Comportamento verbal não-vocal como comportamento clinicamente relevante do cliente e do terapeuta

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Não é novidade que o comportamento verbal é aspecto central no trabalho clínico. De acordo com Medeiros (2002), comumente comportamentos dessa categoria são alvos de intervenção no processo psicoterapêutico. A literatura da Psicoterapia Analítica Funcional, desde o seu primeiro livro, enfatiza o comportamento verbal do cliente como objeto de análise (Kohlenberg & Tsai, 1991). Outro pilar importante na prática da FAP é o de que o comportamento do psicoterapeuta também deve ser alvo de análise funcional. Assim, a análise da contingência que envolve respostas do cliente e do psicoterapeuta é a lógica geral envolvida nessa psicoterapia (Tsai, Kohlenberg, Kanter, Kohlenberg, Follete, & Callaghan, 2012).

Pela definição de Skinner (1957), qualquer operante para o qual o reforço é mediado por outra pessoa que o entenda, ou seja, um ouvinte, pode ser considerado comportamento verbal. Isso inclui comportamentos vocais como a fala e sons, além de comportamentos não-vocais como gestos, escrita, símbolos. O comportamento verbal vocal é óbvio durante as sessões, pois é assim que se dá grande parte da comunicação terapêutica. Mas além desse, ocorre também o comportamento verbal não-vocal praticamente o tempo todo. Esses podem aparecer na topografia de contato visual, expressões faciais, postura corporal, movimentos estereotipados e até o choro, e serão emitidos tanto pelo cliente quanto pelo psicoterapeuta. Estes comportamentos também têm potencial para serem considerados comportamentos clinicamente relevantes, sendo ocasião para análises e intervenções valiosas.

“Um suspiro, um gesto, ou um evitar de olhar pode comunicar mais que um longo fluxo de palavras, especialmente quando terapeutas ou clientes estão vulneráveis ou emocionados”*

(Holman, Kanter, Tsai, & Kohlenberg, 2017)

A proposta de psicoterapia da FAP afirma que a relação intensa, genuína e corajosa entre psicoterapeuta e cliente é mecanismo de mudança e transformação de padrões comportamentais que geram sofrimento (Vandenberghe & Pereira, 2005). Ao experimentar interações desse tipo, o cliente aprende formas mais eficientes para agir em suas interações interpessoais cotidianas, em decorrência de serem agregados a seu repertório respostas com potencial de gerar reforçadores socais importantes (e.g. proximidade, compreensão, autorevelção, empatia, acolhimento, respeito). Isso é desejável tendo em vista o modelo de Psicopatologia da FAP, que é baseado na premissa de que relações interpessoais de qualidade são elemento de grande influência para a qualidade de vida e a saúde física e mental do indivíduo, apresentando potencial de gerar sofrimento e sensação de felicidade (Holman, Kanter, Tsai, & Kohlenberg, 2017).

“A FAP implica a desaceleração e sintonia com esse processo e a percepção de que a interação está entre você e o cliente”*

(Holman, Kanter, Tsai, & Kohlenberg, 2017).

No modelo ACL (Awareness, courage and love), o repertório de Awareness do psicoterapeuta é descrito como uma classe de respostas na qual estão envolvidos comportamentos como prestar atenção, notar, identificar (Mavis, Callaghan & Kohlenberg, 2013). Estes comportamentos devem ser emitidos tanto diante de comportamentos do cliente durante a sessão que representam a forma como ele interage em sua vida cotidiana quanto diante de comportamentos públicos e privados do psicoterapeuta durante a sessão. Como consequência da emissão destas respostas nestas ocasiões, o psicoterapeuta acessa informações que contribuem para a formulação de análises funcionais que nortearão suas intervenções. (Veja mais sobre repertório de Awareness do terapeuta e do cliente AQUI). Nota-se que aí existem muitos detalhes aos quais o psicoterapeuta deve estar treinado a reagir e os comportamentos verbais não-vocais estão incluídos.

O atentar do psicoterapeuta diante de comportamentos do cliente dessa categoria pode elucidar a presença de CRB1s ou CRB2s. CRB1s são comportamentos clinicamente relevantes que representam os padrões problemáticos do repertório do cliente, ou seja, indicam algum déficit ou excesso comportamental que prejudicam ou tornam mais custoso seu acesso a reforçadores. Nenhum tipo de comportamento é essencialmente CRB1. Essa categorização deve ser feita pelo psicoterapeuta, de forma individualizada, tendo como referência os dados apontados pela análise funcional de cada resposta, de cada cliente, em determinada situação. CRB2s são comportamentos clinicamente relevantes que sinalizam refinamento do repertório do cliente, ou seja, são comportamentos novos aprendidos em sessão e que são mais eficientes para gerar reforço positivo em interações sociais do que o repertório inicial. A linha de base para categorização de um comportamento como CRB2 será sempre o repertório de CRB1 identificado pelo psicoterapeuta. Isso quer dizer que, um comportamento será considerado melhora se for diferente e mais eficiente do que respostas anteriormente emitidas pelo cliente. O objetivo da psicoterapia FAP é a diminuição de frequência dos CRB1s e aumento e refinamento dos CRB2s.

A seguir, serão descritas situações hipotéticas em que um comportamento verbal não-vocal pode ser considerado CRB1 e CRB2.

Joaninha é cliente de Joaquim. Ela trouxe como queixa sua dificuldade de ser autêntica com seus amigos e tentava se adaptar a mudança de ambiente de trabalho. Joaquim identificou demandas relacionadas a construção e manutenção de relações próximas, envolvendo, entre outras, a dificuldade de demonstrar sentimentos enquanto eles acontecem. Se Joaninha não sabe comunicar adequadamente esses sentimentos para as pessoas com quem se relaciona, provavelmente a intimidade que poderia ser construída entre elas será dificultada. Em uma sessão, a cliente conta (comportamento verbal vocal) a seu psicoterapeuta uma situação de sua vida. Como já atende Joaninha há algum tempo, já tem sua formulação de caso sólida e conhece quais estímulos tem função reforçadora para seu comportamento, Joaquim percebe (repertório de Awareness) que as expressões faciais dela (comportamento verbal não-vocal) ao contar não parecem compatíveis com o que aquele momento representou para ela (acesso a reforçadores de alta intensidade). A expressão facial “neutra”, aparentemente “sem emoção”, pode ser considerada um CRB1 na medida em que é uma representação do déficit no repertório de demonstrar emoções. A expressão genuína e vulnerável pode ter sido punida em sua história, gerando consequências como invalidação social, afastamento, o torna menos provável que hoje ela se comporte assim (comportamento de esquiva). Pode ser também que a expressão “sem emoção” gere admiração das pessoas por ser reconhecida como “forte”. Pode ser ainda que ela nunca tenha se exposto a contingências favoráveis ao aprendizado e refinamento de comportamentos relacionados a expressão emocional. Porém, o fato é que, se a cliente precisa estreitar relações, esse pode não ser o repertório mais adequado. Com base nisso, Joaquim pode elaborar estratégias evocativas de respostas que comuniquem, de forma mais eficiente e correspondente, como ela se sentiu quando viveu a situação.

Joãozinho é cliente de Clementina. Ele trouxe como queixa conflitos intensos no trabalho em que atua como chefe. Alega que os funcionários são todos preguiçosos e não obedecem as suas orientações. Clementina identifica que isso acontece devido a uma dificuldade de seu cliente de se colocar no lugar de seus funcionários que tem trabalhado muito e insistido em feedbacks sobre isso. Ela também identifica que Joãozinho faz as orientações de uma forma agressiva e crítica e não identifica o impacto que essa topografia gera em seus funcionários, que é o de tornar menos provável a colaboração deles. Pode-se dizer que Joãozinho tem déficit no repertório de empatia e isso prejudica não só suas relações de trabalho como também outras de sua vida pessoal, com sua filha, por exemplo. Apesar de gerar demonstrações de respeito por parte das pessoas, controlado por contingências de reforço negativo, isso os afasta, torna menos provável que as pessoas se aproximem de Joãozinho. Em uma sessão, com base em sua análise sólida e ao perceber uma oportunidade (repertório de Awareness), Clementina diz a Joãozinho como se sente quando ele demanda resultados da psicoterapia de maneira semelhante a que faz com seus funcionários, comportamento que pode ser considerado um CRB1 para ele. Diante da revelação da psicoterapeuta, Joãozinho olha em seus olhos com expressão séria e atenta (CRB2). Quando ela termina o relato, Joãozinho continua olhando para ela e sua expressão passa compreensão e uma certa tristeza em tê-la feito se sentir assim (CRB2). As reações de Joãozinho ao feedback de incômodo de Clementina podem ser consideradas CRB2s, uma vez que, mesmo que ele não tenha pedido desculpas, pareceu perceber o impacto negativo que suas atitudes podem ter em pessoas relevantes de sua vida.

Estes exemplos mostram como a identificação de comportamentos verbais não-vocais com função de CRB1 e CRB2 pode gerar oportunidades de intervenção e ajudar na identificação de comportamentos de melhora do cliente. Essas descrições demonstram o seguimento da Regra 1 na interação entre Joaninha e Joaquim e das Regras 1 e 2 na interação entre Joãozinho e Clementina. A Regra 1 da FAP orienta que o psicoterapeuta emita comportamentos da classe Awareness durante as sessões e atente para a ocorrência de CRBs. A Regra 2 orienta que o psicoterapeuta evoque, ou seja, crie condições para a emissão de CRBs. No caso do segundo exemplo, a intervenção evocou um CRB2. Numa sessão real de FAP, a intervenção do psicoterapeuta não encerraria na Regra 2 e teria continuidade buscando emitir os comportamentos descritos nas Regras 3, 4 e 5 (responder adequadamente ao CRB, checar efeito da intervenção e analisar funcionalmente a interação estabelecida, respectivamente).

“Transparecendo postura genuína através de tom de voz, contato visual e expressões faciais também é extremamente importante – às vezes mais que suas palavras”*

(Holman, Kanter, Tsai, & Kohlenberg, 2017).

Pode-se ainda olhar para a interação psicoterapeuta e cliente e identificar quais comportamentos verbais não-vocais do próprio psicoterapeuta contribuem ou não para a melhora do cliente. Estes são os T1s e T2s e fazem parte do processo terapêutico tanto quando os CRBs (Tsai, Kohlenberg, Kanter, Kohlenberg, Follete, & Callaghan, 2012; Holman, Kanter, Tsai, & Kohlenberg, 2017). O T1 é a dificuldade interpessoal do psicoterapeuta que aparece na relação com o cliente e de alguma forma o impede de emitir comportamentos das classes Awareness, Courage ou Love. Desse modo, a emissão de CRB2 pode ser adiada ou impedida, tornando o processo contraproducente ou sem ganhos significativos para o repertório do cliente. É muito provável que comportamentos dessa classe apareçam em sessão, uma vez que o psicoterapeuta também é humano e, portanto, reage de maneira discriminativa na presença do cliente ao mesmo tempo em que reage a sua história de vida. Porém, é muito importante identificá-los (repertório de Awareness) e buscar contingências fora do consultório que contribuam para o desenvolvimento de novos repertórios que evoquem a melhora dos clientes (Vandenberghe, 2017). Supervisão clínica é uma dessas contingências fortemente recomendadas pelos autores da FAP (Tsai, Kohlenberg, Kanter, Kohlenberg, Follete, & Callaghan, 2012). O T2 é o comportamento do psicoterapeuta que contribui para a melhora do cliente e pode assumir uma diversidade imensa de topografias, ou seja, pode acontecer das mais variadas formas.

A seguir, serão descritas situações hipotéticas em que um comportamento verbal não-vocal do psicoterapeuta pode ser considerado T1 e T2.

Pedrinho é cliente de Maria. Ele trouxe como queixa seu sentimento de solidão, tristeza e até pensamentos suicidas. Ele não queria fazer terapia e parece muito ansioso e intimidado durante as sessões. Maria é uma ótima psicóloga, estudou muito e, merecidamente, colhe os frutos de seu investimento em sua carreira. Ela trabalha bastante e, com o tempo, se percebeu cada vez mais focada em crescer profissionalmente que em cuidar de suas relações. Isso a tornou muito eficiente e já ajudou muitas pessoas com suas intervenções certeiras, técnicas perfeitamente aplicadas. Maria não gosta muito de atender adolescentes, mas topou receber Pedrinho por empatia a mãe dele, com quem se identificou muito. Mesmo já tendo passado 3 meses de psicoterapia, Maria ainda sente que não tem conseguido quebrar o gelo com Pedrinho (repertório de Awareness). Coletou dados, mas não o sente se abrir verdadeiramente. Ela identificou como demandas do cliente dificuldade de dar até mesmo os primeiros passos para uma aproximação interpessoal, como falar do que gosta, fazer perguntas e elogios ou agradecer gentilezas. Refletindo sobre as sessões em supervisão (refinando repertório de Awareness), Maria percebe que sua postura corporal durante as sessões não parece muito aberta ou receptiva. Lembra-se também que não sorri muito. Apesar de dar muita atenção ao que o cliente fala, não acha mesmo muita graça nas histórias dele. Esses comportamentos de Maria podem ser considerados T1s para este caso, uma vez que tornam menos provável que Pedrinho emita os comportamentos que precisa aprender para que seus problemas relacionados ao isolamento se atenuem.

Lurdinha é cliente de Ana. Sua queixa inicial foi de sentir-se sobrecarregada e com altas expectativas sobre si. É uma mulher divertida, simpática e muitíssimo eficiente. Ana identifica como demanda o intenso esforço de Lurdinha em mostrar que é capaz, que é boa e forte (altíssimo custo de resposta em função de reforço social) e sua dificuldade de perceber e demonstrar quando chegou aos seus limites ou sente-se vulnerável. Em certa sessão, a cliente chega contando que bateu o carro. Relata de uma forma muito engraçada, leve e, apesar de ter machucado o dedo e sentir dores no pescoço, parece totalmente insensível a gravidade do que aconteceu (CRB1). Percebendo o que está acontecendo (repertório de Awareness), Ana mantém-se conectada com o que Lurdinha está contando, sem se deixar levar pela suposta leveza da situação e demonstra isso em sua expressão facial. Não ri e mostra-se disponível e atenta (comportamento verbal não-vocal como estratégia evocativa). Ana sabe que sua cliente sente medo de dirigir às vezes e que ter machucado alguém pode ter mexido muito com ela. A leveza e certa indiferença ao ocorrido parece ter função de evitar demonstrar sua vulnerabilidade diante da situação ou ter que admitir que cometeu um erro no trânsito. Lurdinha percebe a expressão sincera de Ana e acaba dizendo algo como: “Eu sei o que você está pensando. Você sabe que não foi tão fácil assim, não é?” (CRB2). E então ambas passam a falar de como o ocorrido realmente afetou Lurdinha. Pode-se dizer que a estratégia evocativa da psicoterapeuta é considerada um T2 uma vez que, de fato, contribuiu para a emissão de um comportamento de melhora dessa cliente.

Nestes exemplos, nota-se que comportamentos de Awareness diante de outros comportamentos do próprio terapeuta geram oportunidade de aprimorar intervenções e respostas contingentes mais eficientes ao comportamento do cliente. Muitos outros comportamentos verbais não-vocais também podem ocorrer, como contato visual invasivo gerando retraimento do cliente, gesticulação excessiva gerando distração do cliente e até um abraço ajudando o cliente a ser mais afetivo e/ou receptivo. A categorização de comportamentos como T1 ou T2 só é possível diante dos outros elementos da contingência de interação entre psicoterapeuta e cliente e da formulação de caso bem estabelecida.

A Psicoterapia Analítica Funcional dá orientações claras, apesar de flexíveis, de como o profissional deve atuar e intervir. São tarefas complexas, cheias de nuances, especificidades e que abrangem infinitas topografias. O treino e refinamento do repertório de ACL é essencial e gradual. Este texto mostrou mais um elemento da interação psicoterapêutica que, se manejado da melhor forma e com base no raciocínio funcional, pode representar oportunidades de intervenções valiosas para o processo como um todo.

 

*Tradução da autora

 

REFERÊNCIAS

Holman, G., Kanter, J., Tsai, M., & Kohlenberg, R. (2017). Social Connection and the Therapeutic Relationship as Contexts for Change. In. G. Holmam, J. Kanter, M. Tsai, R. Kohlenberg. (Eds.), Functional Analytic Psychotherapy Made Simple: A Practical Guide to Therapeutic Relationships. (pp. 13-26). Oakland, New Harbinger Publications.

Kohlenberg, R. J. & Tsai, M. (1991/2001). Psicoterapia Analítica Funcional: Criando relações terapêuticas intensas e curativas (F. Conte, M. Delliti, M. Z. Brandão, P. R. Derdyk, R. R. Kerbauy, R. C. Wielenska, R. A. Banaco, & R. Starling, trads.). Santo André: ESETec.

Medeiros, C. A. (2002). Comportamento verbal na terapia analítico comportamental. Revista Brasileira de Terapia Comportamental e Cognitiva, 4(2), pp. 105-118.

Skinner, B. F. (1957/1978). O Comportamento Verbal (M. da P. Villalobos, Trad.) São Paulo: Cultrix.

Tsai, M., Kohlenberg, R. J., Kanter, J. W., Kohlenberg, B., Follete, W. C., & Callaghan, G. M. (2012/2009). Um guia para a Psicoterapia Analítica Funcional (FAP): Consciência, coragem, amor e Behaviorismo (F. Conte, & M. Z. Brandão, trads.). Santo André: ESETEc.

Tsai, M., Callaghan, G. M., Kohlenberg, R. J. (2013). The use of Awareness, Courage, Therapeutic Love, and Behavioral Inaterpretation in Functional Analytic Psychotherapy. Psychotherapy, 50(3), 366-370.

Vandenberghe, L. (2017). Três faces da Psicoterapia Analítica Funcional: Uma ponte entre análise do comportamento e terceira onda. Revista Brasileira de Terapia Comportamental e Cognitiva, XIX(3), pp. 206-219.

Vandenberghe, L. & Pereira, M. B. (2005). O papel da intimidade na relação terapêutica: Uma revisão teórica à luz da Análise do Comportamento. Psicologia: Teoria e Prática, 7(1), 127-136.

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