Análise Funcional na Prática Clínica

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Autoras:

Débora Louyse Almeida Lapa &

Melissa Nascimento Santana – Contato: melissanascimento27@hotmail.com

A Análise Funcional consiste em uma ferramenta bastante utilizada pelos clínicos comportamentais, assim como em outros contextos científicos e acadêmicos. Para se compreender a função dos comportamentos apresentados pelos clientes e assim elaborar as intervenções necessárias, busca-se identificar as causalidades do comportamento a partir das relações funcionais que são estabelecidas entre o indivíduo e o ambiente. Conforme Filho, Ponce e Almeida (2009), o ambiente na teoria skinneriana representa as dimensões físicas e sociais (internas e externas) que se encontram em relação constante.

Interpretar um comportamento significa compreender sua função, que pode variar de um indivíduo a outro, entre situações e no tempo. De forma geral, as funções dizem respeito à obtenção de estímulos apetitivos (ou prazerosos) ou á evitação de estímulos aversivos. (Costa e Marinho, 2002, p. 45)

Segundo Neno (2003), a análise de relações funcionais representa um modelo de interpretação e investigação dos fenômenos naturais, pelo qual o terapeuta poderá embasar sua prática clínica a partir dos pressupostos teóricos do Behaviorismo Radical. Assim, a análise estará voltada para o reconhecimento da múltipla e complexa rede de determinações de instâncias comportamentais, representada pela ação em diferentes níveis (filogênese, ontogênese e cultura) das consequências do comportamento.

O comportamento humano deve ser compreendido a partir das variáveis filogenéticas, ontogenéticas e culturais, por se tratar de uma combinação de controle das mesmas. Essa configuração atesta a singularidade do repertório comportamental de cada organismo, a filogênese no que diz respeito ao desenvolvimento da espécie e as variáveis ontogenéticas a história de vida e os processos de aprendizagem (Zilio, 2010).

Moreira e Medeiros (2007) ressaltam que, a todo tempo, controlamos o comportamento alheio e somos controlados, a análise vai buscar entender como funciona essa relação. Controlar um comportamento não significa obrigar o indivíduo a fazer algo, sem que o mesmo queira, mas sim conseguir fazer com que sua ocorrência se torne mais ou menos provável. Desse modo, com a análise funcional identifica-se o comportamento procurando entender em que circunstâncias o mesmo ocorre, quais são as ações, pensamentos, sentimentos do indivíduo e possíveis formas de intervenção.

As informações que o terapeuta pode obter sobre os antecedentes e as consequências produzem uma análise funcional molecular. Entretanto, um comportamento individual pode ser membro de uma classe de respostas mais ampla, ou seja, comportamentos que compartilham da mesma função com topografias diferentes. Essa possibilidade torna necessário buscar identificar classes de comportamentos mais abrangentes e compor uma unidade de análise e tratamento bastante ampla, isto é, molar (Meyer, et al. 2015).

Segundo Meyer, et al. (2015), construir uma tabela de tríplices contingências pode ajudar o terapeuta a se sentir em melhor condição de prever e controlar o comportamento do cliente e o seu próprio. Os autores exemplificam com uma tabela composta de três colunas: antecedentes, respostas e consequências e consideram que um procedimento possível para selecionar os comportamentos que irão compor a coluna de respostas, é o terapeuta elencar respostas moleculares (específicas) que fazem parte da queixa do cliente ou que foram identificadas como produzindo consequências aversivas. Em caso de semelhanças entre os antecedentes e consequências dessas diversas respostas, o terapeuta poderá identificar uma classe de respostas molar (ampla).

Em síntese, como ressaltado por Borges, et al. (2012), para que o terapeuta comportamental compreenda os comportamentos-alvo de seu cliente e possa realizar as intervenções necessárias é preciso previamente concluir a avaliação inicial, ao analisar funcionalmente as relações entre o cliente e seu ambiente, como se constituíram e o que as mantém. “A intervenção só deve ocorrer quando se conhecer sobre qual(is) pedaço(s) da contingência será necessário intervir – operação motivadora, estimulo discriminativo, classe de respostas, reforçador, etc. – ou seja, quando o clínico souber qual é o “problema” e o que ocorre” (Borges, et al. 2012, p. 108).

Referências

Costa, Silvana Elisa Gonçalves de Campos, & Marinho, Maria Luiza. (2002). Um modelo de apresentação de análise funcionais do comportamento. Estudos de Psicologia (Campinas), 19(3), 43-54. Disponível em: <https://dx.doi.org/10.1590/S0103-166X2002000300005>.

Leonard, Jan Luiz; Borges, Nicodemos Batista; Cassas, Fernando Albregard. Avaliação funcional como ferramenta norteadora da prática clinica. In: BORGES, Nicodemos Batista; CASSAS, Fernando Albregard. Clínica analítico- comportamental: aspectos teóricos e práticos. Porto Alegre: Artmed, 2012. Cap. 10, p. 105-109.

Moreira, Márcio Borges; Medeiros, Carlos Augusto.  A Análise funcional: aplicação dos conceitos. In: Princípios Básicos de Análise do Comportamento. Porto Alegre: Artmed, 2007. Cap.9, p. 146-164.

Meyer, Sonia Beatriz, et al. Análise Funcional do Comportamento. In: Terapia analítico-comportamental: relato de casos e de análises. São Paulo: Paradigma Centro de Ciências e Tecnologia do Comportamento, 2015, p. 145-163.

Neno Simone (2003). Análise funcional: definição e aplicação na terapia analítico-comportamental. Rev. bras. ter. comport. cogn. p. 151-165. Disponível em: <http://pepsic.bvsalud.org/scielo.php?script=sci_arttext&pid=S1517-55452003000200006&lng=pt.>.

Viotto Filho, Irineu A. Tuim, Ponce, Rosiane de Fátima, & Almeida, Sandro Henrique Vieira de. (2009). As compreensões do humano para Skinner, Piaget, Vygotski e Wallon: pequena introdução às teorias e suas implicações na escola. Psicologia da Educação, (29), p. 27-55.

Zilio, Diego. A natureza comportamental da mente: behaviorismo radical e filosofia da mente [online]. São Paulo: Editora UNESP; São Paulo: Cultura Acadêmica, 2010.  Disponível em: <http://books.scielo.org>.

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Debora Louyse Almeida Lapa
Graduanda em Psicologia pelo Centro Universitário Newton Paiva em Belo Horizonte – Minas Gerais. Possui experiência em acompanhamento terapêutico de crianças com Transtorno do Espectro do Autismo em ambiente escolar e domiciliar, atendimentos psicológicos direcionados a dificuldades de aprendizagem de crianças e adolescentes com desenvolvimento típico; Experiência em aplicação do método ABA (Análise do Comportamento Aplicada) para intervenções multidisciplinares em crianças e adolescentes e realiza atendimentos psicológicos clínicos de adultos a partir da abordagem Analítico-Comportamental. E-mail: deboralouyse@hotmail.com
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