Afinal, o que seleciona o comportamento humano?

0

Comumente esse questionamento é levantado por diversas pessoas, não recaindo, somente aos profissionais da área da Psicologia. O comportamento humano é um fenômeno complexo, sendo que muitos são compreendidos equivocadamente e analisados inadvertidamente. Entender o que motiva um determinado comportamento demanda uma análise criteriosa e aprofundada, a isso dá-se o nome de Análise Funcional. Tal procedimento é realizado tomando como premissa que um comportamento não ocorre mediante o nada, pelo contrário, possuiu um ambiente que o antecedeu e teve papel na sua emissão e um contexto que consequenciou o comportamento da pessoa (Skinner, 1953/2003; Moreira & Medeiros, 2007).

Por meio da Análise funcional é possibilitado que se encontre a função do comportamento. Em concordância com Skinner (1953/2003) um comportamento só é emitido em um determinado ambiente devido a esse possuir uma função, além de ter sido selecionado pelo contexto no qual a pessoa está inserida.

Ao longo de seus estudos Skinner postulou princípios que facilitam uma análise apropriada do comportamento da pessoa (Baum, 2006). Entendendo que o ser humano é um organismo em constante evolução, Skinner (1953/2003) defendeu que os comportamentos do organismo humano podem e são selecionados seguindo os princípios da Filogênese, Ontogênese e da Cultura na qual a pessoa está inserida (Baum, 2006).

Determinados comportamentos que nós, enquanto seres humanos, apresentamos foram selecionados no nível filogenético (ou filogênese), ou seja, ao longo da história evolutiva da nossa espécie (homo sapiens sapiens), como por exemplo os comportamentos de luta e fuga diante de uma situação ansiogênica ou de risco a  vida, aumento do comportamento de buscar alimentos ou emissão de respostas que possibilitem o acesso a esse estímulo reforçador, quando privado desse, dentre outros comportamentos (Baum, 2006).

Não obstante, os outros dois princípios que Skinner descreveu, assim como o primeiro (Filogênese), estão relacionados à seleção de um comportamento e/ou um repertório comportamental do organismo. O nível ontogenético está relacionado a história de vida do indivíduo, suas experiências de reforçamento, punição, extinção e validação de seus comportamentos, sejam eles públicos e/ou privados. Junto a isso, entendendo que somos seres que buscam, continuamente, conviver em conjunto com outros organismos humanos e até mesmo não humanos, sendo esse comportamento selecionado desde os nossos ancestrais primatas, sendo assim a cultura da qual o indivíduo faz parte (amigos, vizinhos, instituições) selecionam e modelam, também, o repertório comportamental da pessoa.

Dito isso, a partir do entendimento desses princípios é possível realizar uma análise mais aprofundada e fidedigna do comportamento da pessoa. Sendo, ainda, facilitada a visualização de que o comportamento não ocorre do nada ou ao acaso, sendo esse perpassado por um processo histórico e contextual (Skinner, 1953/2003; Baum, 2006).

No entanto, mesmo possuindo um escopo teórico amplo, muito bem definido e delimitado a Análise do Comportamento continuamente recebe uma enxurrada de críticas, por ser considerada uma vertente superficial e/ou que percebe o ser humano como um robô, passível aos comandos do ambiente ao qual esse pertence. Sendo essas críticas, muitas vezes, acompanhadas de concepções equivocadas a respeito da filosofia do Behaviorismo Radical e/ou realizadas sem um estudo aprofundado do arcabouço teórico que a Análise do Comportamento possui e o que essa entende sobre o comportamento humano e interação deste com o ambiente em que vive (Skinner, 1974/2006).

Vale ressaltar que, a Análise do Comportamento não deve ser reduzida a, somente, esses três princípios, pois conforme apontado anteriormente a mesma possui um vasto escopo teórico que define e descreve outras variáveis que afetam a frequência do comportamento de um organismo, contando, ainda com um número acentuado de procedimentos que evidenciam eficácia no tratamento de diversas demandas podendo ser exemplificados por: organização de programas de ensino que possibilitem o desenvolvimento e aprimoramento de habilidades de pessoas que possuem algum déficit no desenvolvimento; tratamento de crianças com Transtornos do Espectro do Autismo (TEA); intervenção em escolas, objetivando melhorar metodologias de ensino e o engajamento do aluno nas rotinas escolares; no tratamento de transtornos psicológicos, tais como depressão, ansiedade, esquizofrenia, transtornos de personalidade; dentre outros contextos e ambientes que o Analista do Comportamento pode atuar (Baum, 2006).

Sendo assim, mediante uma análise adequada do comportamento humano, fundamentada nas postulações descritas nos princípios que selecionam o comportamento humano, entendemos que esse não ocorre ao acaso, ou seja, possui algo, um ambiente, que o antecede e que cria contexto para sua ocorrência, além disso, após a emissão da ação da pessoa uma consequência é gerada através da interação do organismo que se comporta com o ambiente em que esse faz parte, consequência essa que será predisponente para que esse mesmo comportamento ocorra ou não futuramente em situações semelhantes (Skinner, 1953/2003; Moreira & Medeiros, 2007).

Referências

Baum, W. M. (2006). Compreender o behaviorismo: comportamento, cultura e evolução. 2 ed. Porto Alegre: Artmed;

Moreira, M. B. & Medeiros, C. A. de (2007). Princípios básicos de análise do comportamento. Porto Alegre: Artmed;

Skinner, B. F. (1953/2003). Ciência e comportamento humano. 11 ed. São Paulo: Martins fontes;

______ (1974/2006). Sobre o behaviorismo. 10 ed. São Paulo: Cultrix.

Artigo anteriorQualificação avançada em Clínica Analítico Comportamental
Próximo artigoO papel dos pais na psicoterapia infantil
Lucas Polezi do Couto
Bacharel em Psicologia, pela Faculdade Pitágoras, Unidade Linhares, Espírito Santo. Pós-graduando em Análise do Comportamento Aplicada (ABA) pelo Instituto de Educação e Análise do Comportamento. Possui curso de "Implementador em terapia ABA", curso de formação em "Terapia de aceitação e compromisso - nível 1" (2017) e participação no "Workshop avançado de terapia de aceitação e compromisso (ACT) -nível 2 - aprofundando o conhecimento" (2018) ambos pelo Consultório Dr. Rafael Balbi. Possui curso de capacitação em "Diagnóstico psicológico infantil, ludoterapia e orientação para pais" (2017) e "Terapia cognitivo-comportamental na clínica com crianças e adolescentes e treinamento de pais" (2017) ambos pelo Ciclo CEAP (Centro de Estudos Avançados em Psicologia). Atualmente compõe a equipe da Casulo Comportamento e Saúde, clínica de Psicologia especializada no tratamento do autismo, como Implementador de Terapia ABA (Análise Aplicada do Comportamento).

COMENTE VIA FACEBOOK

DEIXE UMA RESPOSTA

Please enter your comment!
Please enter your name here

This site uses Akismet to reduce spam. Learn how your comment data is processed.