o cumprimento de uma série de “normas de segurança” para os participantes, envolvendo a completa triagem dos participantes (estado de saúde geral, saúde mental, presença ou não de trauma recente, uso de medicamento, histórico psiquiátrico, etc).

Pode parecer exagero, mas não é. Uma série de pesquisas já publicadas demonstram que quase 90% de experiências difíceis que podem acontecer durante uma prática de mindfulness ou meditação (tais como ansiedade, agitação, medo, despersonalização) podem afetar o dia-a-dia de forma negativamente. Há um número crescente de relatos empíricos de que a participação um grupos de mindfulness pode conduzir o participante a (por exemplo) deficiências de memória executiva, despersonalização, problemas de socialização, ataques de pânico, episódios psicóticos e prejuízos na capacidade de testar a realidade.

Ainda assim, vemos no Brasil um número crescente de pessoas SEM treinamento adequado em Mindfulness (seja na tradição contemplativa ou no mindfulness secular), sem treinamento em condução de grupos, com baixa capacitação em avaliação clínica, e também sem prática pessoal amadurecida, oferecendo “grupos de mindfulness”, “treinamentos de mindfulness”, “sessões de mindfulness”, “coaching de mindfulness”. O Mindfulness realmente desembarcou no Brasil – está nos anúncios do google – nos lares, nas escolas e nas empresas. Apesar do lado positivo e otimista do crescimento de Mindfulness no Brasil e, consequentemente, da oferta de mais ações de auto-cuidado, a imaturidade do mercado em “consumir” o mindfulness apressadamente, pode levar a um aumento nesta estatística perigosa que associa a prática ao mal-estar e o adoecimento.

É fundamental que pessoas que procuram serviços de mindfulness se orientem quanto a estes riscos e procurem instrutores com prática pessoal amadurecida e treinamento formal realizado em instituições sérias e estabelecidas. Se forem procurar na tradição (Budismo, Hinduísmo, etc) é importante que procurem centros de meditação com reputação séria e sem promessas de cura e felicidade. Para aqueles profissionais que pretendem trabalhar com mindfulness é importante que se orientem procurando centros de mindfulness sérios que ofereçam treinamentos bem estabelecidos e reconhecidos por sua seriedade.

Mindfulness é certamente algo bom e positivo, mas quando vira “produto de mercado” é preciso extrema cautela.

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