[Entrevista] Rafael Ernesto fala sobre Análise do Comportamento e Surdez: possibilidades de atuação ao psicólogo comportamental

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A atuação de analistas do comportamento com surdos é uma prática que vem acontecendo, apesar da baixa publicação no país. Infelizmente quase não há divulgação de práticas como estas em nossa comunidade. A entrevista a seguir irá discutir sobre o assunto, evidenciando algumas das possibilidades de contribuição que a Análise do comportamento pode fazer.

Foto: arquivo pessoal do entrevistado

Rafael Ernesto Arruda Santos é behaviorista clássico. Formado em Psicologia, com mestrado em Psicologia Experimental pela Universidade Federal do Pará (UFPA). Doutorando em Educação Especial pela Universidade Federal de São Carlos, sua linha de pesquisa se concentra em desenvolvimento de tecnologia comportamental para surdos.

“Infelizmente, a prática do analista do comportamento não reflete uma situação social maior, temos um público diversificado (profissionais, estudantes e familiares) da Educação Especial, esperando por avanços tecnológicos, educacionais e terapêuticos.”

Comporte-se: Imagino que, para muitos, este é um tema pouco comum. Nesse sentido, gostaríamos que começasse nos dizendo: o que a análise do comportamento tem a falar sobre a surdez?

Rafael: A pergunta tem uma palavra chave para começar a resposta: POUCO. Dessa palavra posso esclarecer dois aspectos, o primeiro permeia as produções já realizadas pela Análise do Comportamento e o segundo aponta para o que falta para a Análise do Comportamento avançar sobre o tema. Nesse sentido, antes de tudo é preciso compreender a história da surdez.

Os surdos, enquanto comunidade e cultura, por muito tempo sofreram repressão de sua identidade e do uso da sua língua (comportamento verbal para os mais radicais). Desde a antiguidade até a idade medieval, era comum o surdo ser considerado alguém amaldiçoado por forças divinas porque “a fé vem pelo ouvir, e o ouvir vem pela palavra de Cristo” (Romanos 10:17). No século XIX, se estabelecem duas escolas de ensino para os surdos. Uma é a dos Gestualistas, seguindo os ensinamentos do Abade L’Epée², para quem a valorização dos sinais era o aspecto educacional principal do seu modelo de ensino. Outra é a dos oralistas, as línguas de sinais eram um atraso educacional, uma vez que o primordial era a língua falada.

Você pode se perguntar nesse momento: E o que a Análise do Comportamento tem a ver com isso? Justamente. A tradição oralista predominou no pensamento dos pesquisadores por muitos anos (Do contexto descrito até a década de 1960). O problema com os estudos desenvolvidos por analistas do comportamento é que valorizaram a língua falada e ignoraram a Língua de Sinais como objeto de estudo. Essa é uma atitude que reflete, na melhor das hipóteses, falta de conhecimento sobre a relevância do tema e, na pior das hipóteses, desinteresse da comunidade de analistas. O estudo de Gatch e Osborne, datado de 1989, é o primeiro que faz um estudo envolvendo uma língua de sinais (no caso, a American Sign Language). Essa pesquisa ocorre 29 anos depois do primeiro estudo da Linguística envolvendo Língua de Sinais.

Comporte-se: Como é a atuação do analista do comportamento (técnicas e procedimentos utilizados) para auxiliar na aprendizagem dos surdos?

Rafael: Ao redor do País, os procedimentos são focados em contextos educacionais. Três universidades têm produções sobre Análise do Comportamento e Surdez: Universidade Federal do Pará (UFPA), UNESP – Bauru e Universidade Federal de São Carlos (UFSCar).

Na UFPA, o Laboratório de Estudos do Comportamento Complexo (LECC), encabeçado pelo Prof. Dr. Grauben Assis, desenvolveu estudos baseados nos estudos de equivalência de estímulos. Todas as pesquisas são pautadas em questões educacionais e mais especificamente no uso de programas virtuais de ensino para repertórios de matemática e português.

Na UFSCar, as pesquisas com surdez e análise do comportamento são realizadas pelo Prof. Dr. Nassim Elias e colaboradores. São investigados aspectos das línguas de sinais em estudos com equivalência de estímulos e emergência de relações condicionais e imitação de sinais, a emergência de tatos e mandos por meio de sinais e testar a efetividade de procedimentos comportamentais na construção de sentenças em português com surdos.

A Unesp – Bauru desenvolve pesquisas baseadas no ensino da fala para crianças com deficiência auditiva que passaram pelo processo do implante coclear, no Laboratório de Aprendizagem, Desenvolvimento e Saúde, o LADS, sob orientação da Prof. Dra. Ana Cláudia Verdu. Essa cirurgia permite substituir artificialmente parte do ouvido interno que não funcionava naturalmente. Dessa forma, o indivíduo com perda auditiva começa a receber estimulação auditiva e a Análise do Comportamento contribui para o desenvolvimento da fala e repertório de ouvinte nessa criança.

Comporte-se: Apesar de alguns avanços, a sociedade ainda hoje se mantém excludente e segregadora, principalmente em algumas regiões do país. Em sua opinião, de que maneira a Análise do comportamento pode contribuir para combater o preconceito / discriminação com os surdos? Nesse sentido, quais seriam as estratégias que poderiam ser adotadas pela área?

Rafael: Primeiro, eu gostaria de inverter a pergunta: “De que maneira a Análise do Comportamento colabora para o preconceito / discriminação com os surdos?”. Muito fácil de perceber, quantos surdos analistas do comportamento você já viu na comunidade? Quantas palestras de analistas do comportamento têm intérpretes em Libras? Em Línguas de Sinais, quais os sinais para as palavras “reforço” e “estímulo”? Quantos professores surdos têm contato e treino em Análise do Comportamento para ter autonomia? Quantos livros da Análise do Comportamento foram escritos e/ou traduzidos para braile?

Essas perguntas são para tirar o vislumbre e o comodismo dos profissionais da área. A verdade é que os profissionais estão focados num tema específico: Autismo. Eu não considero essa prática prejudicial, mas é comum ouvir coisas como “Você não pode falar um pouco sobre autismo?”, “Não tem como ensinar língua de sinais pra uma criança autista?” ou “Língua de sinais pra quê?”. Infelizmente, a prática do analista do comportamento não reflete uma situação social maior, temos um público diversificado (profissionais, estudantes e familiares) da Educação Especial, esperando por avanços tecnológicos, educacionais e terapêuticos. A Análise do Comportamento pode avançar não só com o autismo, mas com a surdez, deficiência visual, deficiência intelectual, surdocegueira e etc.

Apesar disso, considero que os profissionais da área, ao abrirem o leque de possibilidades para pesquisa e prática na surdez e outros públicos, conseguirão um diálogo com outras abordagens e área. A Análise do Comportamento apresenta resultados positivos, tem filosofia e práticas sólidas, quanto mais avançarmos na inclusão de pautas diferentes em nossa agenda e de pessoas que as representam em nossas fileiras, mais conseguiremos nos posicionar em políticas públicas e questões sociais maiores.

As tecnologias comportamentais colaborarão para uma melhoria na qualidade de vida das pessoas surdas. Por exemplo, conversando com outros pesquisadores surgem ideias sobre como aperfeiçoar situações do dia-a-dia das pessoas surdas. O surdo poderia ter um dispositivo que avisasse sobre sirenes de ambulância, qual a melhor maneira de ensinar o português para o surdo se comunicar com ouvintes, software? A área tem muito pra colaborar porque valoriza o critério principal de sua filosofia: RESULTADOS POSITIVOS.

Comporte-se: Considerando o que vem sendo produzido pela análise do comportamento, quais são as suas expectativas para o futuro, no que se refere as contribuições da área, para a atividade que você executa?

Rafael: Vou dividir as possibilidades em três campos, para os contextos de contribuições da Análise do Comportamento: Filosofia (Behaviorismo Radical), Pesquisa (Análise Experimental do Comportamento) e Terapia (Análise Aplicada do Comportamento e Prestação de Serviços).

Pode gerar um estranhamento falar de implicações filosóficas da reflexão sobre a surdez, mas o uso da língua de sinais pode promover questionamentos nas definições conceituais da Análise do Comportamento. Por exemplo, os operantes verbais fazem sentido aplicados à Libras? O que seria um ecóico na Libras? Apesar de simples, essa pergunta remete ao fato de que Skinner, quando escreveu o Verbal Behavior (1957), estava embasado numa língua falada. Alguns vão defender que Skinner deixou claro que o comportamento verbal poderia ser analisado nos “gestos” e braile, mas a continuidade do livro e de sua análise se pauta em uma linguagem falada.

No campo de pesquisa, é necessária a ampliação de trabalhos na Análise do Comportamento. Um projeto futuro, que já está sendo programado, é traduzir aspectos educacionais da Análise do Comportamento para Libras, o que deve envolver aulas em Libras sobre os conceitos básicos da área e uma possível disponibilização desse material no Youtube.

Outra possibilidade de pesquisa é expandir os estudos da Análise do Comportamento para pessoas com surdocegueira, um público muito específico e que requer uma interação com o ambiente por meio do tato e comunicação tátil. Não consegui até hoje identificar algum estudo brasileiro de análise do comportamento com esse público. Aproveito pra defender o aumento de estudo com outros públicos da Educação Especial, como deficiência visual, intelectual e física.

Enquanto terapia, eu recebo pouca notícia sobre a atuação de terapeutas comportamentais com essa questão clínica. O desafio maior é APRENDER UMA NOVA LÍNGUA, esse processo demanda tempo, custo e dedicação. Os relatos sobre terapeutas comportamentais na área da surdez circulam por conversas de bar, mas produção documentada mesmo, eu ainda não tive acesso.

Notas do entrevistado:

  1. Meus agradecimentos ao Nassim Chamel Elias e Diego Mansano Fernandes pelo diálogo e apontamentos nessa entrevista.
  2. Para mais detalhes sobre a história da surdez e os personagens envolvidos, indico a referência: Lacerda, C. B. F (1998). Um pouco da história das diferentes abordagens na educação dos surdos. Cedes, 19 (46).

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