Livro “A parte que falta” como recurso terapêutico na Psicoterapia Comportamental

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O livro infantil “A parte que falta” foi publicado em 1976, mas foi traduzido e publicado no Brasil em 2013. Em fevereiro de 2018 foi relançado no Brasil, quando a youtuber Jout Jout publicou um vídeo baseado nele. O vídeo foi rapidamente disseminado e o livro foi bastante procurado em livrarias e campeão de vendas na modalidade de e-books. Na semana da publicação do vídeo de Jout Jout, recebi o link do vídeo de vários clientes pelo celular, e logo fui percebendo a importância de pensar na forma de utilizar o conteúdo do livro nas sessões. O presente texto tem o objetivo de explorar possibilidades de intervenções na psicoterapia comportamental utilizando elementos apresentados no livro “A parte que falta”.

Assim como “A parte que falta”, muitos outros livros podem exercer função de ocasião para o terapeuta abordar temas relevantes para a psicoterapia, por exemplo, “O Pequeno Príncipe”, “Chapeuzinho Amarelo”, “Quem Mexeu no Meu Queijo”, dentre outros. Os livros podem ser ótimos recursos terapêuticos nas sessões psicoterápicas, mas como qualquer escolha de recurso terapêutico, a decisão do terapeuta pelo seu uso deve estar baseada em análises funcionais bem fundamentadas de cada caso clínico. Desta forma, o recurso terapêutico poderá servir como instrumento de intervenção a partir de alguma queixa trazida pelo cliente e/ou para atingir algum objetivo terapêutico definido pelo terapeuta a partir de análises funcionais.

Escolher utilizar um livro como um instrumento de intervenção não é suficiente para atingir o objetivo delimitado, também é necessária a escolha dos procedimentos a serem realizados durante a atuação. Lista-se no presente texto três aspectos principais a serem considerados no planejamento da utilização do livro: 1) Forma de apresentar o livro; 2) Possibilidades de demandas a serem trabalhadas; 3) No que intervir.

1. Forma de apresentar o livro

Após a decisão de escolher este recurso, é necessário, em primeiro lugar, identificar os repertórios do terapeuta e as habilidades a serem desenvolvidas para a condução do recurso. Conhecer o cliente e saber o quão reforçador é ouvir a história é primordial para que a atividade funcione. A despeito disto, a forma do terapeuta apresentar o livro pode aumentar o valor reforçador (principalmente emitindo autoclíticos), visto que o livro é curto, ilustrativo e de linguagem simples.

No caso deste livro, existem diversas formas de apresentar a história do livro, Seleciono a seguir três possibilidades: a) a leitura do livro na íntegra na sessão; b) parafrasear a história do livro; e, c) assistir o vídeo de Jout Jout na sessão.

Ao escolher a leitura do livro na íntegra na sessão, é importante que o terapeuta tenha realizado um treino prévio de leitura em voz alta e identificar informações para dar mais ênfase na leitura de acordo com o que quer trabalhar mais: algumas falas do personagem ou narrador, destacar alguma figura, etc. A alternativa de suprimir alguma parte do livro pode ocorrer, mas exige mais repertório do terapeuta para deixar a história coesa.

Parafrasear a história do livro pode acontecer tanto após uma sessão com a leitura na íntegra do livro, como também sendo o primeiro contato do cliente com a história. Parafrasear exige a habilidade de lembrar da história do livro e contá-la com as próprias palavras sem esquecer de utilizar o mesmo final do livro: “sem a moral da história”. Esta foi uma das características do livro que mais abre a possibilidade para o cliente de construir as próprias conclusões (autorregras), como será abordado logo mais.

A terceira forma apresentada – assistir ao vídeo em que a youtuber lê o livro e o comenta – pode facilitar o comportamento de contar a história, mas intensifica a responsabilidade quanto às interpretações que o vídeo traz sobre o livro. As regras e interpretações de Jout Jout podem estar de acordo com o processo terapêutico do cliente e os objetivos a serem trabalhados, mas não são as únicas possibilidades para as intervenções de um Analista do Comportamento. Uma orientação para escolher esta forma de apresentação do livro seria quando o próprio cliente fala sobre o vídeo ou mesmo o encaminha para o terapeuta. E, no caso da escolha de assistir o vídeo, o recurso terapêutico deixa de ser somente a história do livro e passa a ser o que é abordado no vídeo como um todo.

2. Possibilidades de demandas a serem trabalhadas

Muitas demandas identificadas pelo psicoterapeuta podem ser trabalhadas ao longo do livro, indica-se aqui trabalhar uma demanda por vez, na ordem de relevância após análise funcional. Talvez o cliente identifique muitas das demandas a serem trabalhadas no momento do contato com a história, mas o terapeuta pode realizar perguntas, como veremos a seguir, para direcionar sua intervenção (se for o caso).

Algumas possibilidades de temas para serem abordadas com a história do livro são: comportamento governado por regras; insensibilidade às contingências; desenvolvimento de autorregras; comportamento modelado pelas contingências; variabilidade comportamental; habilidades sociais; tolerância à frustração; identificação de reforços naturais e reforços condicionados generalizados; punidores condicionados generalizados; ganhos e perdas; saciedade e privação de reforçadores; padrão perfeccionista; exemplos de perspectivas dialéticas. Vale ressaltar que para cada uma destas possibilidades o terapeuta deve estar embasado na análise funcional e intervir de acordo com o que for mais útil para o cliente.

3. No que intervir

Os recursos terapêuticos são utilizados como meios de intervenção a partir de objetivos a serem alcançados na terapia. A aplicação de um recurso terapêutico precisa estar acompanhada de manejo do terapeuta para conduzir o que o conteúdo do recurso representa para o processo terapêutico no momento de sua apresentação.

Sugere-se aqui que a história do livro (ou parte dela) seja utilizada no processo terapêutico como metáfora. Pinheiro (2012) faz análises fundamentadas sobre o uso de metáfora na clínica comportamental e defende que a metáfora apresentada pelo terapeuta tem função de estimular uma mudança de controle de estímulos no cliente, fazendo relações não construídas anteriormente. As terapias de terceira geração veem a metáfora como recurso relevante e abrindo possibilidades de intervenção clínica.

Um modelo de intervenção a partir da metáfora do conteúdo do livro é a emissão de regras pelo terapeuta, ou seja, dar conselhos, fazer análises, interpretações e explicar-se para que se está apresentando tal livro naquele momento para o cliente. De acordo com Medeiros (2010) e Medeiros e Medeiros (2012), esta é uma escolha arriscada e pode resultar em diversas implicações desfavoráveis no processo terapêutico. Os mesmos autores sugerem o procedimento de questionamento reflexivo, o qual embasa a Psicoterapia Comportamental Pragmática (PCP). O questionamento reflexivo baseia-se em encadeamento de perguntas abertas com o objetivo de o cliente, ao responder, construir autorregras para promoção do autoconhecimento (Medeiros & Medeiros, 2012). Neste sentido, a PCP acredita que metáforas podem ajudar no processo psicoterapêutico para embasar o questionamento reflexivo.

A forma de trabalhar com o cliente será escolha do terapeuta, a qual exigirá habilidades de como manejar as sessões. Sugere-se aqui temas possíveis a serem abordados a partir da história do livro.

O livro conta a história do personagem que vive em busca de uma parte para completá-lo. Há a preparação de comidas para a recepção do momento esperado em que receberia a parte que faltava. Durante a busca, o personagem canta, conversa com quem está no caminho, se distrai e depois volta à procura. No caminho encontra muitas partes, que não o completam “perfeitamente”. Até que um momento encontra uma parte que o completa e está disposta a completá-lo. Seguem o caminho juntos, e logo o personagem principal percebe que antes de estar com a parte que o completou, conseguia fazer coisas que não consegue mais. Em seguida, deixa a parte com cuidado e segue o caminho buscando outra parte de forma mais tranquila, e vivendo como antes.

Inicialmente, é importante que o terapeuta compreenda o que a metáfora significa para o cliente no contexto terapêutico antes de direcionar para o motivo que apresentou a metáfora. Para isto, o terapeuta pode perguntar qual seria o motivo que ele estaria apresentando aquele livro naquele momento para o cliente, como ele se sentiu ouvindo a história. A partir do que o cliente responder, o terapeuta pode conduzir as perguntas para a demanda prioritária a partir das análises funcionais.

Um dos temas possíveis a serem abordados a partir da história do livro é o comportamento governado por regras, comportamento modelado pelas contingências e desenvolvimento de autorregras. A história mostra a regra implícita de que falta uma parte no personagem e ele não é feliz sem a parte que falta. Fazer com que o cliente entenda esta regra faz com que entenda o comportamento de procura do personagem, mas principalmente compreender que é possível se comportar a partir de regras que não descrevem a contingência em que se está sendo exposto. A partir disto, pode-se estimular a construção de possibilidades viáveis e gradativas para a variabilidade comportamental, incluindo comportamentos diferentes dos que são consequenciados por reforço, segundo as regras.

Relacionar alguma semelhança entre a história do personagem e do cliente pode favorecer a formulação de autorregras e a generalização. Perguntas que podem auxiliar este processo devem levar o cliente a pensar sobre para que o personagem busca a parte que falta, como que ele pode ter começado a buscar a parte que falta, qual a semelhança em relação à vida do cliente e como ele se sente em relação à isso.

Outra regra que controla o comportamento do personagem é que o ele, durante a busca pela parte que falta, apresenta critérios para um “encaixe perfeito”, assim denomina algumas partes que encontra como “pequeno, grande, pontudo”. A partir deste exemplo pode-se investigar os critérios que o cliente já discrimina acerca de algo que busca.

É importante investigar com o cliente quais são as partes que ele se percebe buscando e quais são as partes que já estão com ele. Muitas vezes relaciona-se a parte que falta com uma pessoa para relacionamento amoroso mas também pode ser ter um filho, algum trabalho, conquistar alguma coisa, desde que seja relacionado à felicidade ou um bem estar que não seja possível no presente devido à falta desta parte. Pode-se inclusive, pensar em recursos que derivam deste tema para ilustrar melhor como está o desenvolvimento nas diferentes áreas da vida dele.

Diretamente relacionado a isso, pode-se abordar as expectativas que o cliente mantém acerca da vida ou de alguma área específica. No livro, o personagem, mesmo após o encontro tão esperado com a parte que tivesse o “encaixe perfeito”, não foi possível a “felicidade” esperada, pois perdas surgiram.

Antes do encontro com a parte do encaixe perfeito, durante a caminhada do personagem, ele conversa com a minhoca, canta, sente o pouso da borboleta, e especifica que esta era a melhor parte. Aqui cabe investigar papéis relevantes na vida do cliente, como: quem ou o que assume função de reforçadores na vida do cliente; o que a borboleta fazia o personagem sentir; quem ou o que é a borboleta na vida dele. Discriminar o valor reforçador dos estímulos é fundamental para que haja o cuidado na manutenção dele. No caso do personagem, não havia a discriminação da importância de muitos estímulos presentes e, para o “encaixe perfeito” ocorrer, necessariamente, haveria a perda de reforçadores.

A metáfora do valor da borboleta também pode ser feito com os outros eventos que a história apresenta: conversar com a minhoca; cantar; enfrentar descidas, subidas, suor, frio, neve, sol; cair em buracos… Quantas destas experiências poderiam ser agradáveis viver. As habilidades sociais podem ser um tema a ser abordado, observar se as relações interpessoais são consideradas como aversivas ou reforçadoras. Além disso, vale ressaltar a tolerância à frustração após tantos desafios que o personagem enfrenta para encontrar o que procura, sendo assim, é importante transpor para a vida do cliente, o quanto tem custado, quais desafios ele tem enfrentado buscando por algo que ele julga importante e que falta na vida.

Durante a procura, o personagem tem uma preparação e expectativa constante para receber a parte que o completa, cantarolando que vai “Assar pudim, fazer quindim” a cada passeio. E mesmo após tantos desafios, tentativas frustradas, o personagem segue cantando e procurando a parte que falta de forma mais calma. A tolerância à frustração e a insensibilidade às contingências andam lado a lado a partir de perspectivas de interpretação do livro. Por isso, para abordar tais temas, o terapeuta precisa estar atento às análises funcionais dos comportamentos do cliente, analisando consequências a curto, médio e longo prazo.

Existem diferentes momentos em que o personagem se frustra, dentre eles, um em que o personagem quebra uma parte que encontra e relaciona por ele segurar forte demais. A responsabilidade atribuída aos comportamentos dele pode servir de modelo para o cliente relacionar seus próprios comportamentos com não ter sucesso em suas tentativas, apesar de fazer melhor que podia.

A frustração também ocorre em forma rejeição, que é considerada como um punidor condicionado generalizado. A rejeição ocorre quando uma parte relata que não é inteira e não quer fazer parte do personagem. Nesta ocasião, há o exemplo do seguimento de uma regra pela parte diferente da que o personagem segue e pode ser um exemplo para ressaltar na terapia diferentes possibilidades de funcionamento de vida. A parte que o rejeita é bem menor que o personagem, o que supostamente não seria esperado, e questionar acerca do que momentos que o cliente já se sentiu desta forma. Deixar o cliente nomear o possível sentimento do personagem pode ser valioso na medida que se pode definir operacionalmente tal sentimento.

O livro também dá exemplos de muitas perspectivas dialéticas que ao serem trabalhadas podem formular autorregras mais descritivas acerca das contingências e sem excluir características que aparentemente são opostas, como ganhos e perdas (em todo ganho há perdas e vice versa); completude e incompletude (a completude é temporária e ocorre em uma área da vida); rejeitar e ser rejeitado (dependendo das regras que controlam os comportamentos, somos rejeitados ou rejeitamos); saciedade e privação (quando se está saciado, há a privação de outros reforçadores); e durante as sessões com diferentes clientes podem surgir outras.

Ao ter relatado aqui algumas possibilidades de uso do livro “A parte que falta” na psicoterapia comportamental, pretendeu-se ressaltar a importância do planejamento de sessão com base em análises funcionais do caso clínico realizadas previamente. Além de auxiliar os psicoterapeutas na organização metodológica do uso deste recurso terapêutico na sessão. Vale ressaltar que as estruturas apresentadas aqui são modelos flexíveis de atuação e que podem ser utilizadas de forma mais conveniente e útil para prática de quem for adotá-lo.


Bibliografia

Buarque, C. (1994). Chapeuzinho amarelo. 13. ed. São Paulo: Berlendis & Vertecchia Editores Ltda.

Johnson, S. (2010). Quem mexeu no meu queijo? 64ª Edição Rio de Janeiro: Record.

Joult, J. (2018). A falta que a falta faz. Vídeo retirado em: https://www.youtube.com/watch?v=GFuNTV-hi9M

Medeiros, C. A. (2010). Comportamento Governado por Regras na Clínica Comportamental: Algumas Considerações Em de-Farias, A. K. C. R (Org.), Análise Comportamental Clínica (pp. 95-111). Porto Alegre. Artmed.

Medeiros, C. A. & Medeiros, N. N. F. A. (2012). Psicoterapia Comportamental Pragmática: uma terapia comportamental menos diretiva. Em C. V . B. B. Pessoa, C. E. Costa & M. F. Benvenuti. Comportamento em Foco. v. 01. [417-436]. São Paulo: Associação Brasileira de Psicologia e Medicina Comportamental – ABPMC.

Pinheiro, R. S. (2012). A utilização de metáforas como recurso terapêutico. Portal Comporte-se.

Silverstein, S. (2013). A parte que falta. Trad. Alípio Correia de Franca Neto. São Paulo: Cosac Naify.

Saint- Exupery, A. (2015). O pequeno príncipe. Rio de Janeiro: Agir.

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