IDIOGRAFIAS DA CONEXÃO SOCIAL

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Ao longo da nossa vida encontramos diversas pessoas. Algumas tornam-se muito importantes, enquanto outras passam por nós deixando um pequeno fragmento na memória. É cabível pensar que há algo de especial naqueles que chamamos de queridos. No entanto, às vezes a afeição que temos por aquela pessoa querida aparenta ser tão natural e óbvia que não nos parece necessário entender o que nos mantém próximos daqueles que amamos. Será a gentileza, o respeito? São as demonstrações de amor? Será que todas as demonstrações de amor, mesmo aquelas respeitosas, são bem-vindas?

Se você está se perguntando qual a relevância de falarmos de entes queridos, já chego lá. Um dado recente indica que a conexão social, i.e., sentir-se conectado com outras pessoas, é de extrema relevância para a nossa saúde, diminuindo inclusive a chance de mortalidade (Holt-Lunstad, Robles, & Sbarra, 2017). Comportamentos potencialmente prejudiciais como fumar e beber parecem ser menos danosos do que não estar conectado a outras pessoas. Talvez esta notícia soe como algo novo, mas se considerarmos que nossa espécie evoluiu em grupo e que no início de nossa vida somos extremamente dependentes de outros, a informação se torna menos surpreendente. A nossa fisiologia, o funcionamento do nosso corpo, parece estar tão disposta às relações sociais que mesmo aquela sensação de “calor humano” é, possivelmente, influenciada pela própria temperatura do corpo (Inagaki, Irwin, & Eisenberger, 2015). Além disso, variações genéticas podem aumentar nossa sensibilidade às interações com outras pessoas, influenciando diretamente a bioquímica cerebral (Pearce et al., 2017). Combinados, estes achados apenas destacam a importância das conexões sociais.

Há, no entanto, um dado que merece destaque. Ao longo da vida nós adquirimos uma série de reações corporais, como alterações no batimento cardíaco e nas reações faciais, que favorecem a nossa aproximação diante das pessoas que amamos (Guerra et al., 2012). Tais reações são específicas, não ocorrendo diante de todas as pessoas que conhecemos. É muito comum encontrar clientes que vivem um relacionamento “saudável” com os pais, amigos e parceiros, com demonstrações de carinho e respeito, mas que ainda assim não se sentem satisfeitos com as pessoas ao seu redor. Nestes casos, vemos que a conexão social possui certa especificidade, como se nosso comportamento de se aproximar das pessoas fosse selecionado por certas “características” do nosso grupo social. Cabe então perguntar: como uma pessoa se torna importante para nós? Este texto tenta responder parcialmente esta pergunta demonstrando de que forma a psicoterapia pode auxiliar o indivíduo em sofrimento a se conectar socialmente. Para iniciar, vamos analisar juntos um caso fictício.

NEM TODA RELAÇÃO SOCIAL É REFORÇADORA

Adriana, de 57 anos, vive sozinha depois que sua filha Sara, de 25 anos, se mudou para o exterior. Desde que a filha viajou, sente que as coisas não são mais prazerosas, mantém um semblante triste a maior parte do tempo e reduziu suas atividades diárias consideravelmente. Quando chega à terapia, relata uma sensação constante de “falta”. Nos finais de semana, por insistência das amigas, vai até um bar de sua cidade onde há música ao vivo e no qual é sempre bem tratada pelos vizinhos e funcionários do local. Ainda assim, o momento com as amigas que já foi deveras prazeroso agora parece apenas um compromisso. Os únicos momentos em que Adriana se sente bem é quando a filha liga e quando está com seu companheiro, Carlos, que a visita nos finais de semana.

Avaliando a rede de apoio de Adriana, é possível inferir que ela possui conexões sociais (e.g., amigas e companheiro). Entretanto, há algo de diferente. O contato social com as pessoas ao seu redor parece insuficiente, exceto quando está com Carlos. As demonstrações de carinho, respeito e gentileza das amigas são recebidas com agrado por Adriana, mas a mesma relata não sentir ânimo para sair ou encontrar as amizades. Com Carlos, Adriana comenta que se sente bem e “útil”, pois ajuda o companheiro a cuidar da saúde, já que Carlos é diabético. Por que Adriana não se sente tão mal quando está com Carlos?

ESPECIFICANDO REFORÇADORES SOCIAIS

Uma primeira análise do caso de Adriana demonstra que ela está deprimida. O modelo da terapia de Ativação Comportamental, uma das terapias mais eficazes para os sintomas de depressão, sugere que Adriana está com seu repertório comportamental reduzido e, com isto, perdeu o acesso a reforçadores de alta magnitude (Kanter et al., 2009). Diminuir o número de atividades em momentos de tristeza é algo frequente em nossa espécie, todavia, quando nos isolamos perdemos uma série de consequências ambientais que nos mantém em funcionamento (Ferster, 1973). A análise funcional dos comportamentos de Adriana indicou que a maior parte de sua rotina se resumia a ações de cuidado direcionadas à filha, tanto em tarefas diárias quanto em situações adversas. Na história de reforçamento de Adriana, i.e., na história de como seus comportamentos foram selecionados pelas consequências do ambiente ao longo do tempo (Pipkin & Volmer, 2009), vemos que a mesma aprendeu desde muito nova a cuidar dos entes queridos, sendo recompensada com amor e agradecimento. Estes comportamentos de cuidado eram mantidos em maior parte pela filha de Adriana, que a recompensava com demonstrações de gratidão e carinho. Desta forma, foi possível entender porque a distância da filha a influenciava de maneira tão intensa: ela estava longe do contexto que possibilitava suas reações de cuidado (a filha) e do reforço que mantinha a ocorrência destes comportamentos (o agradecimento e as demonstrações de carinho da filha). Neste caso, todo o conjunto de comportamentos de cuidado de Adriana estavam suprimidos: ocorriam raramente e apenas quando o companheiro estava próximo.

O tratamento de Adriana envolveu dois modelos distintos de terapia, uma combinação entre Ativação Comportamental e Psicoterapia Analítica Funcional (sigla em inglês, FAP) (Bush et al., 2010). O principal modelo de trabalho foi a FAP, cujo foco está na relação entre o cliente e o terapeuta e seu principal objetivo é auxiliar o indivíduo a desenvolver relações interpessoais saudáveis utilizando do ambiente terapêutico como laboratório de aprendizagem (Kohlenberg & Tsai, 2006). Na FAP, os comportamentos do cliente que prejudicam suas relações interpessoais e sua melhora clínica são chamados de comportamentos clinicamente relevantes. No caso de Adriana, estes eram as queixas constantes e o desânimo expresso em terapia, pois os mesmos a perturbavam e a impediam de voltar à sua rotina. O propósito do terapeuta na FAP é modelar os comportamentos de melhora do cliente reforçando naturalmente as pequenas aproximações que o cliente faz de um comportamento saudável para suas relações interpessoais (Tsai et al., 2009). Reforçar naturalmente é reagir aos comportamentos de melhora do cliente de forma genuína, demonstrando atenção, respondendo às demandas expressas em terapia de maneira clara e considerando reações que podem ocorrer no cotidiano do cliente quando este realiza o comportamento de melhora fora do consultório. No caso de Adriana, os comportamentos de melhora eram demonstrações de cuidado da cliente para com outras pessoas importantes e relatos sobre atividades novas que realizava ao longo da semana. Tais comportamentos eram reforçados com a atenção do terapeuta e com demonstrações de agradecimento do mesmo diante das tentativas de Adriana.

Ao longo da terapia, o terapeuta criou um ambiente para Adriana expressar suas queixas e sua tristeza, além de treinar em conjunto com a cliente a discriminação dos contextos que geravam seus problemas. Posteriormente, o terapeuta demonstrou que tais contextos poderiam ser utilizados como “sinais” para a ocorrência dos comportamentos de melhora. A ideia geral do tratamento estava ligada à hipótese de que os comportamentos de melhora de Adriana eram incompatíveis com as queixas e com a sensação de “vazio” que esta sentia. Para aumentar a frequência dos comportamentos de cuidado e de outras habilidades o terapeuta reforçava a ocorrência destes em sessão, demonstrando curiosidade e agradecendo genuinamente as tentativas da cliente. Aos poucos, através de uma programação da rotina de Adriana, demonstrações de cuidado foram transmitidas a outras pessoas importantes e novas habilidades (participação em grupos de dança, por exemplo) foram reforçadas com o agradecimento e carinho da filha (por telefone) e do companheiro.

Em terapia, Adriana foi estimulada a compreender seu sofrimento de acordo com uma perspectiva funcional (Villas-Bôas et al., 2015). Nesta compreensão, o contexto nos quais os comportamentos clinicamente relevantes de Adriana ocorriam e os componentes ambientais que os mantinham eram explicados para que a cliente adquirisse autoconhecimento (Por exemplo: em casa, quando estava sozinha, a sensação de vazio e desânimo tomava conta e o comportamento de dormir para aliviar o sofrimento ou de ligar para o companheiro para saber de sua saúde aumentava de frequência). Através do autoconhecimento adquirido em terapia, Adriana compreendeu a importância das reações de gratidão e agradecimento em sua vida e pôde busca-las em outros meios.

CONEXÃO SOCIAL?

O caso de Adriana exemplifica algo muito comum em terapia: os reforçadores que mantém a conexão social dos clientes com pessoas próximas não são, via de regra, reforçadores sociais inespecíficos. As amigas de Adriana eram afetivas e presavam pela presença dela, sempre de forma muito gentil. Todavia, quando o ambiente da cliente é abalado pelo afastamento de sua filha e pela perda de um reforçador muito importante para a maioria dos seus comportamentos de cuidado, outros reforços ambientais importantes como a atenção e o carinho das amigas pareceram pouco relevantes. Ao longo da história de vida de Adriana, esta aprendeu a cuidar e os sorrisos e agradecimentos que recebeu de parentes próximos e de sua filha proporcionavam a ela uma sensação única, agradável e importante para sua vida.

Outros fatores poderiam ser considerados no caso de Adriana. Questões de self e autocuidado poderiam ser formuladas, porém, estas não se apresentaram como demandas clínicas no caso. O principal recado da presente análise é de que as pessoas se tornam importantes para nós pelas reações que estas demonstram diante de nossos comportamentos. Neste sentido, conexão social é intimidade. É ser reforçado na maior parte das vezes por revelar vulnerabilidades pessoais que foram julgadas/punidas no passado (Cordova & Scott, 2001). O detalhe é que o reforço social que fortalece a intimidade é algo tão dependente da nossa história que às vezes nem ao menos percebemos sua ocorrência. Quando entendemos o que nos aproxima das pessoas podemos escolher se queremos ou não nos aproximar, podemos optar trabalhar no final de semana ou aproveitar aquela reação única que nosso amigo(a)/parceiro(a) possui e, o melhor, podemos nos conectar com aquela pessoa especial.

Referências

Busch, A. M., Manos, R. C., Rusch, L. C., Bowe, W. M., & Kanter, J. W. (2010). FAP and Behavioral Activation. In: Kanter, J. W., Tsai, M., & Kohlenberg, R. J. The practice of Functional Analytic Psychotherapy. New York: Springer. 65-82.

Cordova, J. V., & Scott, R. L. (2001). Intimacy: A behavioral interpretation. The Behavior Analyst24(1), 75-86. doi:10.1007/BF03392020

Ferster, C. B. (1973). A functional analysis of depression. American psychologist28(10), 857-870. doi:10.1037/h0035605

Guerra, P., Sánchez-Adam, A., Anllo-Vento, L., Ramírez, I., & Vila, J. (2012). Viewing loved faces inhibits defense reactions: a health-promotion mechanism?. PloS one7(7), e41631, 1-9. doi:10.1371/journal.pone.0041631

Holman, G., Kanter, J., Tsai, M., & Kohlenberg, R. (2017). Functional Analytic Psychotherapy made simple: a practical guide to therapeutic relationships. Oakland: New Harbinger Publications.

Holt-Lunstad, J., Robles, T. F., & Sbarra, D. A. (2017). Advancing social connection as a public health priority in the United States. American Psychologist72(6), 517-530. doi:10.1037/amp0000103

Inagaki, T. K., Irwin, M. R., & Eisenberger, N. I. (2015). Blocking opioids attenuates physical warmth-induced feelings of social connection. Emotion15(4), 494-500. doi:10.1037/emo0000088

Kanter, J., Busch, A. M., & Rusch, L. C. (2009). Behavioral activation: the CBT distinctive features series. New York: Routledge.

Kohlenberg, R. J., & Tsai, M. (2006). Psicoterapia Analítica Funcional: criando relações terapêuticas intensas e curativas. Santo André: ESETec.

Pearce, E., Wlodarski, R., Machin, A., & Dunbar, R. I. (2017). Variation in the β-endorphin, oxytocin, and dopamine receptor genes is associated with different dimensions of human sociality. Proceedings of the National Academy of Sciences, 201700712, 1-6. doi:10.1073/pnas.1700712114

Pipkin, C. S. P., & Vollmer, T. R. (2009). Applied implications of reinforcement history effects. Journal of applied behavior analysis42(1), 83-103. doi:10.1901/jaba.2009.42-83

Tsai, M., Kohlenberg, R. J., Kanter, J. W., & Waltz, J. (2009). Therapeutic technique: the five rules. In: Tsai, M., Kohlenberg, R. J., Kanter, J. W., Kohlenberg, B., Follette, W. C., & Callaghan, G. M. A guide to Funcional Analytic Psychotherapy: awareness, courage, love, and behaviorism. New York: Springer. 61-102.

Villas-Bôas, A., Meyer, S. B., Kanter, J. W., & Callaghan, G. M. (2015). The use of analytic interventions in Functional Analytic Psychotherapy. Behavior analysis: research and practice15(1), 1-19. doi:10.1037/h0101065

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1 COMENTÁRIO

  1. Ótimo texto, Gibson. Parabéns! Achei muito interessante o caminho terapêutico no caso da Adriana com a fundamentação teórica que você apresenta.
    Abraços.

    Instagram: @cafeecomportamento

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