O Feminismo no Contexto Clínico – Discussões Preliminares

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A Psicologia, como uma das áreas de conhecimento científico, tem o compromisso e a responsabilidade, tanto na sua evolução como ciência como na atuação de seus profissionais.

Assim, torna-se essencial e necessário o investimento contínuo na formação do profissional da área. Quando iniciei a faculdade de Psicologia, me deparei com inúmeras regras de como eu deveria me comportar dentro do setting terapêutico. Dentre essas regras, lembro-me de experimentar bastante incômodo ao ouvir que como terapeuta, eu precisaria abster de mim em detrimento ao cliente. Que eu deveria manter uma neutralidade!

Em uma busca simples na internet, a neutralidade é:
“Qualidade de ser neutro ou imparcial; que é neutro, não altera, não muda” ou ainda (…)“pessoas que não manifestam nenhum tipo de opinião sobre determinado assunto; (…) qualidade ou estado do que é neutral; imparcialidade; indiferença” e, além disso, (…) “aquele que não toma partido”.

Eu ficava pensando – Como faz para ser neutra quando se tem uma história? Como abster-se de quem somos, quando, antes mesmo ser sermos terapeutas, somos pessoas inacabadas?

Quando estudamos Vygotsky, aprendemos que as pessoas são influenciadas pela sua história e cultura. Bachrach (1975), afirma que os cientistas são influenciados pela sua cultura e visão de mundo na hora de escolher seus temas de pesquisa. Quando entramos mais profundamente nos determinantes da análise do comportamento, segundo Skinner (2007), o comportamento é multideterminado em três níveis:

Filogenético ou Filogênese

Que está relacionado ao surgimento das espécies e que descreve todos como homo sapiens e como tal, possuem características específicas como um cérebro, órgãos e traços que funcionam de modo específico; ou seja, fisiologia, biologia e anatomia similares.

Ontogenético ou Ontogênese

Nível mais importante
para a Psicologia!

Se relaciona a história de interações do indivíduo com o ambiente, o que chama-se sinteticamente de história de vida.

Cultural

Se caracteriza sob o raciocínio de que não somos apenas um homo sapiens – sapiens, vivendo uma história de vida específica. O nível cultural faz parte das práticas de grupos, que são passadas de geração em geração, onde o indivíduo está inserido.

Baseada nas minhas indagações, aliadas a essas informações, iniciei um projeto de iniciação científica, cuja proposta é de dedicar-se à formação do psicólogo e, para tanto, precisávamos levantar questões relevantes na atuação desse profissional voltado às atuações clínica e da saúde.

Gosto muito dos temas emergentes na atuação psicoterapêutica, com destaque à discussão do feminismo e suas implicações na atuação clínica e, por uma questão de afinidade e paixão pelo assunto, fui encorajada pela minha orientadora, também analista do comportamento, a me deleitar no tema.

Pesquisar e discutir variáveis determinantes para a qualidade da prática profissional, me abriu os olhos para compreender e estudar cultura mais profundamente também, porque sim, somos influenciados pelo ambiente e pelas práticas culturais! E enfatizo desde já, que é de suma importância a prática associada às pesquisas que promovem o desenvolvimento da área.

Voltando à inquietação inicial, parei para refletir e observar os meus próprios movimentos como estudante e nesta auto-observação, concluí que até mesmo o meu tema de pesquisa de iniciação científica; não foi uma escolha neutra. Foi uma escolha movida por uma inquietação – primeiramente pessoal e depois coletiva. Falando mais especificamente sobre o meu tema de pesquisa, que é o feminismo no contexto clínico, ao discutir com outros pesquisadores, acabei percebendo que a neutralidade pressupõe silêncio sobre posições políticas, e esse silêncio fecha os olhos sobre um contexto de opressão e desigualdade. Diante de um sofrimento humano, neutralidade é omissão. Não dizer nada é ser conivente com o que está causando determinados sofrimentos.

Minha proposta não é de que haja ativismo ou militância dentro da clínica mas, sim, que seja possível propor uma discussão sociocultural quando for necessário, com função clara de auxiliar a cliente a compreender que determinados fatores patriarcais, podem gerar uma parcela de suas dores. Além disso, com foco na formação profissional, promover aos profissionais de psicologia, reflexões a respeito de influências patriarcais em sua atuação clínica, para que seja possível minimizar a possibilidade de o terapeuta reproduzir no setting, o que a sociedade já produz.

Este é o primeiro post de uma série de reflexões que pretendo trazer acerca do tema e espero que participem, sugerindo mais vertentes ou contrapontos, para que possamos juntos, enriquecer esse espaço.

Até a próxima! ;-)

Referências Bibliográficas

  • BACHRACH, A.J. Introdução à pesquisa psicológica. São Paulo: EPU. 1975.
  • FARIAS, Kamila Gadelha; CASTRO, Maria Da Silva. Psicologia feminista: uma abordagem comprometida com a mudança social – Campina Grande, 2016.
  • KOLL, Marta de Oliveira. Vygotsky: Aprendizado e desenvolvimento: um processo sócio-histórico. São Paulo: Scipione, 2010
  • SKINNER, B. F.. Seleção por consequências. Rev. bras. ter. comport. cogn., São Paulo, v. 9, n. 1, p. 129-137, jun. 2007. Disponível em: http://pepsic.bvsalud.org/scielo.php?script=sci_arttext&pid=S151755452007000100010&lng=pt&nm=iso.

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2 COMENTÁRIOS

  1. Eu fico muito feliz de ver esse tipo de discussão tomando conta da AC. É muito importante ter consciência de que a ciência não é neutra, ela também fica sob controle das variáveis culturais e históricas, e nós como analistas do comportamento devemos estar atentos a isso. Parabéns! ficarei aguardando ansiosamente os próximos posts.

    • Olá, Luã, seja bem-vinde! :-)
      Fico bastante feliz com seu comentário, porque além de ser um assunto emergente, é um tema que eu amo falar! Fique à vontade para interagir, sempre. Um abraço.

      Cíntia Milanese

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