A Psicologia pode ser feminista?

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Dias atrás tive uma discussão com um psicólogo que não concordava com a convergência entre feminismo e psicologia. Essa discussão me lembrou que, no Dia Internacional da Mulher deste ano (março/2018), o Conselho Regional de Psicologia (CRP/SP) promoveu um evento para discutir se a Psicologia deveria ou não ser feminista. Por conta desse evento, que teve toda a sua divulgação e interação online, pudemos acompanhar algumas discussões bastante acaloradas (algumas até passionais), entre profissionais que consideram a prática clínica em conjunto com o feminismo, indispensável – e os que não consideram possível a prática clinica ou qualquer discussão sobre o feminismo nesta dimensão.

Conforme esclareci na publicação anterior (clique aqui para ler), o feminismo está se tornando um tema cada vez mais frequente entre os profissionais da psicologia e a ideia de expandir a discussão é necessária para que seja possível avaliar todos os argumentos sobre o tema, construindo um posicionamento mais consistente para uma prática psicológica condizente com o momento atual da sociedade.

Se você é um(a) psi que não consegue ver nenhuma ligação para a intersecção entre as ideias do movimento feminista e a ciência psicológica; eu vou propor algumas reflexões sobre o assunto e apresentarei alguns pontos acerca dessa discussão.

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Assistam:

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O feminismo é uma ideologia política e ao mesmo tempo, um conjunto de movimentos sociais que têm como objetivo comum os direitos equânimes (iguais) para ambos os gêneros, por meio do empoderamento feminino e da libertação de padrões patriarcais que são baseados em normas de gênero, certo?

A vasta teoria feminista advoga pela igualdade entre homens e mulheres conforme preconiza a Declaração Universal dos Direitos Humanos.

“Ah, mas um movimento político e psicologia clínica não devem se misturar segundo o nosso código de ética!”

Este argumento ignora elementos bastante relevantes do próprio código de ética profissional do(a) psicólogo(a), como veremos a seguir.

Código de Ética do Psicólogo – Princípios Fundamentais, inciso I:

O psicólogo baseará o seu trabalho no respeito e na promoção da liberdade, da dignidade, da igualdade e da integridade do ser humano, apoiado nos valores que embasam a Declaração Universal dos Direitos Humanos.

Se, em outras palavras, um dos papéis do psicólogo é promover bem-estar, autonomia, igualdade e qualidade de vida aos clientes, enquanto o feminismo, busca promover mudança nas estruturas sociais objetivando o mesmo; então, ainda que o feminismo e a psicologia se situem em espaços históricos e filosóficos diferentes, é possível sim, haver uma intersecção entre os temas.

Além disso, nenhuma ciência é imparcial, principalmente as ciências humanas, que lidam com as pessoas em seu aspecto individual e/ou coletivo. Então, não existe neutralidade na prática clínica, porque antes de ser psicólogo, você baseia sua prática na ciência e é uma pessoa influenciada pelo ambiente que é construído a partir das interações socioculturais. Não quero que vocês entendam isso como uma afirmação de que a ciência é construída baseada em interesses, ok? Estou sugerindo que ela pode ser construída a partir dos interesses do pesquisador. Mas é importante ressaltar que a ciência é movida por evidências e, portanto, neste sentido (e somente neste sentido), o órgão científico é neutro.

Diante de tudo isso, a ideia de que podemos não tomar partido torna-se impossível. A própria omissão é uma escolha, assim como os caminhos da sua intervenção clínica.

Por fim, se você pensar que o código de ética do Psicólogo é pautado nos Direitos Humanos e que ser político é diferente de ser partidário, vai concluir que todas as nossas ações são políticas, inclusive um atendimento clínico.

Conseguiram perceber
as questões principais?

A história está aí para nos contar sobre a construção sociocultural do nosso país. Feminismo não é modinha, nem pertence a um partido político e as polarizações do movimento existem há tempos, mesmo assim contendo um vasto material que pode compor e apoiar a nossa ciência, trazendo contribuições ao campo teórico, científico e aplicado da análise do comportamento.

O ponto de partida dos feminismos (no plural mesmo) é que somos todos diferentes. Homens e mulheres são anatomofisiologicamente diferentes. Não somente isso, mas homens e mulheres são também diferentes do ponto de vista comportamental. Isto é, sentir, desejar e pensar, são diferentes. Somos também diferentes do ponto de vista cultural; pertencemos a macro ou microculturas distintas: no campo da religião, estética, ciência, política. Da mesma forma que a Psicologia compreende essas diferenças, o movimento também!

A ideia é não se posicionar de forma opressora e permitir a soma de todos os saberes em nosso trabalho. Existem práticas culturais que acabam transformando as diferenças (sejam elas orgânicas, comportamentais ou culturais) em desigualdades, por isso, a psicologia pode e deve ser feminista!

No próximo post, vamos falar mais especificamente de feminismo e análise do comportamento. Espero que a leitura tenha sido proveitosa.

Até a próxima!


Referências:

  • FARIAS, Kamila Gadelha; CASTRO, Maria Da Silva. Psicologia feminista: uma abordagem comprometida com a mudança social – Campina Grande, 2016.
  • HEYWOOD, A. (2010). Feminismo e ideologias políticas: Do feminismo ao multiculturalismo (Vol. 2; J. Marcoantonio & M. Janikan, Trads., pp. 21-43). São Paulo: Ática. (Trabalho original publicado em 2007)
  • LACEY, Hugh. A imparcialidade da ciência e a herança dos cientistas. Sci. viga. São Paulo, v. 9, n. 3, p. 487-500, 2011. Disponível em <http://www.scielo.br/scielo.php?script=sci_arttext&pid=S1678-31662011000300003&lng=en&nrm=iso>. acesso em 13 out. 2018. http://dx.doi.org/10.1590/S1678-31662011000300003.

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