Mas para usar ACT eu preciso aprender RFT?

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Talvez essa pergunta já tenha passado pela sua cabeça, ou você já tenha conversado com algum colega/amigo/aluno que fez essa pergunta ao começar a trilhar o caminho pela ACT. O objetivo da coluna contACTo esse mês é, portanto, tentar clarear um pouco a cabeça de quem se interessou e está se enveredando pela ACT e de repente se depara com a RFT. Para que serve? Preciso estudar? Uso para quê?

Bom, comecemos diferenciando uma coisa da outra. A Terapia de Aceitação e Compromisso (ACT) é uma terapia baseada nos princípios do Contextualismo Funcional, apresentada com a publicação do livro Acceptance and Commitment Therapy, dos autores Steven Hayes, Kirk Strosahl e Kelly Wilson, em 1999. A Teoria das Molduras Relacionais (RFT) é uma teoria sobre linguagem e cognição, também baseada nos princípios do Contextualismo Funcional, apresentada dois anos depois, com a publicação do livro Relational Frame Theory, dos organizadores Steven Hayes, Dermot Barnes-Holmes e Bryan Roche.

Embora seu a publicação do seu principal manual tenha ocorrido depois, pode-se dizer que ACT e RFT co-evoluíram, sendo a segunda apresentada como uma teoria que embasaria os princípios e ideias apresentados primeira, trazendo bases experimentais para a questão do sofrimento abordada pela ACT a partir do foco no responder relacional, isto é, à nossa capacidade de responder a estímulos a partir de relações.

Sendo assim, imaginemos um cliente que chega para um terapeuta ACT com a seguinte queixa (simplificada): Sou uma pessoa ansiosa. Não aguento mais ser assim, sentir essas coisas.

Diante desse contexto, na cabeça do terapeuta instruído em ACT, viriam aquelas duas palavras básicas: esquiva experiencial. Certo? Intervenções já vêm à mente no sentido de entender a função daquela ansiedade, conseguir olhar seus aspectos e promover aceitação, trazer o cliente para entrar em contato com seus valores, ainda que aquela ansiedade esteja presente, entre outras coisas.

O que acontece se pensarmos nessa queixa em termos de princípios abordados pela RFT? Podemos pensar em que tipo de moldura relacional se enquadraria a palavra “ansiosa” (da frase “sou uma pessoa ansiosa”). É bem possível que esteja em uma moldura de oposição com termos como “normal”, “tranquilo”, ou mesmo com ideias como “bem-sucedido” ou “saudável”. É possível que esteja em molduras de hierarquia com o próprio “eu”. Adoraríamos, enquanto terapeutas, que “ansioso” fosse hierarquicamente inferior a “eu”, isto é, eu posso ser muitas coisas, dentre elas, ansioso, o que significa que essa não é uma característica que me define ou controla majoritariamente a forma como me comporto.

No ano passado, Dermot Barnes-Holmes, Yvonne Barnes-Holmes, Carmen Luciano e Ciara McEnteggart publicaram um artigo no JCBS (Journal of Contextual Behavioral Science) com uma proposta de uma estrutura de análise complementar de pesquisa em RFT, chamada multi-dimensional multi-level (MDML), no qual criam especificações que podem trazer a tão questionada ligação entre os princípios da RFT e a prática clínica. Podemos falar de quatro dimensões do responder relacional, tais como complexidade, flexibilidade, derivação e coerência[1]. Seria possível então ir além na leitura da queixa mencionada e pensar em intervenções focadas em cada propriedade. Aqui vão algumas ideias.

Quando o cliente diz algo como “eu sou uma pessoa ansiosa”, ele está apontando um vínculo mútuo entre o “eu” verbal e o termo (e as funções atribuídas a ele) “ansiosa”. Essa seria uma relação básica (entendemos que eu=ansiosa, logo ansiosa=eu). Se o cliente diz que sem dúvida ele é uma pessoa ansiosa e em todos os momentos fica ansioso, a relação seria classificada como tendo um nível alto de coerência (isto é, é muito verdadeira). Em uma interação, o cliente pode se descrever como alguém ansioso desde a infância, levando a supor que a relação tem um nível baixo de derivação, o que significa dizer que foi aprendido e já passou por reforçamento em diferentes contingências ao longo do tempo, de modo que o cliente se sente assim muito comumente. Poderíamos então perguntar: “por que você se considera uma pessoa ansiosa?”, ao que o cliente começaria a relatar diferentes situações e ambientes onde se sentiu ansioso, falando também de outros sentimentos que vieram com a ansiedade; poderíamos dizer a esse respeito que há um alto nível de complexidade naquela relação. Se, por fim, o terapeuta apontasse que naquela sessão o cliente não parecia ansioso e isso causasse algum tipo resistência por parte do cliente (ex: “Você é que não percebeu, você não tem a menor noção de como eu sou ansioso”), poderíamos inferir que a relação teria um baixo nível de flexibilidade.

Reflexões como essas podem orientar o olhar do terapeuta, direcionando-o para que possa se manter em constante análise e pensar no melhor foco para uma intervenção. O caminho poderia ser menos claro ou fomentando menos reflexões se nos limitássemos a dizer que o cliente está “em fusão com pensamentos sobre ansiedade”. As intervenções derivadas desse tipo de análise não necessariamente seriam diferentes de intervenções guiadas pelos princípios da ACT, e não me parece que esse era o objetivo da proposta do modelo MDML. O objetivo aqui era criar uma ponte entre o que se vinha pesquisando em laboratório e o que se identificava em demandas clínicas. Criar um diálogo entre pesquisador e clínico, que muitas vezes são a mesma pessoa.

A clínica analítico-comportamental, porém, ganha algo maior do que isso: ferramentas que possibilitam que o terapeuta faça uma constante avaliação do seu trabalho baseado em princípios passíveis de pesquisa e investigação constante. Uma base para que não nos acomodemos em nossas análises e continuemos olhando para o comportamento em constante mudança do nosso cliente. Como argumentam Matthieu e Jennifer Villatte e Steven Hayes, em seu livro Mastering the clinical conversation, maior conhecimento da RFT pode trazer flexibilidade ao repertório do clínico, fazendo com que seja possível aprender intervenções derivadas de qualquer modelo terapêutico e adaptá-las em função dos princípios e objetivos adotados pelo Contextualismo Funcional.

Voltemos à pergunta central, portanto: se eu quiser usar a ACT, preciso aprender RFT? Aqui eu diria que, assim como na Análise do Comportamento, é interessante usar um critério pragmático. É possível? Funciona? Isto é, você tem condições (tempo, disposição) de aprender RFT? Sente que isso pode te tornar um melhor terapeuta?

Dentro da própria comunidade acadêmica contextualista funcional podemos encontrar opiniões variadas. Profissionais que trabalham ou tem afinidade com a RFT advogam que não usá-la seria distanciar a ACT da análise funcional e, portanto, das suas bases propostas. Um profissional com maior resistência à teoria poderia argumentar que nem sempre é possível/viável/interessante que um estudante tenha que passar por todas as bases complexas propostas pela RFT para que se torne um bom terapeuta. Se a balança pende para um lado ou para outro, isto é, se melhores resultados são alcançados com ou sem RFT, é uma questão empírica. Até que tenhamos essa resposta, portanto, fica a minha pergunta: o que funciona para você?

 

Referências:

Barnes-Holmes, D., Barnes-Holmes, Y., Luciano, C., & McEnteggart, C. (2017). From the IRAP and REC model to a multi-dimensional multi-level framework for analyzing the dynamics of arbitrarily applicable relational responding. Journal of Contextual Behavioral Science, 6(4), 434-445.

Luciano, C. (2016). Evolución de ACT. Análisis y Modificación de Conducta, 42, 3-14.

Villatte, M., Villatte, J. L., & Hayes, S. C. (2015). Mastering the clinical conversation: Language as intervention. Guilford Publications.

[1] O responder relacional é também analisado a partir de níveis, sendo eles: mutual entailing, relational framing, relational networking, relating relations e relating networks. A proposta, embora muito importante e rica, não será tratada aqui em detalhes. Para quem se interessar, recomendo fortemente o artigo, presente nas referências.

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