[Entrevista – Priscila Rolim] – O Desafio de ser Terapeuta e Treinadora FAP

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A Terapia Analítica Funcional, uma abordagem comportamental em que a própria relação terapêutica é utilizada como forma de intervenção, costuma despertar o interesse de muitos membros da comunidade de analistas do comportamento e está em constante crescimento. Para falar sobre o assunto convidamos a Priscila Rolim, que obteve a certificação como Treinadora FAP em 2017, para compartilhar conosco um pouco de como é a atuação de um Psicoterapeuta FAP e, também, contar um pouco de como foi o seu processo de certificação.

Foto: arquivo pessoal da entrevistada

Priscila Rolim de Moura é Psicóloga (CRP 06/85737), mestre em Psicologia Clínica pela Leiden University (Holanda), especializada em Terapia Cognitivo Comportamental pelo Ambulatório de Ansiedade do Instituto de Psiquiatria, Hospital das Clínicas (FMUSP), fundadora do iMind – Psicologia e Mindfulness e uma das Organizadoras da tradução do livro FAP Made Simple (Holman et al., 2017). Atua como psicoterapeuta clínica, professora, supervisora e possui Certificação de Treinadora em Psicoterapia Analítica Funcional (FAP), concedida pela University of Washington – EUA, em 2017. Ela participa continuamente nos treinamentos FAP diretamente com os precursores da técnica, bem como outros nomes importantes nas terapias comportamentais contextuais. Priscila também adquiriu experiência trabalhando como psicoterapeuta em uma Clínica Especializada em Psiquiatria Intercultural (iPsy – Holanda), ajudando imigrantes e pessoas que sofreram traumas em países que estão em conflitos armados, como o Afeganistão, Angola, Iraque e Paquistão. Membro da Associação Brasileira de Psicologia e Medicina Comportamental (ABPMC) e da Associação de Ciências Comportamentais Contextuais (ACBS). E-mail para contato: pri_rolim@me.com – http://www.priscilarolim.com

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Priscila: Primeiramente gostaria de agradecer o convite para dar uma entrevista ao Portal Comporte-se. Foi uma experiência extremamente enriquecedora e desafiante!

“A FAP tem o objetivo de conduzir o terapeuta a uma relação genuína, envolvente, sensível e cuidadosa com seu cliente, e, ao mesmo tempo, apropriar-se das definições claras, lógicas e precisas dos princípios comportamentais. Concluindo, a essência de ser um terapeuta FAP é ter a habilidade de viver na relação funcionalmente, momento a momento.”

Comporte-se: Muita gente diz “usar” FAP, mas, a FAP, parece uma abordagem comportamental completa. Diante disso, existe a dúvida: o que define um terapeuta FAP? Que características sua prática deve ter para que ele seja considerado Terapeuta FAP? 

Priscila: Muito embora a Psicoterapia Analítica Funcional (FAP; Kohlenberg & Tsai, 1991), seja um tipo de terapia comportamental, ela é bastante diferente das terapias comportamentais tradicionais, tais como o treinamento em habilidades sociais, reestruturação cognitiva, ou ativação comportamental.

A FAP é sobre criar relações terapêuticas com o intuito estratégico de promover mudanças no comportamento do cliente. A grande diferença da FAP para outras abordagens é que ela entende que o processo de transformação em terapia ocorre por meio da relação terapêutica, usando-a como veículo principal durante o processo de mudança. Esse entendimento sobre a FAP é o que a difere de outras terapias comportamentais.

Eu entendo que para ser considerado um Terapeuta FAP, a pessoa que conduz a sessão é encorajada a prestar uma atenção especial ao que está acontecendo no processo interpessoal, entre o cliente e o terapeuta, enquanto a sessão de psicoterapia se desdobra, privilegiando os comportamentos de melhora do cliente ou como o terapeuta deve responder contingencialmente para promover mudança. A FAP tem o objetivo de conduzir o terapeuta a uma relação genuína, envolvente, sensível e cuidadosa com seu cliente, e, ao mesmo tempo, apropriar-se das definições claras, lógicas e precisas dos princípios comportamentais. Concluindo, a essência de ser um terapeuta FAP é ter a habilidade de viver na relação funcionalmente, momento a momento.

Comporte-se: Ainda sobre o “uso” da FAP, que cuidados um profissional precisa ter para incorporar ferramentas da FAP à sua prática ao mesmo tempo em que permanece atuando como um Terapeuta Comportamental de outra vertente, como Terapia de Aceitação e Compromisso, Terapia Analítico-Comportamental, Terapia Comportamental Dialética ou outras?

Priscila: Esta é uma questão muito intrigante, pois fiquei tentando imaginar o que consideram ferramentas FAP. Resolvi me arriscar!

Uma das coisas que fazemos na FAP é a modelagem de CCR1 (nomeados como comportamentos clinicamente relevantes 1, ou comportamento-problema) e CCR2 (nomeados como comportamentos clinicamente relevantes 2, ou comportamento de melhora), com o foco na modelagem do CCR2. Então, se o terapeuta somente usar modelagem em qualquer outro tipo de terapia não significa que estará fazendo FAP, mas sim, modelando comportamento em sessão. Para mim, a modelagem faz parte de um processo/procedimento e pode ser usada em qualquer outra terapia, porém, a FAP vai muito além de modelar comportamento em sessão, que é viver a relação de forma íntima e genuína.

Muitas pessoas têm a impressão que usar a FAP é viver a relação de maneira intensa e “açucarada” e um grande risco é que ser consciente, corajoso e amoroso em sessão possa parecer falso. Quando a FAP propões três grandes classes funcionais para o comportamento do terapeuta e do cliente em sessão (estar consciente, ser corajoso e ser amoroso), ela deixa muito claro que a relação se pautará na manifestação transparente desses comportamentos por ambos os membros da díade, sendo a  genuinidade essencial para a FAP.

O núcleo da FAP é o responder contingente do terapeuta com relação aos CCRs presentes na sessão, portanto, a FAP fornecerá regras para os terapeutas que direcionarem a atenção para as ocorrências do comportamento dentro da sessão e para a sua função, e para que isso seja feito de forma contingente e contigua é preciso estar atento, sensível e em sintonia com o que o cliente precisa de fato para poder evocar comportamentos de melhora (CCR2).

O terapeuta que utilizar a FAP como técnica, também pode correr o risco de reforçar um CCR1 e / ou ignorar ou punir um CCR2 se não estiver atento a conceituação de caso, produzindo então um efeito contraproducente para as melhoras do cliente. Por exemplo, se o cliente tiver dificuldade de entrar em contato com eventos privados, durante uma meditação pode ser evocada uma resposta de esquiva ou caso tenha dificuldade em confiar nas pessoas, o cliente pode ter dificuldade de fechar os olhos na mesma situação. Lembrando de que CCR1 não é inerentemente ruim, e CCR2 não é inerentemente bom.

O que pode ser um CCR1 para um cliente pode ser um CCR2 para outro; da mesma forma, o que pode ser um CCR1 para um cliente em um contexto pode ser um CCR2 para esse mesmo cliente em um contexto diferente; e o que pode ser um CCR2 para um cliente em um ponto no tempo pode ser um CCR1 para o mesmo cliente em um momento posterior (Holman et al., 2017).

Comporte-se: No contexto da prática baseada em evidências, muitas psicoterapias são mais recomendadas para algumas populações do que para outras. Quais populações se beneficiam da Terapia FAP em maior grau?  E, claro, existem restrições ou populações para as quais a FAP não é recomendada?

Priscila: A aplicação da FAP é de criar e aprimorar um processo interpessoal íntimo entre o cliente e o terapeuta e direciona diretamente o funcionamento interpessoal do cliente, especificamente no que diz respeito ao relacionamento.

Esse foco estava lá desde o começo, coexistindo como uma ênfase contrastante com o amplo quadro funcional que permitia que a FAP visasse qualquer coisa: o texto original da FAP (Kohlenberg & Tsai, 1991) sugeriu que a FAP era bem adequada para “clientes que não obtiveram uma melhora adequada com as terapias comportamentais convencionais e àqueles que têm dificuldades em estabelecer relações de intimidade e/ou têm problemas interpessoais difusos, pervasivos,”(p. 2).

Assim, dentro de uma estrutura mais ampla e flexível, a FAP pode ser aplicada em vários contextos e o funcionamento interpessoal tem sido o alvo prototípico do processo terapêutico nesta abordagem. Essa visão fluida, idiográfica e dependente do contexto que ocorrem os CCRs é consistente com o pensamento clínico dentro da ciência comportamental contextual que enfatizava a compreensão das ações do indivíduo único no contexto, em vez de generalizar a partir de grupos ou estatísticas.

É uma pergunta muito interessante, e a ideia é que a FAP seja flexível, mas penso que talvez exista uma população que não seja recomendada para cada terapeuta. Eu acredito que talvez não seja somente sobre o uso da FAP em certas populações, mas sim sobre ter habilidades interpessoais para usar a FAP com certos clientes. Para que você possa implementar habilmente a FAP, você tem que estar se desenvolvendo ativamente, assim como a sua capacidade de se relacionar com a análise funcional, ou seja, um terapeuta que esteja disposto a se desenvolver tanto intelectualmente (raciocínio clínico, conceituação de caso, análises funcionais), quanto as habilidades interpessoais dentro e fora de sessão. A pergunta que repercute é “o que você é capaz fazer com o uso da FAP”?

Comporte-se: Recentemente você concluiu o processo para obtenção da certificação de Treinadora FAP. Como foi o percurso?

Priscila: Desafiante, doloroso, íntimo, florescente… São tantos adjetivos! Aprendi que sou forte, que sou capaz de lidar com muitas adversidades e ressignificá-las. É preciso muita força e sabedoria para transformar experiências difíceis em crescimento e escolhas. Muitos de nossos clientes enfrentam esses desafios, e nossos aprendizados pessoais podem e devem adicionar durante a prática clínica. Quais são nossas escolhas, para enfrentar esses desafios e aprender o quanto podemos crescer ou desistir?

O que eu sei sobre a FAP é que, se você se desafiar de verdade (você tem que durante o percurso para obter o Certificado), será capaz de se desafiar dessa maneira durante as sessões com os seus clientes.

Comporte-se: O que muda em sua carreira e em sua prática à partir do momento em que você recebe o certificado?

Priscila: Na minha experiência, receber o certificado foi o reconhecimento de alguns anos de dedicação e amor a FAP. A maior mudança foi durante o percurso. Hoje, meu objetivo é equilibrar a reflexão, consciência e a ação. Aprendi que foi muito importante trabalhar no desenvolvimento do meu estilo pessoal, ser genuína, corajosa e compassiva, enquanto aprimoro as minhas habilidades analíticas e interpessoais, fiel aos tratamentos baseados em evidências.

Embora a FAP careça de dados experimentais robustos que a coloque no cenário de tratamentos baseados em evidências, a partir do momento que você se submete a muitos treinos e aquisições nessa área aperfeiçoando suas habilidades terapêuticas, estará focando na perícia e capacidade clínica e profissional e esse é um dos pilares das práticas baseadas em evidências, ou seja, o melhor do conhecimento teórico, com especificidades do cliente e a melhor perícia técnica do terapeuta.

Comporte-se: Que recomendações você pode deixar àqueles que se interessem por se tornar terapeutas FAP? Por onde podem começar a se qualificar? 

Priscila: Minha recomendação é que comecem a se expor mais ao treino vivencial da FAP, isso inclui as supervisões, workshops experienciais e terapia na abordagem. Um dos requisitos para se certificar é fazer no mínimo 20 sessões de supervisão com um terapeuta Certificado tanto do sexo masculino quanto feminino. Por meio da supervisão, o terapeuta aprenderá a ter mais consciência dos próprios repertórios e controle de estímulos, portanto, ter mais domínio e sabedoria ao realizar uma intervenção. Já o workshop, tem o objetivo de conduzir exercícios experienciais a fim de modelar diretamente as habilidades e o repertório do terapeuta, integrando com a aplicação das cinco regras da FAP.

REFERÊNCIAS:

Holman, G., Kanter, J., Tsai, M., Kohlenberg, R. J., & Hayes, S. C. (2017). Functional Analytic Psychotherapy Made Simple (1o ed). Oakland, CA: New Harbinger Publications.

Kohlenberg, R. J., & Tsai, M. (1991). Functional Analytic Psychotherapy: Creating Intense and Curative Therapeutic Relationships. Springer.

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