Quantas horas de tratamento caracterizam uma intervenção em ABA?

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A ABA (Análise do Comportamento Aplicada) é a ciência que possui o conjunto de intervenções com o maior número de práticas baseadas em evidência para o TEA (Transtorno do Espectro do Autismo). Uma prática baseada em evidência é aquela que deve guiar o médico, bem como os demais profissionais, a indicar a melhor tecnologia disponível de acordo também com a experiência clínica e aspectos do contexto do paciente. Duas das principais entidades orientadoras de Práticas com Base em Evidência Científica são a National Professional Development Center on ASD (NPCD, 2015) e National Autism Center (NAC, 2017).

Entretanto, outro ponto bastante importante e que influencia diretamente na eficácia do tratamento, é o número de horas de intervenção. As pesquisas iniciadas em 1987 com o Dr. Ivar Loovas, apontam que a eficácia da terapia está diretamente relacionada ao elevado número de horas de terapia. A ABA se caracteriza pelo ensino forma estruturada e repetida para o aprendizado de variados repertórios comportamentais. A intervenção necessita de atenção individualizada no ambiente da criança (seja esse domiciliar ou escolar ou em qualquer outro local), e de forma intensa em número de horas e dias (30 a 40 horas semanais) cobrindo diferentes repertórios e habilidades, incluindo treino de familiares e cuidadores próximos à criança.

No entanto, se esta é uma questão já bastante sedimentada na literatura mundial da Análise do Comportamento Aplicada, porque hoje em dia se encontra tantos profissionais dizendo trabalhar com ABA e realizando poucas horas de intervenção por semana? Ainda que possam existir múltiplas razões, cabe ressaltar duas em especial. Em primeiro lugar, temos uma situação bastante séria em nosso país que é a falta de uma certificação legalmente exigida para o profissional que trabalha com ABA. Diferente dos Estados Unidos, que possui a certificação BACB (Behavior Analyst Certification Board), em nosso país estamos lidando muitas vezes com profissionais que possuem um curso de poucas horas e não são supervisionados por profissionais que sejam, de fato, Analistas do Comportamento. Consequentemente, tais profissionais muitas vezes estão provendo a terapia de forma inadequada. O profissional que diz trabalhar com ABA sem a formação adequada pode cair no erro de recomendar ou realizar poucas horas de terapia por não estar ciente dos resultados das pesquisas anteriormente relatados.

A segunda razão, que está se tornando cada vez mais  comum em nosso país, é a pressão dos planos de saúde que acabam propondo à alguns profissionais (ou clínicas) a limitação do número de horas de terapia. Por exemplo, existem planos que liberam tratamentos em clínicas parceiras ou credenciadas desde que a mesma aceite limitar o tratamento a determinado número de horas por semana como duas, quatro ou no máximo dez horas semanais. Isso, por si só descaracteriza completamente a intervenção em ABA que se propõe a ser intensiva e individualizada. É possível que uma criança seja avaliada por um Analista do Comportamento que aponte a necessidade de 10-12 horas de terapia por semana ou, em raros casos, até menos. Entretanto, o que precisa ficar claro é que isso é uma exceção. A maior parte das crianças com TEA terão sim que seguir uma intervenção entre 25-40 horas semanais. É preciso deixar claro que qualquer acordo que interfira na quantidade de horas de tratamento, local onde o mesmo deva ser realizado e na qualidade do profissional que o realiza está descaracterizando a intervenção em ABA. Além das horas de terapia, também é fundamental manter o número de horas de supervisão proporcional ao número de horas de intervenção realizadas.

Com o objetivo de esclarecer esses e muitos outros pontos, o BACB elaborou um documento com o título “Practice Guidelines for Healthcare Funders and Managers”, um guia prático para planos ou órgãos provedores da saúde (públicos ou privados). Esse guia visa esclarecer pontos importantes sobre a formação do Analista do Comportamento, as bases fundamentais de uma intervenção em ABA e a quantidade de horas adequadas para que uma intervenção possa, de fato, ser considerada ABA. São estabelecidas duas classificações de intervenção em relação a intensidade: Tratamento Focado: 10-25 horas semanais de terapia semanal para pacientes que necessitem de uma intervenção especifica (salvo casos de comportamentos disruptivos graves que terão se compostos de mais de 25 horas semanais) e Tratamento Abrangente: 30-40 horas por semana. Portanto, um tratamento de 10 horas pode ser considerado intervenção em ABA mas, com certeza, será a exceção e não a regra para a maioria dos pacientes.

Por fim e para acabar com qualquer dúvida acerca sobre essa questão o guia afirma: “Embora o número recomendado de horas de terapia possa parecer alto, isso se baseia em resultados de pesquisas sobre a intensidade necessária para produzir bons resultados. Também deve ser notado que o tempo gasto longe da terapia pode resultar no indivíduo permanecer cada vez mais distante do desenvolvimento típico. Tais atrasos provavelmente resultarão em aumento de custos e maior dependência de serviços mais intensivos ao longo de sua vida.”

Portanto, profissionais que dizem aplicar ABA violando dois dos princípios básicos dessa ciência que são individualização e intensidade da intervenção estão prestando um desserviço à sociedade e, muitas vezes, condenando indivíduos com TEA a danos irreparáveis ao seu desenvolvimento.

Referências:

Smith VK, Dillenbeck A. Developing and implementing early intervention plans for children with autism spectrum disorders. Semin Speech Lang. 2006 Feb;27(1):10-20. Review.  https://www.bacb.com/ http://www.behaviourinnovations.com/sites/default/files/PDF/ONTABA%20OSETT-ASD%20REPORT.pdf

 

 

 

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