Breves comentários acerca do comportamento social e do comportamento verbal

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Skinner afirma que sua maior contribuição para o conhecimento humano foi a obra Verbal Behavior de 1957, em que ele define um dos comportamentos que é, por excelência, humano. Para Keller e Schoenfeld (1950/1966) nenhuma compreensão de comportamento humano será completa se não contemplar aspectos verbais. Dito isto, Skinner (1957) afirma que comportamento verbal poderia ser entendido como um comportamento operante, como qualquer outro, com a única diferença de que precisa ser mediado socialmente por um ouvinte, especificamente treinado pela comunidade verbal a consequenciar o comportamento do falante.

No entanto, para que exista o comportamento verbal, parece ser necessário que exista comportamento social antes. É indispensável o aspecto filogenético e ontogenético para que um comportamento emerja; nesse caso, as cordas vocais entraram sob controle operante (Skinner, 1974; 1986), no entanto, o comportamento verbal só pode ser modelado pela interação com o outro, o que elucida a importância do aspecto cultural. Comportamentos que são puramente sociais, como a imitação, são pré-requisitos para que se modele repertório verbal no ser humano.

Contudo, pode ser difícil, a priori, diferenciar o que é “só” comportamento verbal e o que é “só” comportamento social, visto que um pode estar, com frequência, intimamente relacionado ao outro, ainda mais quando levamos em conta o comportamento humano especificamente. Comportamento social é explicado quando o comportamento fica sob controle de estímulos antecedentes sociais e consequências também sociais, isto é, quando há efeito do comportamento do outro sobre o próprio comportamento.

Para que se analise tal comportamento, é necessário identificar operantes de ao menos dois organismos que interdependem um do outro para formar o episódio social. A isso, dá-se o nome de contingência entrelaçada[1](Vichi, Andery & Glenn, 2009; Toledo, Benvenuti, Sampaio, Marques, Machado & Moreira, 2015). Estas podem produzir um efeito agregado que, em contrapartida, quando gera uma consequência cultural, são chamadas de metacontingência (Vichi et al, 2009).

Mesmo assim, comportamentos sociais não necessariamente envolvem o comportamento verbal de forma óbvia; muitas vezes, o comportamento social emerge mesmo sem o comportamento verbal.

Outro ponto que é interessante salientar é que a língua pode ser definida como prática cultural segundo Skinner, tanto em entrevista[2]como em sua obra (1957; 1974). Isto é, a própria topografia do comportamento verbal depende e é diferencialmente reforçada pelo grupo em que se está inserido, sugerindo claramente que a estrutura (sintaxe, semântica, fonética, etc) do comportamento verbal é determinada culturalmente.

Isso não tira, absolutamente, a importância do comportamento verbal, e também não coloca o comportamento social num status diferente de um comportamento operante como qualquer outro; salvo polêmicas, a contingência tríplice ainda é o que explica esse comportamento da melhor forma possível até agora (Vichi et al, 2009; Toledo et al, 2015).

Muitos comportamentos que são do interesse das Agências Controladoras (Skinner, 1953), por exemplo, são mantidos apenas por contingências sociais sem necessariamente envolver o comportamento verbal. A cooperação, a competição, o altruísmo, a compaixão bem como outros comportamentos que são socialmente valorizados (ou reprovados) são mantidos por observação, imitação, sem qualquer papel central de variáveis verbais. Skinner (1953), no entanto, é perspicaz quando aponta que a mudança de práticas culturais pelo grupo pode demorar muito tempo (décadas, por exemplo) para ocorrer. O comportamento verbal pode ser um agente facilitador de mudanças, dado que muitas práticas culturais começam por meio de regras e máximas e, novas práticas poderiam, coerentemente, começar pela substituição das velhas regras por novas, correspondentes com as necessidades do grupo numa época diferente.

O presente texto é despretensioso em trazer qualquer tipo de discussão absolutamente complexa acerca do comportamento humano, teve apenas como objetivo elucidar questões que envolvem, muito brevemente, a definição de comportamento verbal, de comportamento social, breves impactos dos dois na vivência humana e como um pode se confundir com o outro em diversas instâncias. Talvez o que fica de importante é entender que todo comportamento verbal é social, mas que nem todo comportamento considerado social é necessariamente verbal, dado que este é encontrado em espécies infra-humanas, como formigas e abelhas (Dawkins, 1998; 2009) e o comportamento verbal ainda é, pelo menos até o presente momento, considerado por excelência humano.

 

Referências

Dawkins, R. (1998) A Escalada do Monte Improvável. São Paulo: Companhia das Letras.

Dawkins, R. (2009) O Maior Espetáculo da Terra. São Paulo: Companhia das Letras.

Keller, F. S.; Schoenfeld. W. N. (1966) Princípios de Psicologia. São Paulo: E. P. U. (obra original publicada em 1950)

Skinner, B. F. (1953) Science and Human Behavior. New York: Free Press

Skinner, B. F. (1957) Verbal Behavior. New York: Apple-Century Crofts.

Skinner, B. F. (1969) Contingencies of Reinforcement – a theoretical analysis. New York: Apple-Century Crofts.

Skinner, B. F. (1974) About Behaviorism. New York: Vintage Books.

Skinner, B. F. (1986) The Evolution of Verbal Behavior.

Toledo, T. F. N.; Benvenuti, M. F. L.; Sampaio, A. A. S.; Marques, N. S.; Machado, L. R.; Moreira, L. R. (2015) Free Culturant: a software for the experimental study of behavioral and cultural selection. Psychology and Neuroscience, v 8, n 3, pp. 366-384.

Vichi, C.; Andery, M. A.; Glenn, S. S. (2009) A metacontingency experiment: the effects of contingent consequences on patterns of interlocking contingencies of reinforcement. Behavior and Social Issues. 18, pp. 41-47.

[1]O próprio episódio verbal (Skinner, 1957) é um exemplo de contingência entrelaçada.

[2]Entrevista concedida para Eve Segal, em 1988, que pode ser acessada no link: https://www.youtube.com/watch?v=NpDmRc8-pyU

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