O sujeito “cognitivo” e o sujeito “operante”: Implicações clínicas

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O ser humano pode ser estudado de inúmeras perspectivas no contexto da Psicologia. É comum nos depararmos com expressões que representam tais perspectivas utilizando termos como o sujeito do inconsciente – na psicanálise, o sujeito social – na psicologia social, o sujeito sócio-histórico – na psicologia de Vygotsky, e assim por diante. Deste modo, o título deste artigo indica a perspectiva cognitiva de sujeito – o sujeito cognitivo – e a perspectiva analítico-comportamental – o sujeito operante. Não à toa, estas duas perspectivas são frequentemente confundidas e isso pode gerar uma confusão na prática profissional. A prática salientada aqui será a prática clínica.

Antes de prosseguir, é pertinente pontuar que uma perspectiva teórica não deve ser encarada como melhor ou mais correta que a outra. O adjetivo que vem após a palavra sujeito representa, além de uma diferença básica de concepção, uma diferença de ênfase sobre algum aspecto do ser humano que não cabe juízos de valor do tipo “certo” ou “errado”. Do ponto de vista da ênfase, a psicanálise irá enfatizar os aspectos inconscientes que, segundo esta teoria, predominam no controle do comportamento. A psicologia social irá enfatizar a relação do sujeito com o seu meio social, e as influências recíprocas que ocorrem entre eles e assim por diante.

Seguindo esta lógica, a psicologia cognitiva enfatiza as cognições ou pensamentos do sujeito e os concebe como elementos centrais que caracterizam e determinam o modo como as pessoas agem e as queixas que chegam ao consultório. Em termos clínicos, a terapia cognitiva propõe que a maneira como os indivíduos percebem e processam a realidade é o principal determinante dos sentimentos e comportamentos e o seu principal objetivo é reestruturar e corrigir pensamentos distorcidos. O enfoque internalista deste modelo é um legado da teoria psicanalítica, embora os procedimentos terapêuticos se assemelhem mais à terapia comportamental (Knapp & Beck, 2008). Para este modelo, “não é o evento em si que gera as emoções e os comportamentos, mais sim o que nós pensamos sobre o evento” (Knapp, 2004, p. 20).

Em contrapartida, a perspectiva operante Skinneriana enfatiza as consequências na determinação de como as pessoas agem e das queixas clínicas. Aqui, abandona-se a ideia de uma variável interveniente entre o ambiente e o comportamento – cognições, interpretações, processamento de informações, etc. – e adota-se a relação observável entre comportamento e ambiente como a base explicativa. Neste sentido, qualquer variável interveniente não seria a causa do comportamento, mas causada por algum evento ambiental (Zillio & Carrara, 2008). O comportamento é visto como um objeto de investigação em si mesmo e não como uma manifestação decorrente de alguma estrutura cognitiva de natureza distinta. Como afirmam Pimentel, Bandini e de Melo (2012, p. 223), “não há, portanto, nada que seja imaterial, transcendente ou fora do mundo ‘físico’”.

O sujeito “cognitivo” exibe uma atividade de natureza especial e distante da ação concreta – o pensamento – enquanto que o sujeito “operante” exibe apenas a ação concreta, que pode ser pública ou privada (Bandini & Delage, 2012). O primeiro é um sujeito dualista e controlado por processos internos, e o segundo um sujeito monista controlado pelas consequências. A cognição, para o psicólogo cognitivo, tem lugar privilegiado na explicação do comportamento, enquanto que para o analista do comportamento, ela não possui status privilegiado, caracterizando-se como um comportamento de natureza verbal e que é produto de contingências históricas e atuais

A disparidade de concepções de homem é bastante evidente, de modo que assumir uma implica em abandonar a outra. Dito de outra forma, assumir que o homem é produto das suas representações cognitivas implica na crença de que ele possui uma instância não verificável que determina o seu comportamento, ao passo que assumir que o homem é produto direto do seu fazer – histórico e atual – implica na crença de que não há instâncias cognitivas determinantes ou mediadoras. Portanto, torna-se inviável conciliar as duas concepções. Nas palavras de Costa (2002, p. 44), “defender a compatibilidade, complementaridade e/ou integração entre Behaviorismo Radical e Cognitivismo constitui em uma incoerência teórica que só pode ser explicada pela ausência de familiaridade com os pressupostos de uma ou outra orientação…”

Implicações clínicas

Qual a implicação de assumir uma ou outra concepção na prática clínica? Como isso interfere na maneira do terapeuta interpretar as queixas clínicas e agir diante do seu cliente?

Um terapeuta que atua baseado no modelo cognitivo, irá formular o caso enfatizando os processos cognitivos implicados na queixa. Um terapeuta que atua baseado na análise do comportamento, irá formular o caso enfatizando as contingências de reforçamento implicadas na queixa. Para ilustrar, vamos ver um exemplo de um cliente com transtorno de ansiedade social.

O terapeuta cognitivo, em geral, investigará com bastante ênfase a maneira como este cliente interpreta uma situação de interação social. Provavelmente, como uma ameaça. Essa interpretação, segundo o modelo cognitivo, decorre de estruturas cognitivas mais profundas – as crenças centrais ou esquemas cognitivos. Essa forma de interpretar – distorcida, segundo o modelo – é que produz o alto nível de ansiedade e os comportamentos de evitação social. Portanto, o objetivo central aqui é alterar a maneira como o cliente interpreta a situação social, e a técnica principal é a reestruturação cognitiva. O terapeuta busca identificar, quase que constantemente, as atribuições de significado que o cliente faz, o processamento de informações e outras atividades cognitivas, entendendo que esta é a fonte central do problema.

O terapeuta analítico-comportamental, em contrapartida, investigará com bastante ênfase as consequências ambientais que fortalecem os comportamentos descritos como de ansiedade social. Provavelmente, remoção de críticas e avaliações negativas e alívio da ansiedade. O foco aqui não é a reestruturação de crenças – embora estratégias para lidar com regras também façam parte do processo – mas sim a alteração da função dos estímulos. Em outras palavras, busca-se incentivar o cliente a se expor às contingências sociais para que as consequências deixem de ser tão aversivas e possam adquirir função reforçadora. É evidente que isso vem acompanhado do desenvolvimento de um repertório social mais habilidoso. O ponto central é que a interpretação que o cliente faz da situação social como uma ameaça não ocorre no vácuo, mas é fruto de uma história de punição em situações sociais e gerada pela iminência de uma exposição social.

Evidentemente, existem inúmeros detalhes e particularidades sobre estes dois modelos de intervenção não mencionadas aqui. O objetivo foi tentar demonstrar que, terapeutas bem fundamentados nestes referenciais teóricos, olham para coisas diferentes, enfatizam coisas diferentes, compreendem coisas diferentes e, consequentemente, agem de forma diferente em suas atuações clínicas, mesmo que, em um primeiro momento, pareçam estar seguindo um mesmo curso de ação ou de raciocínio clínico. Adotar um ou outro paradigma irá depender da história particular e das contingências atuais que cada terapeuta responde.

 

Referências

Bandini, C. S. M., & Delage, P. E. G. A. (2012). Pensamento e criatividade. Em M. M. C. Hubner & M. B. Moreira (Orgs.), Temas clássicos em psicologia sob a ótica da análise do comportamento. Rio de Janeiro: Koogan.

Costa, N. (2002). Terapia analítico-comportamental: Dos fundamentos filosóficos à relação com o modelo cognitivista. Santo André: ESETec.

Pimentel, N. S., Bandini, C. S. M., & de Melo, C. M. (2012). Compreendendo o abandono do “eu iniciador” em B. F. Skinner a partir das críticas de G. Ryle ao mentalismo tradicional: Questões teóricas e consequências práticas. Acta Comportamentalia, vol. 20 (2), pp. 217-233.

Knapp, P., & col. (2004). Terapia cognitivo-comportamental na prática psiquiátrica. Porto Alegre: Artmed.

Knapp, P., & Beck. (2008). Fundamentos, modelos conceituais, aplicações e pesquisa da terapia cognitiva. Revista Brasileira de Psiquiatria, vol. 30, suppl. 2, pp. s54-s64.

Zillio, D., & Carrara, K. (2008). Mentalismo e explicação do comportamento: Aspectos da crítica behaviorista radical à ciência cognitiva. Acta Comportamentalia, vol. 16 (3), pp. 399-417.

 

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