Quando nosso cliente morre

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Escrevo este post no metrô, traçando notas iniciais em um caderno. Acabo de saber da notícia da morte de uma cliente querida, que chamarei de C. Muito da relação terapêutica com ela me fez ser não apenas a terapeuta, mas a pessoa que sou hoje. Quem foi que disse que terapeuta comportamental não trabalha com subjetividade? Não sente? Não passa pelos mesmos processos de entrar em contato com nossas emoções, assim como nossos clientes?

Não, não dá para esquivar-se do que se sente diante da morte. Nem eu, nem minha cliente, nem nós duas em relação. A temática “morte” chega para ficar desde o surgimento de um diagnóstico terminal. Nesse momento, estávamos ali eu, ela e tudo o que nós, humanos, mais tememos por aceitar: a proximidade do fim. Foi a busca por uma aceitação que nos uniu. Enquanto C. precisava aceitar que a sua vida teria um desfecho, eu teria que aceitar a impossibilidade de, por maior que fosse o meu investimento profissional durante todos os anos e nossos atendimentos, não conseguiria por fim à dor da minha cliente. Não, não conseguiria ser a super-heroína que a sociedade e nós, terapeutas, esperamos erroneamente ser, ainda que no fundo. Éramos duas ali, mas uma só na vivência da dor de não conseguir mudar a dura realidade.

É, terapeuta, ainda que grande seja seu aprimoramento técnico e científico, e a inquestionável luta por prever e controlar comportamentos, não controlamos tudo. Na verdade, em alguns momentos, controlamos quase ou absolutamente nada. Esse era um desses momentos. C. poderia desistir da terapia e, principalmente, da vida a qualquer momento. Meu desafio foi insistir para que ela não desistisse de se conectar com seus valores naquele momento. Quando nada mais resta, somos “nós” que ficamos. E quem ela gostaria de ser? Quais memórias gostaria de deixar? De que forma gostaria de ser lembrada? O que, em toda uma vida traçada, realmente valeria a pena? Enquanto eu iria traçando algumas dessas perguntas, ela recapitulava a vida e eu aprendia mais sobre a vida e a relação como em poucos momentos antes disso.

Ah, nossos clientes não sabem que viver a relação com eles são os melhores livros que podemos ler. Como somos tão iguais a eles! Vivemos dores inevitáveis, e pouco compartilhamos sobre isso. Era isso que eu dizia à minha cliente: “Não consigo mudar o fato de você passar por um turbilhão neste momento, mas posso te oferecer a minha mão para passarmos por isso juntas”. Estava dizendo a ela, em outras palavras, que “Estou aqui para sofrer contigo”. Hoje, pensando sobre isso, sobre cada paciente que passou na minha trajetória, a maior das “exigências” feitas por eles resume-se, a grosso modo, à súplica por alguém que se ofereça para sofrer e carregar junto todas as grandes e pequenas dificuldades. É isso que acontece em uma amizade, na vida em grupo, na vida amorosa, e não seria diferente em uma relação terapêutica.

É duro quando a gente se dá conta de que há lutas que, mesmo belas, não “venceremos”. Mas, querida C., você venceu! Você passou a ver a vida na morte. Deixou teus valores falarem mais alto. Foi o tempo de viver a família, de se conectar com valores espirituais, de revisitar algumas relações pessoais, de fazer as pazes com o passado e aceitar que algumas pazes não serão feitas, e que finalmente está tudo “ok” com isso. Seria possível pensar em flexibilidade psicológica diante de uma vida em que o desamparo mora junto? Buscamos juntas uma desesperança criativa, uma brecha, por menor que fosse, para lidar com o fim criando novos pequenos começos. Parar de pensar na morte não seria a solução, afinal, ela já tocava na campainha e fazia parte do nosso ambiente terapêutico assim como qualquer outro objeto presente da sala física do meu consultório. Seria mais uma tarefa em vão. Não tínhamos tempo hábil para permanecer em ciclos inúteis, que só quem acha que tem muito tempo de vida se mantém: MUDAR PENSAMENTO/SENTIMENTO – NÃO CONSEGUIR – FRUSTRAR-SE – TENTAR MUDAR DE NOVO – NÃO CONSEGUIR – FRUSTRAR-SE MAIS. Não poderia ser esse nosso lugar.

O compromisso passou a ser com seus valores. As metáforas, mesmo com toda a coleção ACTiana, passaram a ser a sua própria vida. Isso foi possível por você, C., ter conseguido desenvolver uma “noção de self” como alguém que vira observador dos eventos, das contingências. Você tornou-se expectadora da sua brava luta e de todas as suas experiências de maneira não passiva, e sim ativa. Eu, como sua terapeuta, também passei por processo semelhante: tornei-me expectadora da sua vida. Como sou grata por isso! Te coloquei no palco. E são realmente vocês, pacientes ou clientes, que devem estar no palco. Apenas vocês.

Sigo aqui, revisitando alguns dos nossos diálogos, concluindo que temos apenas um único e verdadeiro compromisso diante da vida: o de VIVER. Não de qualquer forma, mas de maneira compatível com nossos valores. Não de qualquer jeito, mas em contato com o presente. Continuo trabalhando para aceitar que você se foi, que é bem mais fácil por saber que você também ficou em mim e no contato que também posso estabelecer com (novos e outros) clientes, que se farão especiais como você, pois, na verdade, nossas dores e delícias, por mais diversas, são as mesmas: estamos sempre falando sobre o que não conseguimos controlar. Vai em paz, C. Fica em paz, terapeuta. Em resposta, posso dizer: estou em paz, querida.

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Ilana Landim

Doutoranda em Psicologia Clínica pela Pontifícia Universidade Católica do Rio de Janeiro (PUC-Rio). Mestre em Comunicação pela Universidade Federal do Ceará (UFC). Graduada em Psicologia pela Universidade de Fortaleza (UNIFOR) e especialista em Clínica Analítico-Comportamental pelo Paradigma – Centro de Ciências e Tecnologia do Comportamento (Núcleo Paradigma). Bolsista de Doutorado da CNPq. Integrante e pesquisadora do Grupo de Pesquisa em Avaliação Psicológica: APlab Pessoas & Contextos, vinculado à PUC-Rio. Coordenadora do Grupo de Estudos Temas em Terapia Analítico-Comportamental Infantil (APlab/PUC-Rio). Coordenadora da Oficina de Testes e Técnicas Psicológicas, cujo serviço é oferecido aos estagiários de Avaliação Psicológica (PUC-Rio). Tem experiência na área clínica e educacional, com ênfase no atendimento individual e em grupo, terapia analítico-comportamental, avaliação psicológica infantil e orientação profissional. Tem interesse pelas seguintes temáticas de estudo: terapias e intervenções comportamentais, terapias de terceira onda, análise do comportamento, avaliação psicológica infantil e infância. E-mail de contato: ilanaclandim@gmail.com

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