Dependência química: análise e intervenção na ACT

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Lucas Barbosa dos Santos

Giovana Pagliari

No artigo (link: https://www.comportese.com/2018/03/importancia-clinica-dos-comportamentos-respondentes) é esclarecida a importância dos comportamentos respondes para uma análise clínica. Se faz necessária uma boa compreensão destes processos, Reflexos Incondicionados e Condicionados, para compreensão dos fenômenos de dependência química. Alguns processos condicionados referem-se ao fenômeno de tolerância e overdose, ambos explicitados no artigo.

A dependência química se dá sobre comportamentos relacionados ao uso abusivo de alguma substância que altere as ações/sensações de um indivíduo, considera-se que o uso se dá por causas multifatoriais. Ocorre a adição desse estímulo reforçador (bebida, outras drogas), produzindo sensações físicas diferentes, que podem ser de euforia, taquicardia, animação, estado letárgico, sensações distintas ao que a pessoa estava exposta anterior ao uso. O que também aumenta a probabilidade desse comportamento, é o reforço social, os amigos e colegas que estão acompanhando o usuário, que aprovam, oferecem mais, consideram que aquilo seja legal e divertido.

É comum a relação de dependência química com o uso de drogas consideradas inadequadas socialmente (ilícitas), porém o consumo de bebidas alcoólicas e nicotina são mais vistos e também causam dependência. Mais uma vez, repete-se a questão relacionada ao reforço social.

A ACT (Terapia de Aceitação e Compromisso, criada por Steven Hayes e colaboradores em 1987) é compreendida como uma ferramenta de trabalho clínico, propõe interpretações e intervenções dentro da Análise do Comportamento (SABAN, 2015). Segundo o modelo proposto, o uso de substância é observado enquanto um fenômeno que promove a esquiva experiencial, e que essa ação advém da história de aprendizagem do indivíduo e as condições presentes no ambiente. Esse uso tem diversas funções, uma delas, livrar-se de um possível sofrimento, no qual o indivíduo não tem percepção das consequências dessa utilização. Assim, propõe ao sujeito entrar em contato com sentimentos/sensações desagradáveis, já que entrar em contato com isso em nossa história cultural é incomum e evitado a qualquer custo.

O primeiro aspecto a se observar é – o que mantém o uso? Portanto qual sofrimento é ambiente para esse comportamento? – essa deve ser a pergunta base para o terapeuta realizar sua análise funcional. Ao contrário do que a cultura ocidental prega, é importante que o indivíduo entre em contato com essas experiências, se torna essencial para o terapeuta se atentar e validar os insucessos que possam surgir durante essa tarefa. Para que essa experiência se torne viável é imprescindível que a terapia se torne um espaço de aceitação. Onde sempre haverá espaço para a expressão e experiência que é considerada desagradável. Promovendo autoconhecimento para o cliente.

Para a Terapia de Aceitação e Compromisso, o essencial nesse contexto é levar o sujeito a encontrar seus valores, ou seja, ter qualidade nas ações, mesmo que tenham pensamentos desagradáveis para aquisição de um objetivo, que é chamado de flexibilidade psicológica. Para Saban-Bernauer (2018) o uso é algo reforçador pelo bem-estar rápido e possibilidade de esquiva de experiências consideradas ruins ao sujeito, mas não há alteração do ambiente que mantém seus sofrimentos, o que resulta mais ocasiões para o uso e muitas vezes acarreta outras consequências consideradas desagradáveis. Tornando o uso um ciclo sem fim: Problemas – uso drogas – que causa ainda mais problemas (brigas, perda de coisas que se considera importantes) – uso drogas para esquecer – problemas…

Uma ferramenta interventiva que faz parte do modelo a “desfusão cognitiva”. Nesta o indivíduo passa a observar de forma não punitiva seus pensamentos, promovendo o conhecimento do mundo dentro de nós, observando que o pensar (comportamento privado) não tem implicações sobre a ação (comportamento público), portanto não há necessidade de se comportar em função do pensamento (SABAN-BERNAUER, 2018). Este processo possibilita que o cliente possa lidar com seus sofrimentos de uma forma nova, o que propicia variabilidade comportamental.

O objetivo clínico não está focado em simplesmente fazer com que a pessoa deixe de ser dependente, mas que compreenda o que o torna dependente, o quanto isso custa para sua vida e quais as alternativas tem para que sejam atingidos seus objetivos clínicos. Considerando sempre os valores do cliente e até onde se dispõe a ir, inclusive observando se o uso é considerado um problema para o cliente ou não.

Referências:

SABAN-BERNAUER, M. T. Terapia de aceitação e compromisso In: ZANELATTO, N. A. LARANJEIRAS, R. O tratamento da dependência química e as terapias cognitivo-comportamentais: um guia para terapeutas. 2º Ed. Porto Alegre: Artmed. 2018.

SABAN, M. T. Introdução à terapia de aceitação e compromisso. Belo Horizonte: Ed. Artesã, 2015.

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