A importância clínica dos Comportamentos Respondentes

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No artigo (link: https://www.comportese.com/2018/01/o-reflexo-aprendido-e-sua-relacao-com-os-sentimentos) foram elucidadas as relações que os reflexos aprendidos têm com os sentimentos, assim como foi descrito o processo incondicionado e condicionado. Contudo, os reflexos são comportamentos clinicamente relevantes em outros aspectos, além dos sentimentos. Por vezes, quando estes são estudados ou exemplificados, sua dimensão clínica não é evidenciada. Isto porque os exemplos clássicos de reflexos são referentes a situações laboratoriais, controladas e observadas sistematicamente. Estas pesquisas e seus relatos são de fundamental importância científica, principalmente seus métodos para produção de dados fidedignos.

Os experimentos clássicos de Pavlov, por exemplo, são amplamente divulgados em pesquisas e ressaltados em aulas de Reflexos Condicionados. A fim de que sejam aprendidas as relações reflexas incondicionadas e condicionadas, suas diferenças e importância. Apenas com um bom aprendizado sobre suas relações poderão ser observadas estas relações comportamentais em ambiente clínico.

Leonardi e Nico (2012) salientam que, há fenômenos que produzem respostas reflexas incondicionadas e condicionadas com algumas diferenças, por exemplo, nos estudos de Pavlov, a saliva condicionada e incondicionada apresentavam quantidade e composição diferentes. Em situação clínica este processo poderia ser observado no desenvolvimento de tolerância e dependência ao uso de drogas (cocaína ou heroína). O uso da droga produz repostas incondicionadas no organismo, como as respostas compensatórias, por exemplo. Estas respostas compensatórias são inatas, com objetivo sistêmico do organismo de auto regulação.

A partir de um uso sistemático das substâncias, as condições ambientais antecedentes exercem função condicionada, e a partir disso passam a eliciar os processos regulatórios eliciados pela droga. Por conta disso, doses cada vez maiores são necessárias para que se atinjam os efeitos iniciais, este fenômeno é conhecido como tolerância (LEONARDI & NICO, 2012, p.22).

Posteriormente, se a droga for consumida em um ambiente diferente do usual (diferente do condicionado), o organismo pode entrar em colapso por não estar preparado para receber a quantidade consumida. A este fenômeno dá-se o nome de overdose. A presença de estímulos condicionados ao uso da droga pode eliciar processos regulatórios (reflexos condicionados), mesmo na ausência da droga, e isso produz o que denominamos de crise de abstinência (LEONARDI & NICO, 2012).

Isso significa que os reflexos condicionados preparam o organismo para o estímulo incondicionado e, por conseguinte surgem as respostas incondicionadas. Nesta situação descrita acima, pode-se imaginar que o uso de droga tenha sido condicionado ao fato de estar no carro, pois em sua história este processo se repetiu sistematicamente. O fato de estar no carro (condicionado) produzirá respostas orgânicas compensatórias ao uso, que podem ser descritas como “vontade de usar”.

O mesmo também vale para muitas outras situações cotidianas, como fazer as refeições, as relações sexuais e até mesmo situações de briga, em todas estas o condicionado precede os incondicionados e por sua vez, tem seu valor de sobrevivência para manutenção da espécie humana. Nesta análise, o reflexo condicionado surge como uma forma de preparação para o que virá, preparação esta que pode garantir a sobrevivência do organismo em condições que demandam respostas complexas, com uma demanda orgânica específica.

 

Referências:

 

LEONARDI, Jan Luiz. NICO, Yara. Comportamento Respondente. Clínica Analítico-Comportamental. Org. BORGES, Nicodemos B. CASSAS, Fernando A. – Porto Alegre: Artme, 2012. p.18-23

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Giovana Pagliari
Mãe de 4 cachorrinhas lindas, adora falar - ainda mais quando o assunto é: maternidade, memória, suicídio, fisiologia. Prioriza um olhar humano que seja integral, não dispensa uma boa conversa com a neuro e com a fisiologia. Seus textos são rechados de ACT e por vezes, gosta de explorar temas que podem parecer simples, mas são fundamentais para compreensão dos processos clínicos. Graduada em Psicologia. Pós-graduanda em Fisiologia Translacional. Realizou estudos e apresentações sobre os temas: adoção e suicídio. Co-autora no capítulo "Comportamentos Suicidas". Realiza atendimento psicológico em Cambé-PR (Clínica do Hospital São Francisco) e Londrina-PR (Clínica Soma), também faz atendimentos on-line. E-mail: giovanapagliari.gp@gmail.com Instagram: @giovanapagliari
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